Rosa de Lencastre ou D. Afonso o Gordo? Quando se chega ao início da Rua de Santo António da Sé, junto à catedral lisboeta, é legítimo que surja a dúvida. Desfaçamo-la: ambos. São como que dois gémeos siameses — Rosa é bar, Afonso é restaurante — que partilham o piso térreo de um dos primeiros edifícios pombalinos da cidade. Partilham, aliás, bem mais que isso: a gerência, o ambiente histórico e, não menos importante, a cozinha. Começa-se pelo bar, entrando vindo da Baixa Pombalina. E não se começa mal, pelo menos ao nível da oferta: há mais de 60 cervejas, entre artesanais e industriais, e só uísques são mais de 30.

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O Rosa de Lencastre serve de uma espécie de antecâmara ao Dom Afonso o Gordo.
(foto: © Tiago Pais / Observador)

“Quisemos criar aqui uma espécie de taverna à antiga portuguesa”, explica Jorge Silva, gerente do espaço. A aposta não é de estranhar, tendo em conta a estrutura tipicamente pombalina: são incontáveis os arcos e abóbodas na ligação ao teto, por exemplo. “O próprio Marquês de Pombal tinha uma casa neste quarteirão”, acrescenta Jorge. E não é tudo: já no restaurante, ao fundo, há um poço que esteve tapado durante décadas e que esconde água de uma nascente lisboeta situada perto do Castelo de São Jorge. Será potável? “Não sabemos, as últimas análises são de 1995. Até essa altura era”, conta o responsável.

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No fundo do poço corre água de uma nascente lisboeta. Ou seja, este podia ser o único restaurante da cidade a servir água local. (foto: © Tiago Pais / Observador)

Com tantas referências de outros tempos por onde pegar, não admira que a escolha do(s) nome(s) tenha seguido a mesma linha. Ou linhagem.

Escolhemos Rosa de Lencastre porque o bar tem inspiração britânica, dos pubs, e a rosa vermelha é o símbolo da casa de Lencastre, que está ligada à aliança entre Portugal e Inglaterra. O restaurante chama-se D. Afonso o Gordo porque era esse o cognome de Afonso II, o neto de Afonso Henriques, o rei mais importante da História de Portugal.”

A lição é de Karine Sarkisyan, a dona do espaço. Apesar de se ter mudado para Portugal há apenas um ano — é de origem arménia — já há algum tempo que fazia visitas frequentes ao país. Gosta da nossa História, como se percebe, mas não é menos fã da cozinha. E de uma especialidade em particular: leitão da Bairrada. Daí ter tornado essa forma de confecionar o bicho o grande chamariz da casa.

O leitão à Bairrada distingue-se do de Negrais — mais consumido em Lisboa, por (óbvias) razões geográficas — por ser assado inteiro (ao contrário do outro, que é aberto), recheado de especiarias e atravessado por um espeto. E foi do coração da região da Bairrada, do restaurante Mugasa, mais precisamente, que veio o mestre assador Ricardo Nogueira, para dar formação e aconselhamento a toda a equipa, nomeadamente ao chef Luís Correia que até aqui trabalhava em Inglaterra, com o célebre Jamie Oliver.

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O leitão, à direita, e o fiel amigo, o bacalhau, à esquerda. (foto: © Tiago Pais / Observador)

O leitão é tratado e assado no local, em fornos elétricos que são, segundo os responsáveis, “topo de gama”, e que reproduzem na perfeição o típico sabor do forno a lenha. E é aproveitado na totalidade: das empadas que são servidas no bar ao paté de fígado que surge como entrada.

No entanto, e apesar de despertar paixões, o leitão não é um prato consensual. Assim, da ementa fazem também parte outras propostas de carne a par de três receitas diferentes de bacalhau, com destaque para o clássico lagareiro. Já as sobremesas são algarvias. E conventuais.

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Parte da sala de refeições tem vista para a horta do restaurante.
(foto: © Tiago Pais / Observador)

Todas as quintas e domingos os jantares do D.Afonso o Gordo são acompanhados por fado. Os menus, neste caso, vão dos 32 aos 35€, com bebidas incluídas, uma alternativa mais em conta, em relação às casas de fado tradicionais. Mas quem preferir uma refeição rápida nem sequer precisa da benção d’ el-rei: no Rosa de Lencastre servem-se empadas, sandes e demais petiscos à base do porco jovem. Afinal, o soberano é mesmo ele.

Nome: D.Afonso o Gordo / Rosa de Lencastre
Morada: Rua Santo António da Sé, 14-18 (Baixa), Lisboa
Telefone: 96 587 2132
Horário: Bar: todos os dias das 10h às 00h (sexta e sábado até às 02h). Restaurante: todos os dias das 12h às 23h30
Preço Médio: 25€ (restaurante)
Reservas: Aceitam