Em abril, quando nos sentávamos num café de Lisboa para falar com Bruno Pereira, o responsável pela mostra de arte pública POSTER confessava a sua paixão por tudo o que era cartazes, até “os do Circo Chen”, dizia-nos.

A paixão por posters foi ganhando cor, de tal forma que o designer teve a ideia de forrar uma parte da cidade com cartazes desenhados por artistas de várias áreas, mesmo aqueles que não estavam habituados a fazê-lo. “Há alguns que se vão sentir muito à vontade neste meio, outros para os quais isso vai ser um desafio”, explicava na altura. “Imagino um arquiteto que trabalha em 3D passar para 2D…”

Passados dois meses, os posters já têm cola que chegue para aguentar o tempo incerto dos próximos dias e vão estar de quinta-feira, 16, até domingo, 19 de junho, nas paredes de seis ruas da zona de Marvila, à vista de todos e a qualquer hora do dia.

Se Bruno estava curioso com o trabalho dos arquitetos que convocou para este projeto que conta com o apoio da câmara, não parece estar desiludido. “Foram os que mais me surpreenderam”, conta. “Por exemplo o trabalho do arquiteto Pedro Campos Costa [responsável pela extensão do Oceanário de Lisboa], com uma peça com várias camadas, em que também se mistura 3D. Reinventou uma casa toda por dentro.”

13 fotos

Mil palavras não chegariam para descrever um poster e o melhor é ir à Rua do Açúcar, à Rua Fernando Palha ou à Rua Capitão Leitão (as mais conhecidas de Marvila) para ver o que o espera. Ao todo foram 20 os convocados, entre nomes como o do músico The Legendary Tiger Man e de escritores como Afonso Cruz, José Luís Peixoto ou Valter Hugo Mãe, que o vão fazer olhar para o ar – ou pelo menos para as paredes.

O Tigerman também é fotógrafo então sabia que não teria dificuldade em ter uma boa peça, o que se comprovou”, continua Bruno. “Usou uma polaroid duma série que costuma fazer depois dos concertos em que fotografa o público.”

Os resultados são bastante diferentes, até porque nesta mostra de arte pública há artistas mais do que habituados a estas andanças. Por exemplo, a ilustradora Wasted Rita, cujas frases em cartazes têm percorrido mundo (até há quem as tatue) e no ano passado também estiveram em exposição na Underdogs, a galeria de Vhils, também em Marvila.

O trabalho do fotógrafo Eduardo Harrington Sena (1923-2007), do artista plástico Paulo Brighenti ou do norte-americano Craig Atkinson, reconhecido pela Tate Gallery e pelo Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, desta vez não vão poder ser admirados dentro de quatro paredes. Tudo acontece em plena rua e à luz do dia, para “tornar a arte mais saudável, sem estar encriptada em espaços fechados”, dizia Bruno.

[o mapa do Poster]

poster mapa

Aos cartazes dos convocados juntam-se também os dos cinco candidatos que responderam à open-call proposta pela POSTER em Abril, com um cartaz da sua autoria – mesmo quem não tinha experiência podia participar – e outros trabalhos que resultaram do workshop de David Rosado com miúdos e quatro instituições e locais.

Se tem problemas de miopia, prepare-se porque “alguns cartazes foram colados mais alto para terem mais impacto”, adianta Bruno. Se quer vê-los de perto e sentir o cheiro do papel, terá de visitar “a exposição interior”, a Mini Poster, com todos os cartazes da mostra numa escala menor e com a sua devida identificação.

Na sexta, 17, às 18h30, haverá uma conversa gratuita sobre o projeto, o Talk Poster, a juntar três convidados que estiveram envolvidos na execução dos cartazes no mais recente espaço de cowork da cidade, o Lx Workhub: David Rosado, Paulo José Silva e Pedro Santos Costa.

Nos quatro dias da mostra, os responsáveis asseguram também visitas guiadas aos cartazes (são gratuitas e as inscrições fazem-se através do site do POSTER), que também podem ser a melhor maneira de conhecer Marvila, a zona da cidade que já é considerada o novo polo cultural e uma das mais criativas e alternativas.