Raptados. O mistério dos estrangeiros que a Coreia do Norte fez desaparecer /premium

Megumi vinha do badminton quando foi levada. Won apanhou um voo para Seul e nunca mais regressou. Como eles, outros milhares foram raptados pela Coreia do Norte. Estas são as suas histórias.

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Não era suposto Hwang Won ter embarcado naquele voo da Korean Airlines, a 11 de dezembro de 1969. Era suposto o produtor de televisão sul-coreano ter um dia de trabalho normal, mas um imprevisto de última hora de um colega fez com que lhe calhasse a si a tarefa de viajar da sua cidade de Gangneung, na costa oriental da Coreia, até à capital Seul. Mal Won imaginava que não iria regressar — e que a sua mulher e os seus dois filhos, um rapaz de apenas dois anos e uma bebé de três meses, não o voltariam a ver.

“É claro que não tenho memórias do meu pai, mas quando era pequeno lembrava-me dele”, diz esse rapaz de dois anos, agora um homem de 50, ao Observador. “A minha mãe conta que quando eu era pequeno estava sempre a perguntar: ‘Quando é que o pai volta?’ Ela dizia que o meu pai estava numa viagem de negócios na América e que voltava no Natal. Todos os anos, eu esperava pelo Natal cheio de esperança. Mas ele nunca regressou”, resume o filho, Hwang In-cheol. O rapaz só soube o que tinha acontecido ao pai alguns anos depois, quando um tio lhe revelou a verdade.

Hwang Won com os dois filhos (D.R.)

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Hwang Won não regressou porque, crê a família, está impedido de regressar pelo regime da Coreia do Norte, para onde foi levado. O voo da Korean Airlines onde Hwang Won seguia naquele dia foi desviado por um agente secreto de Pyongyang que ia a bordo, Cho Chang-hee, e levado para Hamhung, no Norte. Os 50 passageiros e os membros da tripulação foram retidos, levados depois para Pyongyang, interrogados e por fim “doutrinados” — ou seja, colocados em aulas onde lhes era dada a conhecer a Juche, filosofia central do regime norte-coreano. Dois meses depois, 39 dos passageiros foram autorizados a regressar para junto das suas famílias. Hwang Won foi um dos que ficaram para trás, juntamente com o piloto, um médico, um jornalista e outros sul-coreanos com profissões qualificadas. Hwang In-cheol crê que o pai foi impedido de regressar porque os seus conhecimentos técnicos de televisão seriam valiosos.

Os 39 que regressaram contaram à sua família como foram aqueles dois meses. “Segundo eles, o meu pai estava muito otimista, dizia que a lei internacional estava do lado deles e que iriam regressar. Durante as sessões de ‘reeducação’, parece que o meu pai resistia e questionava os argumentos apresentados pelas autoridades norte-coreanas”, conta Hwang In-cheol. “No dia sete de fevereiro de 1970, foi dia de Ano Novo. Dizem que o meu pai começou a cantar a música tradicional coreana Gagopa, que expressa o desejo de regressar a casa, e que os guardas o levaram. Foi a última vez que o viram.”

Hwang Won faz parte das cerca de 200 mil pessoas que a Comissão de Inquérito aos Direitos Humanos na Coreia do Norte, da ONU, estima terem sido raptadas pelo regime de Pyongyang desde o início da Guerra da Coreia até aos dias de hoje. As Nações Unidas concluíram, sem margem para dúvidas, que “a República Popular da Coreia do Norte, desde os anos 50 até ao presente, levou a cabo uma política sistemática de raptos, recusas de repatriamento e subsequentes desaparecimentos forçados de pessoas de outros países, a larga escala e como política oficial do Estado”. Os familiares dos desaparecidos continuam sem saber pormenores do que aconteceu aos seus pais, filhos, irmãos — e olham com esperança para a cimeira do dia 12, que pode ser uma oportunidade para obter mais respostas.

Hwan In-cheol enquanto criança (à direita), com a mãe, a avó e a irmã bebé (D.R.)

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É uma página negra na longa história de violações de direitos humanos norte-coreana, mas é quase desconhecida no mundo ocidental, ao contrário do que acontece em países como o Japão. O alcance desta política de raptos, contudo, vai mais longe do que a Ásia: há provas de que terão sido levados cidadãos de países como o Líbano, a Roménia ou a França, e são vários os casos de coreanos e japoneses aliciados em países ocidentais como a Alemanha, a Noruega ou até Espanha. No relatório “Taken!” de 2011, feito a pedido da ONG Comité pelos Direitos Humanos na Coreia do Norte, o investigador Yoshi Yamamoto calcula que Pyongyang terá raptado mais de 80 mil sul-coreanos durante a Guerra, quase quatro mil sul-coreanos nos anos seguintes, cerca de 100 japoneses, 200 cidadãos chineses (a maioria de origem coreana) e pelo menos 25 pessoas de outras nacionalidades.

Em 2002, o antigo líder Kim Jong-il reconheceu esta prática num encontro com o homólogo japonês, Junichiro Koizumi. “As forças especiais deixaram-se levar numa busca imprudente pela glória. É lamentável e quero pedir as mais sinceras desculpas. Já tomei passos para garantir que isto não volta a acontecer”, declarou à altura Kim, decretando depois o regresso de oito dos japoneses raptados, argumentando que os restantes já teriam morrido. A realidade, no entanto, não parece ser assim tão simples. Milhares de pessoas como Hwang Won desapareceram sem deixar rasto e as suas famílias continuam sem saber do seu paradeiro — e do seu destino.

Da estratégia de guerra ao rapto de pescadores

Tudo começou durante a Guerra entre as duas Coreias, nos anos 50. A comissão de inquérito das Nações Unidas concluiu que, entre 1950 e 1953, milhares de civis sul-coreanos foram raptados para ajudar no esforço de reconstrução do Estado norte-coreano. “Pensa-se que os objetivos destes raptos em tempo de guerra seriam o recrutamento de força de trabalho e de conhecimento, ao mesmo tempo que se esvaziavam as capacidades do Sul”, pode ler-se no relatório, que dá como exemplo o caso de Park Myung-ja, que regressou à Coreia do Sul e contou a sua experiência.

Park foi levada do Hospital da Universidade de Seul, onde estava a trabalhar durante a guerra, juntamente com os colegas: “Estávamos exaustos — médicos, enfermeiras e pessoal administrativo. As nossas pernas estavam cansadas e eles disseram que os que estavam exaustos deviam sair. Os que levantaram os braços e saíram primeiro foram mortos. Nós estávamos tão assustados que não tivemos escolha, saímos também.” Os sobreviventes acabariam por ser levados para montar um hospital em Hamhung — a mesma cidade para onde o voo da Korean Airlines onde Hwang Won seguia seria desviado, anos depois, em 1969.

Junichiro Koizumi, antigo primeiro-ministro japonês, no encontro de 2002 com Kim Jong-il (AFP/Getty Images)

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A política de raptos poderia ter sido enterrada com a assinatura do armistício entre as duas Coreias, mas não foi o caso. “Logo a seguir à Guerra da Coreia, a Guerra Fria estava em pleno andamento. A Coreia do Norte decidiu então usar os raptos como um instrumento para deixar a Coreia do Sul à defesa.” A explicação é avançada ao Observador por Go Myong-hyun, especialista do Instituto Asan de Estudos Políticos e autor do estudo “O Rapto como forma de Política Externa: a História norte-coreana dos Raptos patrocinados pelo Estado”.

“Começaram então a raptar pescadores sul-coreanos no Mar Amarelo [que banha as duas Coreias e a China]. A marinha sul-coreana não tinha à altura equipamento suficiente para conseguir impedir isto. Mas muitos deles acabavam por ser devolvidos, porque o principal objetivo era colocar a marinha sul-coreana à defesa.”

Um desses pescadores foi Lee Jae-gun, cujo barco onde seguia com 27 colegas, o Bongsan, foi raptado em 1970. Os pescadores sul-coreanos estavam a lançar as redes, à noite, quando um barco colidiu com o seu. “Querem morrer? Saiam!”, gritaram-lhes homens armados, que saltaram entretanto para o convés. O Bongsan foi depois rebocado para águas do Norte. Lee contaria mais tarde ao jornalista norte-americano Robert Boynton, autor do livro “The Invitation-Only Zone” (sem edição em português), que foi recebido como um herói. “Ao desembarcar do navio, foi cumprimentado por seis mulheres que o encheram de flores. ‘Não regresses para o Sul! Fica a viver connosco no paraíso na terra que é o Norte’, imploraram-lhe. Muitos dos pescadores raptados eram devolvidos algumas semanas ou meses depois, na esperança de que contassem como tinham sido bem tratados”, pode ler-se no livro.

Outros, como Lee, eram escolhidos pelas suas capacidades e enviados para uma escola, a fim de serem treinados como espiões. Este pescador, contudo, sempre sentiu que não era tratado da mesma forma que os norte-coreanos — dando como exemplo o facto de o seu filho, nascido já no país, ser impedido de entrar no ensino superior. Depois de várias tentativas de fuga, Lee acabaria por regressar ao seu país 30 anos depois, graças aos esforços da Associação de Familiares de Raptados da Coreia do Sul. Mas muitos dos milhares de pescadores sul-coreanos raptados acabariam por passar o resto da sua vida na Coreia do Norte.

Os pescadores não foram, no entanto, os únicos sul-coreanos raptados por Pyongyang. A ONU estabeleceu que pelo menos outros 70 sul-coreanos foram raptados por agentes do Norte. Cinquenta deles, como Hwang Won, estavam no fatídico voo da Korean Airlines. Outros, como cinco adolescentes, foram raptados em praias. Foi o caso de Kim Young-nam, um jovem de 16 anos que, chateado com os amigos, se isolou na praia de Seonyu e acordou num barco em alto-mar, a caminho do porto de Nampo, na Coreia do Norte.

À altura, as autoridades sul-coreanas concluíram que o jovem se teria afogado. A família de Young-nam só soube a verdade anos depois, contactada pelos serviços secretos sul-coreanos. “Estávamos assustados, não tínhamos pensado nem por um minuto na possibilidade de ele estar vivo na Coreia do Norte”, revelou a irmã. Em 2006, a mãe e a irmã tiveram possibilidade de se encontrar com ele do lado Norte da fronteira, através do programa de reunificação familiar das duas Coreias. Contudo, Kim Young-nam continua a viver na Coreia do Norte ainda hoje. Diz não ter sido raptado, mas sim salvo de afogamento.

Kim Young-nam levanta o filho para este se despedir da avó, que acabou de conhecer. Kim e a mãe reuniram-se graças ao programa de reunificação familiar, em 2006 (Lee Hun-Koo/Getty Images)

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Se os pescadores foram levados à força, outros sul-coreanos chegaram a Pyongyang de livre e espontânea vontade. Contudo, são incluídos nestas listas, já que ficaram retidos na Coreia do Norte, impedidos de regressar. Foi o caso de Oh Kil-nam e da sua família. Em 1985, a família Oh vivia na Alemanha quando foi abordada por um agente secreto norte-coreano que fez a Oh uma proposta de trabalho em Pyongyang: ser conselheiro económico dos Kim. Como bónus, o regime comprometia-se a tratar a hepatite da sua mulher, Shin Suk-ja. Oh Kil-nam, economista marxista e ideólogo de esquerda, sentiu-se tentado pela proposta e rumou a Pyongyang, levando a família consigo.

A realidade à chegada revelou ser bem diferente, sem o emprego como economista nem o tratamento para a hepatite prometidos. Em vez disso, a família foi colocada numa casa guardada por soldados e “reeducada” durante meses, à semelhança do que ocorria com os raptados, aprendendo conceitos da Juche. Mais tarde, ao casal foi dado emprego na Rádio Pública — “a certa altura, eu já era como um papagaio”, confessou Oh.

Oh conseguiu escapar anos depois, aproveitando o facto de ter sido enviado numa missão a Copenhaga, mas a sua mulher e filhos permanecem na Coreia do Norte. Devido à deserção do pai e marido, Suk-ja e os filhos foram enviados para um campo de concentração, onde se crê que permanecem até hoje.

Em 2009, Oh abordou Hwang In-cheol, o filho do homem que seguia a bordo do voo da Korean Airlines: “Acho que conheci o teu pai na Coreia do Norte”, disse-lhe. “Ele trabalhava na Rádio-Televisão estatal.”

Os casos emblemáticos: o casal de cineastas e a adolescente japonesa

“É preciso entender que a Coreia do Norte nunca foi uma nação rica, não apenas em recursos naturais mas também em recursos humanos. É por isso que os sul-coreanos começaram a ser raptados pelo Norte, para contribuírem para o avanço do conhecimento e da cultura.” Yoshi Yamamoto, autor do relatório “Taken!” começa por explicar assim ao Observador a razão pela qual Pyongyang decidiu enveredar por esta estratégia de raptar sul-coreanos. “Dito isto, a Coreia do Norte nunca conseguirá ter talento suficiente, já que determina que ninguém pode ser mais sábio do que a família Kim. Não há um sistema de educação montado nem a intenção de desenvolver o talento das pessoas.”

O rapto de sul-coreanos cumpria assim uma dupla função: se inicialmente servia para trazer os conhecimentos que faltavam aos locais, os raptados acabavam por ser mantidos no país para efeitos de propaganda. O caso mais óbvio de todos é o de Choi Eun-hee e Shin Sang-ok. A atriz, apelidada de Elizabeth Taylor da Coreia do Sul, foi a primeira a ser raptada em Hong Kong, em 1978. O marido e realizador foi à sua procura e acabou por encontrar o mesmo fim.

O casal foi depois utilizado para realizar e protagonizar vários filmes. À Coreia do Sul, a mensagem que chegava era a de que Shin e Choi tinham desertado voluntariamente para o Norte, levando o seu talento e arte para Pyongyang. A verdade só seria conhecida oito anos depois, quando a atriz e o realizador aproveitaram a ida a um festival de cinema em Viena para fugir. Consigo traziam uma cassete de um encontro com o próprio Kim Jong-il, que gravaram às escondidas, onde o levaram a admitir que tinham sido raptados.

“Eu disse às pessoas: o Shin e a Choi vieram para cá porque nós temos um sistema superior. Vocês vieram para cá voluntariamente. Não revelei as minhas verdadeiras intenções”, pode ouvir-se o líder dizer na gravação. “A realidade é que eu sou um político, com desejos e caprichos. Vocês foram exigidos por esses desejos e caprichos. Por isso, cá estão.” A história de Shin e Choi acabaria por ser contada num documentário de 2016, intitulado “The Lovers and the Despot” (Os Amantes e o Déspota).

Go Myong-hyun não tem dúvidas em afirmar que o próprio Kim Jong-il criou uma estratégia sua relacionada com os raptos: “Em meados dos anos 70, a situação interna da Coreia do Norte começa a mudar. Kim Jong-il desenvolve a ideia de raptar sul-coreanos, mas sobretudo japoneses, para torná-los espiões e é aí que se entra nesta operação surreal de raptar japoneses”. Contudo, seria fácil atrair coreanos que viviam no Japão para os treinar como espiões. Por que razão arriscaram tanto os norte-coreanos ao raptar cidadãos japoneses? “Penso que Kim Jong-il estava muito interessado em conseguir uma revolução global, também”, explica o académico.

O Gabinete 35 do Partido dos Trabalhadores da Coreia, encarregado de levar a cabo os raptos, passou então a focar atenções no Japão. A estratégia passava por raptar pessoas em zonas costeiras, muitas vezes casais. Atualmente, Pyongyang admite o rapto de 13 japoneses — o Governo japonês coloca o número em 17. As associações de familiares falam em centenas de casos.

Megumi Yokota, raptada aos 13 anos, tornou-se o símbolo máximo desta realidade. “Ela representava a total e completa inocência dos japoneses que foram levados”, resume ao Observador Robert Boynton, o norte-americano que investigou a fundo o rapto de estrangeiros pela Coreia do Norte, sobretudo japoneses. “Se olharmos para a forma como as meninas são muitas vezes representadas na Manga [BD japonesa], são muito parecidas com ela. Ela é o símbolo derradeiro de uma inocência que foi roubada.” O caso de Megumi inspirou vários documentários, uma peça de teatro, programas de televisão e desenhos animados.

Fotografias de Megumi Yokota numa exposição em Tóquio (KAZUHIRO NOGI/AFP/Getty Images)

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Eram seis da tarde do dia 15 de novembro de 1977. Megumi vinha para casa, saída de um treino de badminton, na sua cidade natal de Niigata. Separou-se de dois colegas a meio do caminho, como era habitual. Foi vista pela última vez parada num sinal, com a sua raquete de badminton a espreitar da mochila. Não são conhecidos os pormenores do rapto, mas é certo que Megumi foi levada pelos norte-coreanos, facto confirmado pelo próprio regime.

Na Coreia do Norte, Megumi teve contacto com outros japoneses raptados: a uma delas, Hitomi Soga, deu a sua mala de badminton para que guardasse como recordação sua; com o casal Yasushi e Fukie Chimuta teve aulas de coreano. Mais tarde, acabaria por casar com um sul-coreano raptado — nada mais nada menos do que o estudante Kim Young-nam. Juntos, tiveram uma filha. Todos os que a contactaram admitem que a jovem Megumi parecia ter momentos de profunda depressão. O marido revelou que esteve internada num hospital psiquiátrico alguns anos. O regime norte-coreano garante que Megumi Yokota se suicidou — mas os vestígios de ADN das cinzas que enviou à família como restos mortais não correspondiam aos de Megumi. O caso mais emblemático de um japonês raptado continua assim, até hoje, envolto em mistério.

Casamentos forçados e educação dos filhos. A vida possível na Coreia do Norte

“Havia um padrão na forma como as vítimas raptadas eram tratadas”, explica Yamamoto, que entrevistou dezenas de pessoas que estiveram retidas na Coreia do Norte. “Eles nunca foram verdadeiramente expostos à sociedade norte-coreana, apenas a uma limitada elite que tinha como obrigação treinar espiões. Por isso, os raptados eram forçados a viver sozinhos ou em pequenos grupos entre eles ou a casarem uns com os outros.”

Shigeru Yokota, pai de Megumi Yokota, mostra uma fotografia da filha em criança e outra que lhe foi dada de Megumi já adulta (Getty Images)

O rapto de japoneses passou a ter um modus operandi específico, como explica Boynton. Na maioria das vezes, eram raptados casais, que depois eram separados assim que chegavam à Coreia do Norte. “O isolamento era chave. O regime percebeu que geralmente era necessário ano e meio para quebrar um indivíduo até um estado psicológico de desespero, durante o qual lhe podiam ensinar a língua coreana e apresentá-lo à Juche, a ideologia oficial do regime”. Mas demasiado isolamento poderia levar à depressão e ao suicídio, razão pela qual ao fim de uns tempos eram novamente reunidos com o companheiro ou companheira.

“Se fosse alcançado o equilíbrio correto e o casal fosse separado, treinado e depois reunido, as opções eram ilimitadas”, pode ler-se em “The Invitation-Only Zone” — precisamente o nome dado ao complexo onde vivia a maioria dos raptados japoneses, perto de Pyongyang. Aí, podiam levar a cabo uma vida a dois relativamente pacífica, com uma alimentação frugal mas suficiente, tarefas fixas (traduzindo jornais japoneses, por exemplo) e até, em alguns casos, com a possibilidade de fazer viagens pontuais pelo país, desde que acompanhados. A maioria acabaria por ter filhos e criá-los ali, muitas vezes não lhes revelando as suas origens.

O comité da ONU concluiu que estas vítimas “foram poupadas ao impacto brutal da fome dos anos 90 e tiveram acesso a serviços médicos”, mas nem por isso tiveram uma vida fácil: “Impedidos de se integrarem na sociedade norte-coreana, era-lhes negado o direito ao trabalho, eram impedidos de sair da sua zona de residência e de se mover livremente na sociedade, não podiam escolher o tipo de educação que queriam para os filhos e enfrentavam violações sexuais e de género, como avanços sexuais indesejados por parte dos seus vigilantes, bem como casamentos forçados.”

O investigador Yamamoto não tem dúvidas em classificar o tratamento dado aos raptados como um que “viola os direitos humanos mais básicos”. E conta ao Observador uma história para ilustrá-lo: “Quando estava presa numa casa, a japonesa Yaeko Taguchi apegou-se a um cão que lá estava. Sem ninguém com quem pudesse falar, tornou-se muito próxima do cão e deu-lhe o nome de Julie em homenagem a uma estrela rock do Japão. Os guardas viam como ela se apegou ao cão e um dia levaram-no. Suponho que sabe que os coreanos, à semelhança dos chineses, apreciam bastante carne de cão…”, declara o investigador, dando a entender que terá sido esse o destino de Julie. “É claro que isto são coisas pequenas quando comparadas com, por exemplo, os casamentos forçados. Mas destaco este ato cobarde das autoridades norte-coreanas como um exemplo de como mantinham os raptados emocionalmente instáveis para os controlar mais facilmente. Esta ideia de controlarem todos os aspetos da vida deles, grandes ou pequenos, foi o que me chocou mais ao fazer este trabalho.”

Kenichi Ichikawa, irmão do raptado Shuichi Ichikawa, mostra os certificados de casamento e de óbito que lhe foram providenciados pela Coreia do Norte (Junko Kimura/Getty Images)

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Os casamentos forçados acabariam por ser um dos principais motores para a política de rapto de estrangeiros, sobretudo os de outras nacionalidades que não a coreana e a japonesa. “A ideia de uma ‘raça pura coreana’ é um factor-chave da sociedade norte-coreana e foram feitos grandes esforços para prevenir o nascimento de coreanos de raça mista”, explica o relatório da ONU. Um deles passou pelo rapto de várias mulheres que eram entregues como esposas.

Foi o caso de Hitomi Soga. A jovem de 19 anos caminhava com a mãe nas ruas da ilha de Sado (Japão), com um gelado na mão, quando ambas foram levadas à força por três homens, que as amordaçaram e colocaram dentro de sacos pretos. O paradeiro da mãe, Miyoshi Soga, é desconhecido até hoje. Já a jovem Hitomi foi entregue como uma espécie de “presente” a Charles Jenkins — um dos quatro soldados norte-americanos que desertaram para a Coreia do Norte nos anos 60 e que acabaram por protagonizar muitos dos filmes de propaganda do país, como vilões. Forçados a coabitar, rapidamente Charles e Hitomi se juntaram como casal.

“Naquele primeiro mês, devemos ter gasto 90 maços de cigarros. Uma vez estávamos a jogar cartas sozinhos e eu disse-lhe que tinha ouvido falar em muitos japoneses raptados e trazidos contra a sua vontade. Sem dizer uma palavra, ela apontou para o seu próprio nariz, como que a indicar ‘eu sou um deles’. Não tardou até que ela me contasse toda a sua história”, revela o antigo soldado no seu livro de memórias “The Reluctant Communist: My Desertion, Court-Martial and Forty-Year Imprisonment in North Korea” (sem edição em português. O título aproximado é ‘O Comunista Relutante: a Minha Deserção, Tribunal Militar e 40 anos de Prisão na Coreia do Norte’). Os dois acabariam por ter dois filhos e mantiveram durante anos a tradição de se despedir todas as noites dizendo “boa noite” um ao outro em inglês e em japonês.

Charles Jenkins (à direita) com as suas duas filhas e com a filha de Megumi Yokota (de casaco claro) (Getty Images)

Jenkins, que garante que rapidamente se arrependeu de ter desertado, acabaria por servir como uma das testemunhas principais da comissão de inquérito da ONU. Durante todos os anos que passou na Coreia do Norte, conheceu muitos dos estrangeiros que para lá foram levados. Em 2002, Hitomi foi incluída no grupo de reféns devolvido pela Coreia do Norte ao Japão. Jenkins e as duas filhas acabariam por juntar-se a ela na ilha de Sado algum tempo depois.

Mas, à medida que os anos passavam, as mulheres japonesas não foram as únicas raptadas para serem entregues em casamento — a japoneses, sul-coreanos e, inclusivamente, aos restantes soldados americanos. “Eles tentaram alargar a operação. Tornou-se mais direcionada, com menos vítimas, mas passou a incluir o resto do mundo. Foram raptadas pessoas em Hong Kong, na Tailândia, na Europa. Alguns países acabaram por ter embaixadas [da Coreia do Norte] que eram usadas como bases operativas. Foi o caso da Alemanha”, explica Go Myong-hyun. Outro conhecido caso foi o da embaixada em Zagreb, durante a Guerra Fria.

Nestes países, o rapto violento era mais difícil de levar a cabo, tendo em conta a distância que era preciso percorrer até Pyongyang. Assim, os agentes secretos norte-coreanos utilizavam outros métodos: tentavam atrair as vítimas seduzindo-as romanticamente ou com promessas de empregos incríveis noutros países. Em 1978, quatro jovens libanesas entraram num avião em Beirute com destino à Coreia do Norte, pensando que estavam a caminho de empregos lucrativos como secretárias no Japão. Duas foram entregues a dois dos soldados norte-americanos, James Dresnok e Jerry Parrish.

Graças a negociações entre o Governo libanês e os norte-coreanos, as quatro mulheres conseguiram sair do país. Mas Siham Shraiteh foi obrigada a regressar, porque estava grávida do soldado Parrish. “A sua mãe, Mountaha Haidar, sente-se desolada”, relatava um artigo da Newsweek de 2006. “Foi autorizada a visitar a filha apenas uma vez em Pyongyang (mas não a ir a casa dela) e recebe uma chamada telefónica uma vez por ano. A filha está sempre acompanhada quando telefona e pergunta pelo bem-estar da mãe. Haidar diz ‘a Coreia do Norte destruiu a vida da minha filha’”.

Outro soldado norte-americano, James Dresnok, casou com uma cidadã romena, Dona Bumbea, atraída para o país em Itália por um alegado milionário por quem se apaixonou, achando que ia para Hong Kong. O quarto soldado, Larry Abshier, teve como mulher uma tailandesa, Anocha Panjoy, ao que tudo indica raptada em Macau no ano de 1978.

Muitas mulheres de várias nacionalidades foram raptadas ou atraídas em sítios tão distintos como Macau, Singapura, Londres ou França. Alguns estudiosos do tema, como Boynton, questionam-se ainda se todas as mulheres dos membros do Exército Vermelho terão ido para o país de livre vontade. O Exército Vermelho japonês (Yodo-go no original) foi um grupo terrorista de extrema-esquerda composto por japoneses que desviaram um avião para Pyongyang e lá se instalaram em 1970, com laços posteriores à Palestina.

Certo é que algumas delas, como Yoriko Mori e Sakiko Kuroda, acabariam elas próprias por aliciar estrangeiros para a Coreia do Norte anos mais tarde. Pelo menos dois estudantes japoneses foram atraídos pela dupla de mulheres em Barcelona, em 1980.

Tabu em Seul, prioridade em Tóquio

Oito japoneses levados para Pyongyang tiveram oportunidade de regressar com os filhos em 2002 e três libanesas conseguiram voltar a Beirute. Mas a maior parte dos raptados pela Coreia do Norte, contudo, nunca mais regressou aos seus países de origem. O paradeiro da maioria é desconhecido — e as famílias sofrem a angústia de não saber se filhos, pais e irmãos estão sequer vivos.

É o caso de Hwang In-cheol, o filho do produtor de televisão Hwang Won, que se sente abandonado: “Para resumir isto de forma simples, a forma como o Governo sul-coreano lida com tudo isto é considerando-o uma coisa do passado.” Won tem tentado reunir toda a informação possível sobre o pai e tem feito campanha para descobrir o seu paradeiro. Mas sente-se só. “Nos últimos anos, tenho feito campanha pelo regresso do meu pai sozinho. Sinto que os meus direitos humanos também estão a ser violados. Sinto-me ostracizado”, desabafa ao Observador, os olhos do outro lado do ecrã presos ao chão.

Ação de protesto de familiares sul-coreanos de vítimas raptadas (JUNG YEON-JE/AFP/Getty Images)

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“Os sul-coreanos mais progressistas geralmente não falam dos raptados”, admite o investigador Yamamoto. “Penso que consideram este fenómeno trágico e triste, mas acham que o pecado do irmão mais novo é também um pecado do irmão mais velho e que só pode ser resolvido quando os dois irmãos se voltarem a dar. É por isso que o Governo sul-coreano não considera o problema dos raptados uma prioridade e se prefere focar na reunificação.”

Por outras palavras, Seul considera que não se pode falar exatamente em raptos internacionais quando, no fundo, as duas Coreias ainda alimentam a esperança de voltarem a ser um único país. Sentados à mesa das negociações, os sul-coreanos consideram este tema secundário. Isso mesmo admitia Chong Ryul-ryoo, membro do ministério da Unificação, em 2004: “Temos de olhar para este tema com uma perspetiva mais ampla, dentro do contexto das relações inter-Coreias”, afirmou. “Tendo em conta os outros temas importantes relacionados com as relações Norte-Sul, a questão dos raptados poderá demorar algum tempo.”

Catorze anos passados, o tema continua a não ser prioritário para Seul. As autoridades sul-coreanas prometeram abordar o tema nas recentes negociações com Kim Jong-un, mas até agora não houve qualquer declaração nesse sentido. “Quando foi a primeira cimeira inter-Coreias, eu estava muito esperançoso”, comenta Hwang In-cheol. “Foi uma época incrível, todos pensávamos que a reunificação estava ao virar da esquina. Mas como o Governo norte-coreano reagia mal a cada referência ao tema dos raptados, ele foi excluído das negociações.” Desta vez, quando Moon Jae-in e Kim Jong-un se encontraram em Panmunjom no passado mês de abril, a palavra “rapto” não voltou a transpirar das reuniões. “Podemos ser enganados uma vez. Agora duas vezes…”, lamenta-se o sul-coreano.

Não muito longe de Seul, em Tóquio, a atitude dos poderes públicos relativamente aos raptos é totalmente diferente. Por um lado, não há quaisquer afinidades históricas com a Coreia do Norte, o que significa que os raptos são encarados como uma agressão clara de um poder estrangeiro. Por outro, o atual Governo de Shinzo Abe não teve pejo em fazer do tema uma prioridade política: “Cada país tem os seus temas polémicos e eles crescem e tornam-se uma parte central do discurso quando políticos ambiciosos decidem pegar neles — foi isso que aconteceu no Japão”, resume ao Observador Richard J. Samuels, professor do MIT especialista na história do Japão e autor do artigo “A Política de Raptos na Ásia Oriental”.

Fukie Hamamoto abraça a família no regresso ao Japão, em 2002 (Koichi Kamoshida/Getty Images)

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No Japão, o tema tornou-se “um terramoto”, diz Samuels, que define o tema como uma antiga bandeira da direita japonesa que se tornou mainstream. Para o professor, isso prejudicou o Japão nas conversações internacionais: “Os políticos japoneses fizeram tantas promessas internas sobre este tema que isso alastrou-se à sua política internacional. Nas conversas a seis [com as duas Coreias, Japão, EUA, China e Rússia, entre 2003 e 2007], o Japão perdeu a noção de quais eram os temas verdadeiramente importantes.” Para o académico, esta política de raptos foi uma tentativa “maldosa, horrível e estúpida” da Coreia do Norte para ganhar vantagem sobre o Japão, mas o seu efeito, defende, é limitado: “Não é uma questão de direitos humanos tão alargada como o tráfico humano ou a repressão dos media.”

O investigador Yamamoto não podia discordar mais de Samuels e destaca o contexto histórico. “Na cabeça dos japoneses mais jovens, que cresceram com outro tipo de educação, a Coreia é sempre inocente, porque não atacou nem invadiu nenhum país vizinho. O Japão, pelo contrário, não só invadiu a Coreia como a colonizou”, resume. “Neste contexto, a ideia de os coreanos andarem a raptar japoneses foi uma chamada de atenção. Embora não se possa comparar eventos históricos, para muitos japoneses isto tornou claro que as autoridades norte-coreanas também não são inocentes.” A causa tornou-se, por isso, simbólica — e Megumi Yokota, a adolescente de franja negra raptada à saída do badminton, tornou-se o seu rosto.

Negociações com Estados Unidos são nova hipótese

A política de raptos em larga escala acabaria por “colapsar com o fim da Guerra Fria”, explica Go. “Os norte-coreanos passaram a fazer operações apenas perto da fronteira, na China, atacando sobretudo missionários sul-coreanos ou ONG que ajudam dissidentes.” Foi o caso dos pastores sul-coreanos Ahn Seung-woon e Kim Dong-shik, raptados da China durante a década de 90. De acordo com Yamamoto, Dong-shik acabaria por morrer num campo de concentração.

Atualmente, dizem os investigadores ouvidos pelo Observador, a estratégia dos raptos deu lugar a outro tipo de política: a manutenção em cativeiro de turistas norte-americanos como Otto Warmbier, libertado em coma depois de 17 meses preso. O jovem de 22 anos acabaria por morrer já nos Estados Unidos. “A Coreia do Norte continua a ser um lugar inóspito para os estrangeiros”, resume Richard Samuels. Como prova de boa fé para as negociações previstas com os Estados Unidos, Pyongyang libertou recentemente três sul-coreanos com nacionalidade americana detidos no seu país. Sobre os raptados que poderão continuar a viver no país, contudo, nem uma palavra.

Na conversa com Kim Jong-un, o Presidente sul-coreano não parece ter feito qualquer pergunta sobre o paradeiro de pessoas como Hwang Won. Por isso, os familiares viram-se agora para outro lado — muitos têm abordado as autoridades norte-americanas, na esperança de que o assunto seja agora levantado pelo Presidente Donald Trump na cimeira de 12 de junho. Foi o caso da própria Hitomi Soga, que se encontrou pessoalmente com Trump.

O próprio regime norte-coreano está a par dessas movimentações e já reagiu através da agência de notícias estatal, KCNA: “Os reacionários do Japão estão a exagerar a ‘questão dos raptos’, que já tinha sido resolvida”, escreveu a agência em meados do mês de maio. “Este é só um comportamento maldoso e louco para travar esta tendência para a paz na península coreana.”

A hipótese de os Estados Unidos trazerem para cima da mesa o assunto, tão caro ao Japão, não é de todo impossível — embora seja improvável. “Quem sabe do que irá falar Donald Trump? Metade do tempo nem ele próprio tem a certeza”, resume Samuels. “Trump pode levantar o assunto, sim. Mas nem um Presidente como ele conseguirá tornar este tema a peça mais importante das negociações.”

Donald Trump encontra-se com familiares de vítimas raptadas (KIMIMASA MAYAMA/AFP/Getty Images)

AFP/Getty Images

É para garantir que o assunto é pelo menos abordado que pessoas como o jornalista Robert Boynton, autor de “Invitation-Only Zone”, estão a redobrar os seus esforços de lóbi nos Estados Unidos: “Quero chamar a atenção para esta e para outras violações de direitos humanos cometidas pela Coreia do Norte. Acho que têm de ser parte do diálogo, criou-se aqui uma falsa dicotomia entre assuntos ‘menores’ como os raptos e ‘maiores’ como a desnuclearização”, afirma numa conversa telefónica com o Observador, antes de sair para um evento das Nações Unidas sobre o tema. “Mas é difícil”, admite. “Como podem os direitos humanos competir com uma nuvem radioativa?”

Até dia 12, os familiares de todos os raptados continuarão à espera de informações. Estarão vivos? Se não, como morreram? Terão tido filhos entretanto? Onde e como vivem? Agora, soma-se uma nova pergunta: irão os norte-americanos conseguir o regresso daqueles que mais amam? Ou, pelo menos, alguma informação mais concreta? “Essa é a minha esperança”, assume Hwang In-cheol, o filho que conheceu o pai, raptado em pleno espaço aéreo sul-coreano há quase 50 anos, mas cujo rosto só recorda por fotografias. “Só espero que isso aconteça. Donald Trump é a minha última esperança.”

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