Jorge Silva Carvalho, ex-diretor do Serviço de Informações Estratégicas da Defesa (SIED), revelou esta quinta-feira em tribunal que Paulo Santos, antigo quadro da Ongoing, era um espião pago. E contou também que lhe pediu informações sobre os dois cidadãos russos que negociavam com a empresa a compra de um porto marítimo grego: “Pedi para fazer a pesquisa porque uma fonte minha me pediu. Teve remunerações e contrapartidas. Tinha nome de classificação Panda”.

No decorrer da sessão, no Campus da Justiça, em Lisboa, o ex-chefe dos espiões avançou também que Paulo Santos era uma fonte que já trabalhava com os serviços secretos portugueses há “algum tempo”. “Ele era importante, não tanto pela informação que carregava, mas pelo acesso que tinha”, acrescentou o principal arguido do caso das secretas.

Mas Silva Carvalho garante que, à data em que lhe pediu as tais informações, “não tinha nenhuma ligação contratual com a Ongoing”. O ex-secretário geral do SIED disse que só ficou a saber dessa relação, entre Paulo Santos e a empresa, em fevereiro de 2011. Mas à época em que recorreu aos serviços de Paulo Santos para conseguir informações sobre os cidadãos russos, Silva Carvalho já estava a negociar a sua entrada na Ongoing, um acordo que o fez trocar, posteriormente, o serviço público pelo privado. O ex-espião disse ainda que desconhecia que a Ongoing estava a negociar a compra daquele porto “estratégico”.

Confrontado com a afirmação da juíza do processo, que disse que Silva Carvalho terá feito “algumas coisas” em benefício da Ongoing durante o período em que ainda trabalhava para o Estado Português, o arguido retorquiu: “É absolutamente falso, teve a ver com ações do serviço. Julgo que se está a referir à questão dos russos”.

E é pouco depois destas afirmações que o antigo diretor do SIED, explica que o Porto marítimo na Grécia era utilizado pelos Estados Unidos para transporte de armas e “importante porque tinha interesse estratégico.”

Reforçando que desconhecia qualquer interesse da Ongoing no local, o arguido esclareceu que a informação que tinha em mãos apontava para o interesse de dois cidadãos russos em comprar o porto marítimo grego. E justifica: “Todos os assuntos relacionados com estratégia têm interesse para o SIED” e, por isso, acrescenta já durante a segunda parte da audiência desta quinta-feira: “Pedi ao dr. Paulo Santos um conjunto de informações”. Para esse efeito, terá partilhado dados de contexto com Paulo Santos, um método que diz ser habitual para a pesquisa. A fonte, disse ainda, devia concentrar-se num daqueles dois cidadãos russos “que era considerado importante.”

“Eu sabia que Paulo Santos conhecia o Vasco Rato [ex-deputado do PSD, depois gestor da Ongoing], mas não sabia de alguma ligação profissional. Mas mesmo que ele fosse um quadro da Ongoing eu fazia a mesma coisa. Independentemente de estar a negociar com a Ongoing”, explicou ainda Jorge Silva Carvalho, dando também mais pormenores do negócio “investigado” e dos serviços de espionagem nacionais. “O interesse do SIED [naquele Porto] eram os próprios russos. A Rússia é uma das principais prioridades estratégicas do Estado português. No SIS, fui responsável por uma área sobre a Rússia. O dr. Júlio Pereira [diretor das Secretas] sabia da minha relação profissional com o dr. Paulo Santos”.

E sabia que Silva Carvalho era maçon: “Entrei para a maçonaria em 2005. O convite foi-me feito à frente do dr Júlio Pereira”. O arguido contou ainda que Nuno Vasconcelos e Paulo Santos já se conheciam, porque todos frequentavam esses encontros da maçónicos.

O ex-espião também explicou porque decidiu trocar o SIED pela Ongoing: “Decidi contactar o Nuno Vasconcellos [administrador] porque era amigo dele, não sabia sequer se a Ongoing procurava alguém. Naquele momento queria sair dos serviços por dois motivos: desilusão e saturação”. O problema era “um conjunto de decisões envolvendo o secretário geral do SIRP” que Silva Carvalho não enunciou.

As faturas detalhadas de Nuno Simas

Questionado pela procuradora do Ministério Público sobre se recorreu ao pedido da faturação detalhada do telemóvel do jornalista do Público, que escreveu uma notícia sobre o mal estar interno do SIED, Silva Carvalho admitiu ser uma prática habitual quando estão em causa “casos delicados.” Chamam-se “Medidas de auto-proteção” e, argumenta o ex-espião, não visavam o jornalista “mas o ponto de fraqueza”. Ou seja, o SIED concluiu que a fuga de informação teria saído de dentro dos serviços e o importante era entender “por que razão.” Por isso, disse a Júlio Pereira, diretor do SIS que deveriam investigar a faturação em causa. “E entreguei-lhe”, remata.

A concluir, Silva Carvalho disse que a sua “intenção era voltar ao Estado português” depois de sair da Ongoing, algo que só não aconteceu devido ao processo.

Este caso das Secretas, em que são arguidos Jorge Silva Carvalho, ex-diretor do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa, e Nuno Vasconcellos, presidente da Ongoing, começou a ser julgado em setembro. O caso teve origem em suspeitas de acesso ilegal à faturação detalhada do telefone de um jornalista, Nuno Simas, após este escrever vários artigos sobre a situação interna das Secretas.