26 de Abril. Ano de 1975. Stade Olympique Yves-du-Manoir, em Colombes. A França da década de 1970 não era uma selecção que metesse medo por aí além – a da década seguinte, com Platini, Fernández, Giresse ou Tigana, sim, metia. Em Portugal viviam-se os dias do PREC. Na seleção também, um processo “revolucionário” em curso, no qual a geração de Humberto Coelho, Toni, João Alves ou Octávio Machado daria lugar à de João Pinto, Álvaro, Chalana, Jaime Pacheco, Diamantino ou Rui Jordão – a tal que disputaria o Euro ’84.

A última vez que Portugal derrotou (2-0) a França foi precisamente nessa noite de 1975. Os golos foram apontados por Nené e Marinho, dois rivais nos dérbis de Lisboa, mas uma dupla que se entendia às mil maravilhas na selecção. Portugueses e franceses defrontaram-se, até hoje, por 23 vezes. A vantagem é toda ela gaulesa: 17 vitórias, um empate e somente cinco vitórias lusas. Entre tantas derrotas de Portugal, há três que doeram e muito, sempre em meias-finais, nos europeus de 1984 e 2000 e no Mundial 2006. A “besta negra” foi sempre um “10”: Platini em 84, Zidane em 2000 e 2006. Esta noite, em Alvalade, Portugal queria arrumar com um “galo” francês com mais de 40 anos.

Portugal: Rui Patrício; Vieirinha, Ricardo Carvalho, Pepe e Eliseu; Danilo Pereira, João Mário e Adrien Silva; Nani, Éder e Cristiano Ronaldo.
França: Lloris; Sagna, Varane, Koscielny e Evra; Cabaye, Sissoko, Matuidi e Pogba; Fekir e Benzema.

Se foi um jogo mal disputado? Não. Até que foi veloz. Mas longe, muito longe das balizas. Tanto que golos, nem vê-los. As defesas, se não cortavam a bola a bem, cortavam-na a mal e sobressalto não houve que se lhe conte nesta crónica. Os meio-campos, com a força de Danilo Pereira ou Cabaye, a classe de Pogba ou João Mário (Matuidi e Adrien também por lá andaram a contar quilómetros nas pernas), encaixavam um no outro, mas não desencaixavam para que o perigo se criasse. Na frente, Éder foi uma nulidade; Cristiano Ronaldo e Nani, idem. A Benzema e Griezmann, do lado dos franceses, também não se lhes viu melhor.

Mais bocejo menos bocejo, foi a França quem primeiro rematou, aos 31′. E que bela defesa fez Rui Patrício, com a perna esquerda. Benzema, longe da área, recebeu uma bola na esquerda, tocou-a para Cabaye, o médio do Crystal Palace desmarcou Griezmann, o avançado do Atlético de Madrid, pressionado por Pepe, desviou-a do luso-brasileiro, entregou-a para Matuidi, com o médio do PSG a rematar cara a cara com Patrício. Levou a melhor o português.

Portugal não conseguia responder numa jogada com cabeça, tronco e membros, então respondeu só com um membro, a perna direita de Ronaldo, num dos seus famosos livres “tomahawk”. Recuou, recuou e recuou mais um pouco Cristiano, mirou a baliza de Lloris, tirou-lhe as medidas e chutou. A bola, traiçoeira, tocou à frente do francês, mas este conseguiu desviá-la, a custo, para o lado. Foi aos 41′, para logo a seguir chegar o intervalo, sem mais o que contar da pasmaceira que foi a primeira parte.

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A segunda parte começou como decorreu toda a primeira. Há bons jogadores, que tentam ser velozes, mas que sabem que isto é só mais um particular, que no caso de Portugal o jogo a doer (e que pode dar-nos o apuramento para o Euro ’16, em França) é na segunda-feira, com a Albânia, e por isso não havia muito pelo que lutar hoje. E não lutaram. Nem de um nem de outro lado. Valha-nos que a bola até andou mais perto das balizas, sem perigo de maior, é verdade, mas perto.

Perigo, perigo, só mesmo aos 49′. Valeu-nos, de novo, São Patrício — que em Alvalade, com a selecção ou no Sporting, é sempre um padroeiro das balizas invioláveis. Pogba segurou a bola à entrada da área, não ganhou espaço para o remate, mas desmarcou Sissoko. O médio-interior direito francês, também sem espaços de remate, fez o mesmo Pogba, largou a bola, desmarcou Griezmann, e este, com Patrício, no chão, aos pés do avançado gaulês, não conseguiu desviar a bola do guarda-redes.

Aos 85′ adensou-se o “galo” francês. Ou melhor, português. É que voltámos a não ganhar, mas pior, perdemos. Valbuena, de livre directo, ele que tem palmo e meio de altura, fez-se um mostrengo e rematou a bola, precisa, no ângulo, para o fundo da baliza. 1-0. Fim de história em Alvalade. Há outra que continua: a do “galo” que dura desde abril de 1976.

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