“A Fábrica de Nada”

O cinema português está a bater-se bem com a crise, respondendo-lhe de formas muito diversas. Estão aí para o provar o tríptico “As Mil e Uma Noites”, de Miguel Gomes, “São Jorge”, de Marco Martins, “Índice Médio de Felicidade”, de Joaquim Leitão, “Colo”, de Teresa Villaverde, que se estreia em breve, e agora “A Fábrica de Nada”, de Pedro Pinho, o mais político de todos. Inspirado na experiência de autogestão da fábrica de elevadores Otis no pós-25 de Abril, sobre uma ideia de Jorge Silva Melo e da peça homónima de Judith Herzberg, o filme passa-se numa empresa do mesmo ramo localizada em Alverca. Com a crise no auge, a administração começa a fazer mudanças na fábrica, propondo rescisões a alguns dos trabalhadores. Os que insistem em ficar acabam por ocupar as instalações e um belo dia, descobrem que os responsáveis pela empresa se evaporaram, deixando-os sem saber o que fazer. Fechar as portas e ir para casa de mãos vazias, ou ficar e tentar a autogestão? E começa a discussão, nem sempre pacífica.

Pedro Pinho e os outros autores do argumento, Tiago Hespanha, Leonor Novo e Luísa Homem, não se contentam em deixar a fita, interpretada por atores e por não-profissionais, seguir direito que nem um fuso por este rumo ficcional contíguo da realidade, introduzindo-lhe um documentarista ítalo-argentino que examina, acompanha e aconselha o pessoal da fábrica, e suspendendo a ação para se demorarem num grupo (onde surge a soturna ex-brigadista revolucionária Isabel do Carmo) que discorre – enfadonhamente – sobre o movimento laboral, a autogestão e o futuro do capitalismo. Toda a gente, autores, personagens e participantes exteriores, anda às apalpadelas, à procura de rumo e respostas, numa espécie de eco multiplicado. Esta inquietação e interrogação formal, anímica e ideológica resulta num filme ao arrepio das convenções e do rame-rame “naturalista” e de “intervenção”, mas também errático, prolixo e reiterativo nas suas três horas. Quando está com os trabalhadores que se angustiam, barafustam e praguejam, “A Fábrica de Nada” funciona muito melhor do que quando dá tempo de antena aos “pensadores” de esquerda.

“Mãe!”

O novo filme de Darren Aronofsky, o realizador de “Cisne Negro”, esteve em competição recentemente no Festival de Veneza e abre no cenário idílico de uma remota casa de campo, onde vive, em aparente harmonia e sossego, um casal a que o filme não dá nomes. Ele (Javier Bardem) é poeta mas anda falho de inspiração. Ela (Jennifer Lawrence, que parece saída de um daqueles quadros do Renascimento representando a Virgem Maria) está a reconstruir e a redecorar a casa para ele, tentando proporcionar-lhe as condições ideais para a criação. Um dia, batem-lhe à porta um casal, primeiro o homem, um médico doente (Ed Harris), depois a cara metade deste (Michelle Pfeiffer), que o afável poeta convida para ficarem lá o tempo que quiserem, contra a vontade (não manifestada) da sua desconfiada mulher. O que se vai seguir, em dois tempos, e com um intervalo de calma e felicidade, é, primeiro, uma comoção trágica, e depois um pandemónio apocalíptico.

Em “Mãe”, Darren Aronofsky leva para lá dos limites do imaginável e do suportável as sugestões alucinatórias que já se manifestavam nos enredos e nas personagens de filmes como “Pi”, “A Vida não é um Sonho”, “O Último Capítulo” e o citado “Cisne Negro”. É como se tudo o que está latente neles convergisse para “Mãe!”, o vulcão onde se dá a enorme e devastadora erupção. O realizador declarou em Veneza que “Mãe”, escrito “em cinco dias num transe febril”, é um daqueles objetos que, “se o tentarmos desmontar, cai em bocados”. E sendo um delírio, é um delírio calculado. O filme tem as entrelinhas cheias de referências bíblicas, cabalísticas e mitopoéticas, e passam por ali enviesadas referências a “Repulsa” e “A Semente do Diabo”, de Roman Polanski, a variadas fitas de terror escatológico e de casas assombradas, e a muitas outras coisas. “Mãe!” foi escolhido pelo Observador como filme da semana e pode ler a crítica aqui.