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“Guerra é paz”. A frase que o romance 1984 de George Orwell deu a conhecer define a nova vida da marca russa de armas Kalashnikov que vão passar a ser “armas de paz”. Por detrás desta transformação está Tina Kandelaki, uma modelo e socialite russa que é também diretora da Apostol, uma das principais agências de comunicação russas. Para ressuscitar a Kalashnikov Concern, a empresa produtora das metralhadoras que enfrentou um processo de falência em 2012, Kandelaki levou a cabo um rebranding da marca dando origem à nova vida das armas conhecidas por não encravarem, escreve a publicação Quartz.

De origem georgiana, Tina Kandelaki, conhecida em tempos como a apresentadora “mais sexy” da Rússia, teve em conjunto com a sua equipa, a ideia “contraintuitiva” de transformar as armas Kalashnikov usadas por terroristas, rebeldes e soldados em “armas de paz”.

“As armas Kalashnikov são feitas para manter a paz em todo o mundo, a nível regional e em determinados países”. As AK-47 “ajudam as nações a proteger a sua soberania, o direito de ter uma existência pacífica, o direito de escolher o seu próprio destino histórico”, afirma a Apostol.

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A mudança de posicionamento da marca acontece após esta ter sofrido problemas financeiros em 2012, que incluíram um processo de falência e que obrigaram a empresa a tomar um novo rumo, nas mãos de novos proprietários. Nessa altura, as linhas de produção das Kalashnikov foram redefinidas e divididas em três novas linhas: militar, desporto e caça. Simultaneamente, a empresa de Kandelaki ficou responsável mudar o visual da marca.

A Izhevsk Machinebuilding Plant (Izhmash), empresa que originalmente produzia as AK-47 e que entrou em processo de falência em 2012, foi então intervencionada pela empresa estatal Russian Technologies (Rostec), formada em 2007 pelo presidente russo Vladimir Putin com o objetivo de “revitalizar a indústria de armas russa”, conta a publicação especializada em armamento Guns.

A Rostec utilizou fundos estatais para pagar dívidas da empresa e de a salvar de um processo de falência. Mais recentemente, a Izhmash fundiu-se com a Izhevsh Mechanical Plant (Izhmekh), e a nova empresa foi batizada de Kalashnikov Concern.

Em 2013, 49% da Kalashnikov Concern foi vendida a dois empresários russos por 74,1 milhões de euros, tornando a empresa numa parceria público-privada.

 As armas mais abundantes do mundo

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, Mikhail Kalashnikov, um militar com 29 anos da União Soviética, criou o design das “Armas Automáticas de Kalashnikov modelo de 1947″, que são hoje em dia as mais abundantes do mundo.

É impossível determinar ao certo quantas AK-47 existem no mundo hoje em dia. A sua produção é um processo extremamente secreto, levado sobretudo a cabo por algumas das ditaduras mais extremistas do mundo, diz o jornal inglês Independent. Desde os tempos da União Soviética, as AK-47 têm sido produzidas em países como Albânia, Arménia, Bulgária, China, Alemanha, Egito, Hungria, Irão, Iraque, Coreia do Norte, Polónia, Roménia, Rússia, Sérvia e Estados Unidos.

Estima-se que existam no mundo Kalashnikovs suficientes para dar uma arma a cada 70 pessoas. O número total de Kalashnikovs existentes ronda os 100 milhões apesar deste número crescer todos os anos, diz a mesma fonte.

Alguns especialistas de controlo de armas afirmam que quando o preço das AK-47 aumenta, o clima de instabilidade em determinado país é considerado elevado e quando o preço desce, é sinal de não existe nenhum conflito eminente.

Numa conferência das Nações Unidas em 2001 foi divulgado que as armas de pequeno porte eram usadas em 46 dos 49 maiores conflitos armados da década de 1990, onde cerca de quatro milhões de pessoas perderam a vida. Em 2004, a Human Rights Watch, uma organização internacional que realiza pesquisas sobre os direitos humanos, concluiu que cerca de 18 nações utilizavam crianças-soldado nos seus conflitos. Na maior parte deles, as Kalashnikovs eram as armas mais populares.