“A Toca do Lobo”

Um documentário que mais parece uma investigação policial feita em família. A realizadora Catarina Mourão é neta do escritor Tomaz de Figueiredo, autor, entre outros, do romance que dá o título a este filme, e hoje bastante esquecido, em grande parte decerto por ter sido conotado com o antigo regime (a Imprensa Nacional-Casa da Moeda reeditou recentemente as suas obras completas). Catarina nunca conheceu o avô, e com a ajuda da mãe e das suas recordações, e recorrendo abundantemente a depoimentos de parentes, velhas fotografias, memórias do passado, cadernos, cartas e papéis antigos, imagens de filmes caseiros ou de arquivo da RTP (Tomaz de Figueiredo aparece, por exemplo, num programa dos anos 60, “Clube do Coleccionador”, a mostrar a sua colecção de saquinhos de tabaco de cachimbo, e a imaginar que, no futuro, talvez uma neta chamada Catarina venha a ficar com eles, o que a fará pensar no avô que não chegou a conhecer), vai preenchendo espaços em branco e desvendando acontecimentos e dramas familiares incómodos, como as actividades de oposição ao regime de um tio, que o levaram à clandestinidade e à prisão; ou a depressão de Tomaz de Figueiredo, notário itinerante frustrado no seu desejo de ser homem de letras a tempo inteiro, que causou o seu internamento numa casa de saúde e o tratamento com electrochoques. O “puzzle” da história da família resolve-se e torna-se nítido finalmente, acabando as referidas saquetas por criar uma ponte através dos anos e das gerações entre avô, e neta e bisnetos. Prémio do Público no Indie 2015.

“Pedido de Amizade”

E o terror chegou às redes sociais, mais precisamente ao Facebook, com este “thriller” sobrenatural realizado por Simon Verhoeven, filho de Paul Verhoeven e da actriz Senta Berger. Laura, a rapariga mais popular da sua faculdade, socialmente muito solicitada, com muita família e activíssima na Net, tem o seu oposto na solitária, introvertida e algo esquisita Marina, de quem recebe, e aceita, um pedido de amizade no Facebook, tornando-se na única amiga desta. Marina torna-se crescentemente ciumenta, possessiva e obcecada com Laura, que não a convida para o seu aniversário. Quando Marina vê as fotos da festa no Facebook, faz-lhe uma cena feia e Laura, assustada e incomodada, desamiga-a. Marina suicida-se, grava o acto com a câmara do computador e o vídeo fica postado automaticamente “online”. O espírito de Marina começa então a assombrar Laura e os seus amigos dentro e fora da Internet, em busca de uma vingança aterrorizadora e violenta. O realizador bem pode acenar com a ideia de ter usado as redes sociais como local e veículo da acção sobrenatural. A verdade é que “Pedido de Amizade” é mais um filme estereotipado sobre espíritos malignos vingativos, que oculta a sua banalidade com a novidade destes agirem agora também no mundo virtual. Não se admirem que a seguir seja o Twitter a ser assombrado.

“Acerto de Contas”

Imaginem um contabilista que sofre de autismo e é um génio matemático, vendendo os seus serviços a peso de ouro no submundo do crime americano e internacional, e terão uma ideia do que se passa em “Acerto de Contas”, de Gavin O’Connor. Ben Affleck interpreta Christian Wolff, um prodígio da matemática conhecido no meio como “O Contabilista” pelos mafiosos que o contratam para lhes “branquear” as contas ou detectar falcatruas internas. Perseguido por Raymond King (J.K. Simmons), da secção de crimes financeiros do Departamento do Tesouro dos EUA, Wolff, que é orientado para os seus clientes por uma misteriosa entidade que o contacta sempre por telefone e a que chama “A Voz”, procura despistar o seu perseguidor aceitando um serviço legítimo. Trata-se de fazer uma auditoria à contabilidade de uma empresa de robótica “high tech”, onde vai trabalhar em parceria com a contabilista da casa, Dana Cummings (Anna Kendrick). Esta desconfia que alguém de dentro da companhia anda a desviar grandes somas. Ironicamente, é por causa deste trabalho legal que Wolff se vai ver metido em sarilhos e ficar em perigo de morte, juntamente com Dana, que entretanto se envolveu sentimentalmente com ele. John Lithgow e Jeffrey Tambor também fazem parte do elenco deste “thriller”.

“Agnus Dei-As Inocentes”

Esta co-produção franco-polaca realizada por Anne Fontaine recorda as violações em massa cometidas pelos soldados do Exército Vermelho durante a II Guerra Mundial, muito em especial na Alemanha, mas também na Polónia, Hungria ou Roménia. Estamos na Polónia, no Inverno de 1945, logo após o fim do conflito. Uma jovem médica da Cruz Vermelha Francesa, Mathilde Beaulieu (Lou de Laâge), acorre ao chamado de uma freira de um convento de beneditinas onde uma rapariga está quase a dar à luz. Pensa tratar-se de uma jovem da vila que lá foi acolhida, mas acaba por lhe ser revelado que várias das irmãs foram violadas por soldados soviéticos, ficaram grávidas e não irão abortar, por razões óbvias. As freiras pedem-lhe encarecidamente, ajuda e sigilo. Anne Fontaine filma aqui o encontro entre dois mundos opostos. É que Mathilde é comunista, filha de comunistas e ateia, e confronta-se com o mundo da fé, da reclusão, da devoção e do perdão que é o das freiras. Estas, pelo seu lado, que vivem com Deus e no isolamento, têm que enfrentar a brutalidade, a gravidez e a maternidade, a que vão reagir de maneiras muito diferentes, e uma inevitável abertura ao exterior de que até então estavam protegidas. “Agnus Dei-As Inocentes” foi escolhido como filme da semana pelo Observador, e pode ler a crítica aqui.