O anjo que Camilo previu: uma análise literária à mensagem de Ricardo Robles

Carlos Maria Bobone leu as explicações de Robles no Facebook. E como todos os grandes escritores, o vereador de Lisboa mostra que a língua tem um poder transformador.

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ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA

ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA

Em 1866, Camilo Castelo Branco romanceou a entrada no Parlamento de um mestre da língua portuguesa, de um sábio de província com a verve – estrangeirismo que ele nunca admitiria – dos mais puros tratadores da língua. Esse homem, Calisto Elói da Barbuda, personagem principal de A Queda de Um Anjo, é apenas mais uma prova da presciência dos génios. Camilo não inventou Calisto; Camilo profetizou, com 150 anos de antecedência, a existência de Ricardo Robles.

Robles não é um político vulgar. Nem precisou de um discurso, como Calisto, para assombrar a audiência; bastou uma mensagem no facebook para todos percebermos que era digno de figurar em várias antologias literárias. Não como um escritor originalíssimo, é certo, mas como um daqueles que alimentam abonações de dicionários e são brandidos em discussões de gramáticos como a Bíblia em discussões de teólogos. Há Vieira, Lucena, Castilho, e depois Robles – aqueles que nunca falham o significado de uma palavra, em quem a precisão do verbo é sempre um ponto de honra.

Veja-se a impiedade com que Robles zurze o seu entrevistador, laxista no emprego da língua. O entrevistador pergunta se é verdade que Robles despejou os inquilinos. A resposta é peremptória: não é verdade. Dois arrendatários renunciaram ao contrato mediante indemnização; outro tinha a loja devoluta, pelo que foi entregue sem indemnização, outro saiu depois de um acordo “em tribunal”, embora a indemnização ainda esteja a ser decidida “pelo tribunal”, e por fim outros inquilinos têm um novo contrato.

[a mensagem que Ricardo Robles publicou sexta-feira no facebook:]

A nossa língua romba chamaria “despejo” a quase todas as situações. Ao inquilino que tem de sair com indemnização, ao inquilino que sai sem indemnização, ao inquilino que discute em tribunal quanto deve receber para sair; porém, tem Robles muita razão – nenhum deles estava pacientemente sentado num balde, que pudesse ser despejado pela janela. Despejados são os autoclismos, onde não consta que algum deles vivesse. Aliás, é esta precisão linguística que permite perceber toda a sanha de Robles contra os rapaces proprietários. De facto, há qualquer coisa de inumano nos proprietários que, não contentes com tirarem o doce lar aos inquilinos, ainda os lançam pelo ralo.

Do ponto de vista literário, poderíamos lobrigar outra influência no discurso de Robles. Há elementos que sugerem uma aplicação daquilo a que Bertrand Russell, numa conversa na BBC, chamou a Conjugação Emotiva. Consiste esta curiosidade gramatical na variação do verbo, não consoante o tempo ou o modo, mas consoante a pessoa. O exemplo de Russell é claro: “eu sou persistente, tu tens ideias rígidas, ele é um teimoso de cabeça dura”. É um caso típico em que a mesma acção sofre de variações por causa da pessoa. E se a subtileza linguística de Robles permite conhecer este processo e conjugar “eles fazem especulação imobiliária, nós vendemos mais caro por decisão familiar”, por outro lado, esta seria uma influência estrangeira que não se admitiria num discurso tão patrioticamente luso.

Robles mostra que a modernidade não precisa de influência estrangeira: se no barroco Bartolomeu do Quental não dava ponto sem linha da escritura, Robles não ganha ponta sem a letra da lei. Cita siglas e pareceres com o à vontade de quem priva de perto com as crípticas abreviaturas dos alvarás e dos pareceres, esmaga com a lei como nem Cícero calaria Catilina, e, sobretudo, mostra a camaleónica capacidade de se adaptar até à língua burocrática que intimida qualquer adversário. Robles não esclarece, “coloca todos os esclarecimentos”; não comprou um prédio, adquiriu “um imóvel sito”; nem preparou as obras, iniciou “de imediato os procedimentos para um processo de licenciamento”. A mestria linguística mostra-se nestes casos: quem, diante de um “imóvel adquirido”, não percebe logo que há uma correcção de que desconfiaríamos num prédio comprado?

O leitor mal-intencionado pode desdenhar da importância destas coisas; no entanto, aquilo que Robles, como todos os grandes escritores, aliás, mostra é que a língua tem este poder transformador. O discurso legalista sugere que o negócio é legal e impoluto; a justificação – “aceitei que, por razões familiares, o prédio fosse colocado à venda” – não só o Coloca (coloca, não põe) numa situação passiva – ele só aceitou, não sugeriu, a ideia e a culpa não são dele – como dá uma certa aura magnânima. Robles, contrariado, pensando no pobre escritório devoluto, não queria vender, comprou até o prédio para que o escritório pudesse devolutar em segurança, sem a perspectiva constante de poder ser habitado; porém, por razões familiares, acedeu.

É certo que nem tudo no esclarecimento de Robles é perfeito. Por vezes, cede aos lugares-comuns. Sugerir que a nova renda dos inquilinos está abaixo do valor de mercado, se não vem nos Lusíadas, vem nas sebentas de qualquer agente imobiliário. Até nisto, contudo, Robles se porta como um verdadeiro purista da língua, que vai buscar o discurso, mais do que aos grandes livros, às práticas do povo.

Robles, em resumo, deve ser admirado. A riqueza da sua língua deve ser ainda mais admirada do que a dos seus bolsos – o que, pelo que sabemos hoje, não é dizer pouco. É um mestre da sugestão, da precisão (o direito defendido sempre foi o da habitação, restaurantes e lojas, esses exploradores, que lucrem a céu aberto com as suas manigâncias obscuras) e da tribuna. Se já antes tivemos um famoso discurso que começava cada parágrafo com “não discutimos Deus”; “não discutimos a nação”, em Robles temos uma bonita homenagem a estas negativas. “Não é verdade”, “Não há qualquer contradição”, “Não existe contradição”, assim começam os três últimos parágrafos da entrevista. Pode ser só um ornamento; mas não deixa de ser bonito.

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