Num texto publicado esta terça-feira pelo jornal inglês The Guardian, a pintora Paula Rego recorda as dificuldades que teve para fazer o retrato oficial do ex-Presidente da República, Jorge Sampaio:

Começámos a trabalhar num estúdio que era do último rei de Portugal [Paula Rego refere-se à Casa do Regalo, mandada construir por D. Carlos I], que por sua vez fora um pintor muito bom. Esse estúdio servia na altura de residência oficial do presidente. Fazer o retrato foi quase impossível — as pessoas entravam e diziam ‘aquele braço não ficou bem’ ou ‘O nariz dele não é assim’. No final eu disse: talvez devêssemos ir para outro lado. Acabámos por ir para uma sala cheia de armários de vidro e trabalhei muito arduamente, fiquei instalada num hotel próximo e ia-me deitar sempre exausta. Ele é um homem muito simpático — ou pelo menos foi muito simpático para mim. Ainda somos amigos”, aponta a pintora.

O retrato de Sampaio pintado por Paula Rego

O auto-retrato escrito por Paula Rego é publicado agora devido à participação da pintora portuguesa na exposição “All Too Human: Bacon, Freud and a Century of Painting Life”, que vai poder ser visitada no museu Tate Britain, em Londres, de 28 de fevereiro a 27 de agosto. A exposição agrega obras de artistas que “tenham capturado a experiência intensa de viver através da pintura”, segundo o museu, e inclui trabalhos de Walter Sickert, Stanley Spencer, Michael Andrews, Frank Auerbach, R. B. Kitaj, Leon Kossoff e Jenny Saville, entre outros.

No texto, Paula Rego evoca a sua infância, os seus tempos de estudante na London Slade Schools of Fine Arts e a evolução da sua técnica de pintura. A pintora explica por exemplo que não tem interesse “em pintar nus só por pintar nus” e que “gosto [gosta] de roupas: a forma como as pessoas se vestem diz aliás algo sobre algo sobre elas, além de permitir enquadrá-las temporalmente”.

Estou sempre a contar uma história com as minhas obras, mesmo que essa história mude no decurso do trabalho. E às vezes  só descubro verdadeiramente a história que quero contar depois de terminar o quadro. Todas as histórias envolvem pessoas, portanto, eu desenho pessoas a fazerem coisas umas às outras. Gosto muito de contos populares, particularmente dos portugueses, e tenho usado com regularidade [como inspiração] o trabalho do escritor português Eça de Queirós.

Paula Rego conta ainda que, “por norma”, escolhe as histórias que a inspiram a pintar consoante o grau de “identificação” e “empatia” que sente para com elas: “Pode-se ser tão horrível e violento quanto se quiser nas pinturas. Pode-se pintar a partir de sentimentos negativos. Maioritariamente tenho castigado, nas minhas obras, a minha primeira professora, Dona Violetta. Ela era horrível para mim. (…) Vingo-me dela desta forma”.

Costumava pintar no chão mas temos de estar de pé para pintar a vida. Costumava sempre fumar enquanto pintava. Mas depois do Vic [Victor Willing, o seu ex-marido, também ele pintor] ter morrido, em 1988, apanhei um comboio para Southend e atirei os meus cigarros para o mar. Nunca mais voltei a fumar. Foi difícil fazê-lo, achei que não seria capaz de desenhar sem um cigarro. A minha filha disse-me que não eram os cigarros que desenhavam”, lê-se, no texto auto-biográfico de Paula Rego.

A pintora diz ainda que se “aprende imenso” a desenhar a vida: “É preciso olhar com grande detalhe porque é muito difícil encontrar algo. Quanto mais se olha, melhor se torna o olhar e essa disciplina é importante seja qual for o trabalho que se faça. Para mim as árvores são o mais difícil de pintar bem. E as túlipas. E todos os vegetais — à excepção do tomate”.