Música

O que é que o “novo” álbum de José Mário Branco tem de especial? Inéditos, raridades e… Otelo

Canções feitas para filmes, maquetes restauradas a partir de bobines originais, singles e temas obscuros há muito perdidos e agora recuperados. Eis 'Inéditos 1967-1999' -- que não tem só inéditos.

José Mário Branco, de 76 anos e com 50 de carreira discográfica, acaba de lançar um álbum de temas inéditos e raros

JOSE SENA GOULAO/LUSA

A capa, tão simples que só tem autor e título inscritos em fundo branco, até já motivou na internet comparações curiosas com o “álbum branco” dos The Beatles (de título homónimo, mas assim nomeado devido à capa). Ouve-se o disco e logo no primeiro tema surge um dedilhado de guitarra e a voz de José Mário Branco a cantar versos nunca ouvidos: “Quantas Sabedes Amar, amigo”. É quanto basta para perceber que Inéditos 1967-1999 está recheado de pérolas.

[A capa do álbum:]

O título do disco merece discussão, porque alguns dos 26 temas do álbum de 2 CDs que José Mário Branco (J.M.B.) acaba de editar não são inéditos, foram já lançados em EPs, LPs e singles. Todos em formato físico e em grande medida há muito tempo perdidos, é certo. É o caso das Seis Cantigas de Amigo que J.M.B. gravou para os Arquivos Sonoros Portugueses, de Michel Giacometti e Fernando Lopes-Graça (a que acresce uma maquete que ficou de fora da seleção desse EP). É também o caso de “Ronda do Soldadinho” e “Mãos ao Ar!”, um par de temas editados em formato single. Ou ainda “Le Proscrit de 1871”, uma colaboração do músico com o grupo francês Organon.

Mais temas esquecidos recuperados? As canções escritas para os filmes portugueses “Gente do Norte” (“Cantar da viúva de emigrante”) e “O Ladrão do Pão” (“Fuga do Mar”), por exemplo, mas também “Quantos é que Nós Somos”. Esta última foi registada num disco de homenagem a Otelo Saraiva de Caravalho, Obrigado Otelo, editado em 1989. Além de “Quantos é que Nós Somos”, o álbum incluía temas de Carlos do Carmo (“O Madrugar de um Sonho”), Chico Buarque (“Bancarrota Blues”) e Billy Bragg (“Rotting on Remand”), entre outros.

[Uma das Seis Cantigas de Amigo, editadas por José Mário Branco nos Arquivos Sonoros Portugueses, de Michel Giacometti e Fernando Lopes-Graça:]

Estes são temas a que um colecionador de discos dificilmente torcerá o nariz, sobretudo se for minimamente conhecedor e fã da obra musical de José Mário Branco. Mas são outros, os nunca antes registados em CD e vinil, os grandes trunfos. Entre eles destacam-se a maquete, só agora revelada, “Fim de Festa”, o quarteto instrumental em três andamentos “Fantaisie Languedocienne” e os temas compostos propositadamente para filmes de Paulo Rocha e Jorge Silva Melo, respetivamente A Raiz do Coração (2000) e Agosto (1987). Da banda sonora do último, J. M. B. recuperou cinco canções.

Quer as canções nunca editadas — algumas inclusivamente restauradas a partir das bobines originais — quer os temas raros recuperados de edições esgotadas em vinil, foram selecionados pelo próprio José Mário Branco para integrar este disco. “Cuidadosamente”, assinala a editora e constata o ouvinte.

O álbum é lançado como conclusão das celebrações dos 50 anos de edições discográficas do cantor de intervenção. Estas, por sua vez, iniciadas em dezembro do ano passado, motivaram ainda a reedição de álbuns emblemáticos do músico: Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades (1971), Margem de Certa Maneira (1972), A Mãe (1978), Ser Solidário (1982), A Noite (1985), Correspondências (1990), Ao Vivo em 1977 (gravado no CCB, Coliseu do Porto, Teatro da Trindade e Teatro Gil Vicente) e o último de originais, Resistir É Vencer (de 2004).

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