O realizador português João Pedro Rodrigues venceu este sábado o prémio de melhor realização no Festival de Locarno, na Suíça, pelo filme O Ornitólogo, uma ficção sobre um investigador cuja vida se altera completamente durante um trabalho de campo numa floresta. O Leopardo de Ouro foi para Godless, filme da búlgara Ralitza Petrova, e o Prémio Especial do Júri foi atribuído a Inimi Cicatrizate (Scared Hearts), do romeno Radu Jude.

O Ornitólogo, uma coprodução da Blackmaria com a francesa House on Fire e a brasileira Ítaca Filmes, foi rodado entre agosto e novembro do ano passado na região do Douro e em Pádua, Itália, cidade apadroada por Santo António, a par de Lisboa. Segundo se lê na página do Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA), conta a história de Fernando, um ornitólogo de 40 anos que decide descer um rio a bordo de um caiaque, em busca de cegonhas negras. Distraído pela paisagem, é derrubado pelas correntes, salvando-se graças à ajuda de duas raparigas chinesas.

A longa-metragem tem data de estreia prevista para 5 de outubro em França, sob o título L’ornithologue.

O filme O Ornitólogo tem estado recentemente debaixo da ribalta, mas não pelas melhores razões. É que a produtora Blackmaria, que produziu o filme de João Pedro Rodrigues, está a dever dinheiro de salários a muitos dos trabalhadores que estiveram envolvidos na produção do filme — incluído ao próprio realizador. O atraso no pagamento dos salários foi denunciado no início do mês pelo CENA – Sindicato dos Músicos, dos Profissionais do Espetáculo e do Audiovisual — quealertou em comunicado para os “atrasos nos pagamentos de salários a vários trabalhadores” de filmes das produtoras Happygénio e Blackmaria, também financiados pelo ICA. O Ornitólogo é um dos filmes em questão.

João Pedro Rodrigues já tinha sido distinguido em Locarno, em 2012, com uma menção especial do júri, pela longa-metragem “A última vez que vi Macau”, uma obra assinada com João Rui Guerra da Mata. Mas esta foi a primeira vez que venceu a segunda categoria mais importante do festival, a de melhor realizador.

O Ornitologo - Photocall - 69th Locarno International Film Festival

A 69ª edição do festival de cinema de Locarno termina este sábado, na Suíça, tendo Portugal levado seis filmes à competição (duas longas-metragens e quatro curtas). Além da longa-metragem O Ornitólogo, estava também em competição o filme Correspondências, de Rita Azevedo Gomes, que acabou por não ganhar nada. Ambos os filmes competiam pelo prémio máximo, o Leopardo de Ouro. Mas o Leopardo de Ouro acabaria por ser atribuído ao filme Godless, da realizadora búlgara Ralitza Petrova.

Irena Ivanova ganhou o Leopardo para a melhor interpretação feminina por Godless e Andrzej Seweryn foi galardoado com o Leopardo de melhor ator pela interpretação em Ostatnia rodzina, do polaco Jan P. Matuszynski. A Menção Especial coube a Mister Universo, da italiana Tizza Covi e do austríaco Rainer Frimmel. “El auge del humano”, uma coprodução da Argentina/Brasil/Portugal, do realizador argentino Eduardo Williams ganhou o Leopardo de Ouro Cineasti del presente – Prémio Nescens, assim como a Menção Especial para as primeiras obras.

Entre as curtas portuguesas a concurso estavam Campo de Aviação, de Joana Pimenta, Estilhaços, uma animação de José Miguel Ribeiro, Setembro, de Leonor Noivo e À Noite Fazem-se Amigos, de Rita Barbosa. Nenhuma foi premiada. A presença portuguesa em Locarno teve ainda quatro outros filmes, exibidos fora de competição: “Longe”, de José Oliveira, “A brief history of princess X”, de Gabriel Abrantes, “O corcunda”, que este realizador rodou com Ben Rivers, e “O cinema de Manoel de Oliveira e eu”, de João Botelho.

Eis a lista dos vencedores:

Competição Internacional
Leopardo de Ouro – Godless (Bulgária, Dinamarca, França), de Ralitza Petrova

Prémio Especial do Júri – Inimi Cicatrizate/Scared Hearts (Romérnia, Alemanha), de Radu Jude

Melhor Realização – João Pedro Rodrigues por O Ornitólogo (Portugal, França, Brasil)

Melhor Actriz – Irena Ivanova por Godless (Bulgária, Dinamarca, França), de Ralitza Petrova

Melhor Actor – Andrzej Seweryn por Ostatnia Rodnizina/The Last Family(Polónia), de Jan P. Matuszynski

Menção Especial – Mister Unvierso de Tizza Covi, Rainer Frimmel (Áustria, Itália)

Cineasti del Presente
Leopardo de Ouro – O Auge do Humano (Argentina, Brasil, Portugal), de Eduardo Williams

Prémio Especial do Júri – The Challenge (Itália, França, Suíça), de Yuri Ancarani

Melhor Realizador Emergente – Mariko Tetsuya por Destruction Babies (Japão)

Menção Especial – Viejo Calavera (Bolívia, Quatar), de Kiro Russo

Melhor Primeiro Filme – El Futuro Perfecto (Argentina), de Nele Wohlatz

O júri do concurso era presidido pelo realizador mexicano Arturo Ripstein, contando também com a atriz Kate Moran, o realizador iranianio Rafi Pitts, o produtor brasileiro Rodrigo Teixeira e o realizador chinês Wamg Bing.