O PS está em suspenso com a possibilidade de José Sócrates sair da prisão de Évora. A quatro meses das eleições legislativas, o fator Sócrates vem ensombrar a direção de António Costa e, nas contas sobre as consequências políticas de tal notícia, há quem, mesmo assim, considere que uma saída de Évora agora terá menos impacto do que em setembro.

São várias as perguntas, que os socialistas gostariam de ver respondidas para acalmar o pânico. Será que Sócrates vai poder dar entrevistas em prisão domiciliária? E vai comentar a campanha do PS? Ou está desejoso de usar a sua governação para defender-se das críticas de Passos e Portas?

“Obviamente que prejudica o Costa e o PS, mas não acredito que foi de propósito. Confio na justiça. Com ele em casa, sempre a falar, prejudica sempre o PS”, afirmou ao Observador um dirigente socialista. “Isto é tudo complicado, mas é complicado desde que o ex-primeiro-ministro foi preso”, desabafa um deputado. “Ele é incontrolável, vai ser como o Vale e Azevedo para o PS”, receiam. “Não faço ideia o que vai acontecer”.

No meio das interrogações, parece haver uma certeza. Seria pior se a revisão da medida de coação para prisão domiciliária fosse apenas feita em setembro (todas as medidas de coação são revistas de três em três meses), ou seja, em plena campanha eleitoral, uma vez que as legislativas serão em outubro. “Seria pior em cima da campanha. O impacto nas notícias seria muito maior”, confia um dirigente.

“Sou amigo dele. Como amigo dele, quero que isto se resolva o mais rapidamente possível”, considera um ex-governante de Sócrates.

Mas há aqui um fator que pode desequilibrar (mais) a balança. Ao que o Observador apurou, José Sócrates não está contente com a posição de cautela assumida por António Costa. De recordar que o líder socialista foi visitar o ex-primeiro-ministro apenas uma vez a Évora e que as reações que têm tido são no sentido de separar a gestão política do caso da justiça, não se pronunciado sobre a sua possível inocência. E no Rato ninguém sabe se José Sócrates não fará sair cá para fora esse desagrado, prejudicando o líder socialista. Só há uma dúvida: o que pesa mais para Sócrates, estar zangado com Costa ou o rancor em relação a Passos Coelho?

O Ministério Público propôs na sexta-feira que a atual medida de coação de prisão preventiva seja substituída pela prisão domiciliária com pulseira eletrónica. O advogado, João Araújo, no entanto, disse logo no sábado aos jornalistas que o socialista ia decidir se queria aceitar ou não a prisão domiciliária porque no seu entender, estando inocente, nem sequer admite a necessidade de haver prisão domiciliária. A decisão sobre se Sócrates aceita será ainda esta segunda-feira comunicada ao juiz Carlos Alexandre.

José Lello, ex-governante, deputado e amigo de Sócrates, reagiu logo no Facebook, considerando a pulseira eletrónica uma humilhação.

José lello

Mas sinal que as coisas pelo Largo do Rato estão em modo de pânico camuflado – cá para fora a ideia é insistir na promoção do programa eleitoral e desviar Costa o mais que possível das balas perdidas do caso Sócrates – foi a reação do secretário nacional do PS, Porfírio Silva.

Porfirio

A separação de águas entre a justiça e a política foi aliás sublinhada pelo próprio secretário geral do partido. Primeiro quando José Sócrates foi detido (antes do congresso socialista) e agora quando foi conhecido que lhe tinha sido proposta a prisão domiciliária (mesmo no fim da Convenção nacional que aprovou o programa eleitoral). António Costa comentou esta segunda-feira a revisão da medida de coação do ex-primeiro-ministro do PS José Sócrates, preso preventivamente por fraude fiscal qualificada, corrupção e branqueamento de capitais, considerando que “não compete ao PS substituir-se quer à acusação quer à defesa, nem muito menos ao juiz, que deve julgar”.

“Tenho tido uma regra da qual não me desviarei um milímetro. Trata-se de um caso de justiça. A defesa apresentará a sua versão da história”, começou por dizer Costa, no Fórum da TSF esta manhã, acrescentando que quer “despoluir” o debate político destes casos de justiça porque “respeita a independência da justiça e a sua autonomia”.

Álvaro Beleza, um dos homens fortes de Seguro, vai mais longe, por sinal, na defesa. Ao Observador, Beleza lembra que é preciso haver uma “separação absoluta de poderes executivo e judicial. Deve haver até uma reforma da justiça que lhe desse mais autonomia” e que, por isso, confia na justiça. Mas além do lado da justiça, há o lado partidário e político: “Como socialista e militante, apesar de não ser amigo e de nunca o ter apoiado no partido, ele foi líder do PS e como tal merece de todos os socialistas o respeito e solidariedade individual e por isso, que no fim tudo corra bem e seja declarado inocente”. Os socialista acredita mesmo assim que “não vai contaminar as eleições e que não deve contaminar as eleições”, estas, diz, vão servir para “discutir programa de governo”.