Coreia do Norte

Os países que vão estar atentos à cimeira de longe

Kim Jong-un e Donald Trump sentam-se à mesa pela primeira vez, mas terão muitos olhos atentos a controlar todos os seus movimentos. Da China a Israel, estes são os principais interessados.

Getty Images

Kim Jong-un conseguiu o que nenhum outro líder norte-coreano havia conseguido nos 70 anos de história daquele país: sentar à mesa o presidente da maior potência do mundo, e inimigo mortal do regime desde a sua criação. Serão só Donald Trump e Kim Jong-un, Coreia do Norte e Estados Unidos a negociar — mas todos os olhos estarão em Singapura, e os interesses em jogo vão muito além da península coreana.

Foram precisos seis testes nucleares para que a Coreia do Norte captasse a atenção sem reservas dos Estados Unidos, quatro deles já pelas mãos de Kim Jong-un, o “marechal”, como lhe chamam na Coreia do Norte, filho do “Querido Líder”, Kim Jong-il, e neto do fundador e “Eterno Presidente”, Kim Il-sung.

Os principais objetivos da Coreia do Norte no desenvolvimento de um arsenal nuclear eram assegurar a sobrevivência do regime e garantir um lugar na ‘mesa dos adultos’. O segundo parece estar garantido, o primeiro tem sido conseguido até agora, e deixa antever que Kim Jong-un dificilmente trocará o seu maior trunfo por um simples alívio de sanções.

No passado, Kim Il-sung e Kim Jong-il já tinham acordado algo semelhante com os Estados Unidos – ainda sem provas de que o programa norte-coreano estaria pronto –, mas as duas partes não cumpriram os compromissos assumidos.

Mas há muito mais em jogo na cimeira. E alguns dos países mais importantes do mundo têm interesses diretos nas conversações. Alguns dos conflitos mais importantes do mundo podem ser afetados diretamente por aquilo que for acordado em Singapura.

China

O presidente chinês Xi Jinping no congresso do partido em março, onde viu reforçados os seus poderes de forma significativa

Desde a Guerra da Coreia, que começou em 1950, a China é um dos principais aliados da Coreia do Norte. Kim Il-sung recrutou os chineses para ajudar na resposta ao ataque das Nações Unidas, liderado pelos Estados Unidos, porque a União Soviética não se queria envolver demasiado e criar um conflito direto com os Estados Unidos.

A relação teve vários altos e baixos, sendo que um dos pontos mais baixos foi precisamente nos primeiros anos do reinado de Kim Jong-un. O mais novo dos Kim chegou ao poder em 2011 com a morte do pai. Para consolidar o seu poder, deu ordem para executar o seu tio Jang Song-thaek, um dos mais importantes membros do regime e que era o responsável pela ligação à China. Os sucessivos testes nucleares levados a cabo mesmo depois das instruções de Pequim para que não o fizessem, deteriorou ainda mais a relação. Nos últimos meses, tem havido uma aproximação, com as primeiras visitas oficiais à China desde que Kim Jong-un chegou ao poder, e encontros com Xi Jinping, o presidente chinês.

A China é um dos maiores interessados nas negociações, porque é também o maior aliado da Coreia do Norte e quem permite que o regime continue vivo. Cerca de 85% dos produtos que Pyongyang compra fora têm origem na China, 83% dos produtos que exporta têm exatamente o mesmo destino, a China. A maior parte das exportações norte-coreanas são de carvão, e essas são compradas integralmente para a China. Mais importante, Pequim tem jogado com as sanções aplicadas à Coreia do Norte para impor a sua vontade. Durante anos, não aplicava a sanção sobre as exportações de carvão de Pyongyang. Ainda hoje exporta combustível para a Coreia do Norte, apesar de ser proibido à luz das sanções internacionais.

Toda a economia norte-coreana está dependente da China neste momento, mesmo a informal – os cargueiros norte-coreanos abastecem na China, usam os portos chineses e as redes de contrabando chinesas para os mais variadíssimos fins. Pequim tem o poder de apertar ou aliviar a pressão sobre Pyongyang como nenhum outro país.

Por outro lado, a China quer evitar que a queda do regime ou a abertura demasiado amiga dos americanos se virem contra si.

Um dos principais dramas para a China seria o fluxo de refugiados norte-coreanos. Apesar de não ser a única fronteira terrestre, é, a par da Coreia do Sul, a mais importante. Junto à sua fronteira já existem duas cidades com uma intensa presença norte-coreana: Dandong e Shenyang. Durante décadas, Macau foi também uma base para a Coreia do Norte levar a cabo crimes, desde a lavagem de dinheiro à preparação de atentados terroristas. A queda do regime significaria um fluxo de refugiados que poderia custar caro ao regime chinês e colocar em causa a paz social que Pequim tanto preza. Por exemplo, Pequim deporta automaticamente todos os desertores do regime, à revelia de todas as convenções internacionais.

Outra questão fundamental para a China é a presença norte-americana na região. A Coreia do Norte é uma espécie de barreira entre a China e os aliados dos EUA na região, nomeadamente a Coreia do Sul, onde está uma boa parte das forças americanas no Pacífico. Numa altura em que a sua expansão nos mares do sul da China é uma fonte de tensão com EUA, Coreia do Sul, Japão e mais algumas nações asiáticas, dificilmente a China deixará que aconteça um acordo demasiado amigável entre Pyongyang, Washington e Seul.

Coreia do Sul

Moon Jae-in tem apostado muito do seu mandato na melhoria das relações entre as duas Coreias. A cimeira pode ser um ‘make or break’ para este líder

É, naturalmente, o principal interessado. O presidente Moon Jae-in e a sua sunshine policy parecem estar a ter resultados, mas só depois desta cimeira se verá se há margem para que as conversas continuem até chegarem a resultados mais práticos.

O principal objetivo é conseguir a paz e deixar de viver sob a ameaça constante de um ataque – os norte-coreanos testaram vários misseis por cima da Coreia do Sul e do Japão –, mas há muitas outras questões que não vão estar em cima da mesa até que a questão nuclear se resolva.

Entre elas está o direito de reunião das famílias divididas entre o norte e o sul, questões como os direitos humanos na Coreia do Norte (as Nações Unidas acusam o regime de múltiplas violações dos direitos humanos dos seus cidadãos), o complexo industrial de Kaesong – o único projeto inter-coreano – que continua suspenso, eventuais relações comerciais com o seu vizinho do Norte e, uma questão mais problemática, a unificação das Coreias.

Japão

A proximidade de Shinzo Abe com Donald Trump tem deixado o Japão de fora dos alvos do Presidente norte-americano. Mas Pyongyang tem sempre os japoneses na mira

Considerado um inimigo mortal da Coreia do Norte desde a ocupação, que terminou com o fim da Segunda Guerra Mundial e o fim do império japonês, altura em que os EUA e a União Soviética partiram a Coreia em dois.

O Japão é um dos principais visados nas ameaças norte-coreanas, a par dos EUA e da Coreia do Sul, e também já viu vários misseis norte-coreanos sobrevoar o seu território em jeito de provocação.

É também a partir do Japão que é distribuída uma parte importante da droga produzida pela Coreia do Norte, com a ajuda das máfias locais, como os Yakuza, e que está a produzir um problema de toxicodependência em algumas regiões, como já foi reconhecido por responsáveis japoneses.

O Japão tem também um diferendo antigo com a Coreia do Norte relativamente aos seus cidadãos que foram raptados pelo regime pelas mais diversas razões – entre elas para ajudarem a treinar os agentes norte-coreanos que levariam a cabo ataques contra aquele país –, um tema mais importante no Japão, com pouca atenção noutros países.

Irão e Síria

São nesta altura, além da Coreia do Norte, os dois países na mira dos EUA. O Irão é olhado como um inimigo perigoso desde a revolução islâmica e os americanos acusam o regime de Teerão de financiar terroristas em todo o mundo, contra os EUA e os seus aliados.

Estados Unidos e Irão tinham um acordo sobre o programa nuclear iraniano, ainda longe do desenvolvimento conseguido por Pyongyang, mas Donald Trump rasgou-o pouco mais de um ano depois de chegar ao poder.

O interesse do Irão é mais estratégico. Pyongyang tem sido um fiel parceiro, porque o Irão vende-lhe armas e ajuda no desenvolvimento de programas para a produção de armas convencionais, misseis e também no seu programa nuclear. Uma parte das armas norte-coreanas também chega aos aliados do Irão na região, como a Síria, o Líbano e uma panóplia de grupos terroristas, do Hamas ao Hezbollah.

A Síria está no mesmo barco. Damasco e Pyongyang têm relações de longa data, que incluem a compra de armas, ajuda na sua produção, apoio na guerra contra Israel e uma relação próxima na tentativa da Síria para construir um reator nuclear nas margens do Rio Eufrates (o reator foi destruído num ataque israelita).

Egito

Apesar de o Egito ter uma postura no Médio Oriente diferente da do Irão e da Síria, a verdade é que é um dos países que mais de perto tem trabalhado com a Coreia do Norte no desenvolvimento no seu programa de misseis balísticos. Foi o Egito que vendeu a Pyongyang o seu primeiro míssil SCUD, que foi usado pelos norte-coreanos para conseguirem a sua própria produção.

A Coreia do Norte ajudou o Egito na Guerra dos Seis Dias (1967) e do Yom Kippur (1973) contra Israel enviando pilotos, armas e dando treino. Os egípcios continuam a comprar armamento à Coreia do Norte, apesar das sanções em vigor, essencialmente devido ao preço mais baixo. O último carregamento, intercetado depois de um aviso das Nações Unidas, levou Trump a cancelar a ajuda financeira que tinha acordado dar ao Cairo.

Caso o regime de Pyongyang demonstre mais abertura, este tipo de atividades pode colocar em causa o fornecimento de armas a países como o Egito.

Israel

Desde que decidiu integrar as forças das Nações Unidas na guerra da Coreia que está na lista negra de Pyongyang. O regime tem advogado desde sempre a destruição do Estado de Israel, apoiando grupos hostis a Israel que vão desde a Frente Popular para a Libertação da Palestina, passando pelo Hamas, o Hezbollah, as Fatah até a ataques do Exército Vermelho Japonês em solo israelita.

Israel ainda tentou conversar com a Coreia do Norte para conseguir um acordo discreto que desse alguma paz aos israelitas, mas não chegaram a acordo.

O principal interesse de Israel é bloquear o acesso dos grupos hostis que rodeiam o seu território a armas norte-coreanas ou iranianas produzidas em conjunto com Pyongyang.

Uma das razões para a Síria e o Irão terem misseis com capacidade para atingir solo israelita é a ajuda norte-coreana. Os líderes do Hezbollah tiveram treino de guerrilha em Pyongyang e terá sido lá que aprenderam a construir os túneis que agora o Hamas usa para ultrapassar o bloqueio e atacar território israelita. Uma Coreia do Norte mais controlada poderia significar um pouco mais de paz para Israel.

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