“Tesouro”

O cinema romeno é do melhor que se faz atualmente na Europa, quer se volte para os tempos do comunismo com um olhar dramático ou cómico-satírico, quer se centre na Roménia de hoje, dividida ente a vontade de ser um país europeu virado para o futuro e o lastro que ficou do passado totalitário, nas mentalidades e nas instituições. “Tesouro”, de Corneliu Porumboiu, autor de filmes-chave do novo cinema romeno, como “12:08 A Este de Bucareste”, contempla essas duas realidades. É uma comédia negra de cara sempre impassível, sobre um pai de família da classe média que empresta dinheiro a um vizinho, para que este possa comprar um detetor de metais e achar uma caixa cheia de valores que o bisavô terá enterrado no jardim de casa no tempo do comunismo (segundo o filme, esta era uma prática corrente no tempo da ditadura de Ceausescu, para fugir ao confisco estatal). Os dois vizinhos juntam-se a um homem que sabe manejar detetores e vão à procura da suposta fortuna enterrada. “Tesouro” é simultaneamente um filme cómico, político e filosófico, sobre a eterna ganância humana e sobre a atual sociedade romena, egoísta e obcecada pelo dinheiro e pelo bem-estar como as outras desta Europa desunida, mas ainda cheia de medos, tiques e vícios do passado recente, onde o realizador foge aos clichés moralizantes e surpreende o espectador mesmo até ao fim.

“O Bosque de Blair Witch”

O filme original de 1999, usava com habilidade imagens pretensamente encontradas nos bosques para aumentar o efeito de realidade e dar mais intensidade ao terror, o que se perdeu na péssima continuação, “O Livro das Trevas: BW2”, rodada em 2000. Entretanto, o recurso à chamada “found footage” no género banalizou-se (ver por exemplo os filmes das séries “Atividade Paranormal” ou “[Rec]”) e perdeu todo o impacto. “O Bosque de Blair Witch”, realizado por Adam Wingard, passa-se quase 20 anos depois dos acontecimentos do primeiro filme, e pega onde este acabou. Um grupo de universitários embrenha-se na mesma floresta, liderado pelo irmão de Heather Donohue, que fazia parte do trio original de estudantes desaparecidos, e que julga ter visto a irmã viva num vídeo que lhe chegou às mãos. O novo grupo agora tem câmaras vídeo último modelo, smartphones, um “drone” e GPS para contrapor às forças malignas e tentar detetar e filmar a temida bruxa. Apesar de Wingard recorrer mais uma vez ao estilo pseudo-documental tosco e imediato de “O Projecto Blair Witch”, o filme é obvia, penosa e pesadamente artificioso, e quanto mais tenta fingir que não, mais o denuncia. “O Bosque de Blair Witch” tem dois ou três sustos e sobressaltos bem conseguidos, e o resto é paisagem tétrica – e muita gritaria.

“Tão Só o Fim do Mundo”

As famílias normais, quotidianas, regularmente felizes, parecem ter desaparecido do cinema, para ficarem apenas as desequilibradas, problemáticas e conflituosas. É o caso da família do novo filme do canadiano Xavier Dolan, “Tão Só o Fim do Mundo”, adaptado de uma peça do dramaturgo francês Jean-Luc Lagarce, que morreu com Sida em 1995. Gaspard Ulliel interpreta Louis, um artista homossexual atacado por uma doença mortal e que, doze anos depois de ter saído de casa para viver a sua vida, está de volta à província para dar a a trágica notícia à família, que nunca mais visitou desde essa altura. Louis reencontra a mãe (Nathalie Baye), a irmã que não via desde pequenina (Léa Seydoux), o irmão mais velho (Vincent Cassel) e trava conhecimento com a cunhada (Marion Cotillard). E vê-se imediatamente apanhado no meio de uma tempestade de discórdia familiar, que Dolan estica para lá dos limites do suportável, desperdiçando este magnífico elenco num inconsequente concurso de histeria coletiva que não se pode confundir com interação dramática. Famílias mais normais, precisam-se com urgência no cinema.

“Doutor Estranho”

Mais um filme do “Universo Marvel”, mais um super-herói, agora mais ligado aos poderes da mente do que às super-capacidades físicas. Benedict Cumberbatch dá corpo à personagem criada por Steve Ditko na década de 60, um brilhante mas arrogante neurocirurgião que sofre um grave acidente e vai para o Tibete para se curar. Lá, é admitido num grupo iniciático que o faz descobrir poderes sobrenaturais insuspeitados e dimensões do universo nunca sonhadas, aprendendo artes marciais mágicas e enfrentando as forças mais negras do universo. Também interpretado por Tilda Swinton e Mads Mikkelsen, esta fita realizada por Scott Derrickson tem um enredo que parece ter saído direitinho de um livro de Lobsang Rampa, com uns acrescentos de Harry Potter, uma camada de verniz New Age e uma pinga de LSD. “Doutor Estranho” foi escolhido como filme da semana pelo Observador, e pode ler a crítica aqui.

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