Milhares de sul-africanos reuniram-se no centro de Pretória para se manifestarem contra a corrupção, visando particularmente o Presidente, Jacob Zuma, e o seu Governo.

Convocados por dezenas de entidades da sociedade civil — organizações não-governamentais, sindicatos, Igrejas — os manifestantes vão dirigir-se para a sede do Governo.

Os protestos dos cidadãos sul-africanos têm sobretudo por alvo o chefe de Estado, há meses envolvido no escândalo da renovação da sua casa de campo privada.

Sob o pretexto da resolução de problemas de segurança, a fatura das obras ascendeu a quase 20 milhões de euros.

Outras questões estão a minar a vida pública sul-africana, suscitando em alguns cidadãos que a democracia duramente conquistada em 1994 por Nelson Mandela, serviu sobretudo para enriquecer uma pequena classe dirigente, enquanto o país, ainda coberto de bairros da lata, se debate com um recorde nos números do desemprego e uma economia em câmara lenta.

Personalidades da sociedade civil, entre as quais o arcebispo e prémio Nobel da Paz Desmond Tutu, expressaram o seu apoio à manifestação.

“Uma sociedade que reparte os seus recursos em função da proximidade das pessoas com o poder não é menos culpada que uma sociedade que distribui os seus recursos em função da cor da pele”, declarou o ex-arcebispo, num comunicado divulgado pela sua fundação.

Esta semana, o ANC (Congresso Nacional Sul-Africano) negou acusações da autoridade bolsista norte-americana (SEC), segundo as quais teria recebido ilegalmente dinheiro do grupo japonês Hitachi para a construção de turbinas, no final da década de 2000.

A marcha contra a corrupção, marcada com muita antecedência, sofreu um grande revés nos últimos dias, quando o Governo recusou aos sindicatos envolvidos a possibilidade de apresentarem um pré-aviso de greve para que os seus membros pudessem participar no protesto.

A manobra, que pode resultar numa redução acentuada do número de manifestantes, foi classificada por alguns críticos como um método digno do “apartheid”, o regime racista abolido em 1994.

“Está-se a negar a um grande número de pessoas o direito a manifestar-se”, lamentou David Lewis, diretor da ONG Corruption Watch.

“Eles tornaram-nos as coisas mais difíceis, mas não penso que daí retirem algum benefício. Nós estamos em democracia e, em democracia, quando as pessoas falam, querem ser ouvidas, senão falam mais alto”.

Na Cidade do Cabo, sede do parlamento, para onde estava marcado um protesto semelhante, cerca de 2000 manifestantes concentraram-se ao início da tarde.

Alguns brandiam cartazes, onde se lia: “O apartheid roubou-nos o nosso passado. A corrupção está a roubar-nos o nosso futuro”.