Lifestyle

Um vinho vivo 70 anos depois

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Aos 41 anos, António Maria Soares Franco, membro da sétima geração da José Maria da Fonseca, partilha uma lembrança extraordinária: o dia em que bebeu um Periquita com quase o dobro da sua idade.

EDUARDO SOUSA RIBEIRO

“Há cerca de dois anos atrás, fizemos uma prova vertical do Periquita, ou seja, provámos colheitas diferentes da mesma marca de vinhos, para comprovar a sua capacidade de envelhecimento. Começámos com anos mais recentes e fomos fazendo uma viagem no tempo, aos anos 90, anos 80, anos 70… o meu tio, Domingos Soares Franco – o enólogo responsável da José Maria da Fonseca –  ia trazendo garrafas cada vez mais antigas. Há medida que andávamos para trás, os vinhos eram cada vez melhores. Quando trouxe uma garrafa de 1940 ficámos estupefactos: como é que um vinho com mais de 70 anos estava naquelas condições fantásticas e sabia assim? Apresentou-nos, então, a garrafa de 1938. Quando provei, senti uma verdadeira explosão. Como era possível um vinho com aquela idade ter aquela vivacidade, aquela frescura e estar a falar connosco dentro do copo como aquele vinho o estava a fazer? Estava completamente vivo! Numa conclusão unânime, considerámos que aquele tinha sido, de longe, o melhor ano da prova.

Foi então que o meu pai e o meu tio explicaram que se lembravam do seu pai, o meu avô Fernando, lhes ter contado que, quando as uvas daquele ano entraram na adega, pairava uma poeira na adega, uma condição rara das uvas chamada de “podridão nobre”. Essa é uma característica dos vinhos de sobremesa de Bordéus, mais conhecidos por Sauterne, por exemplo. Contaram-nos ainda que se devia ao facto de ter chovido muito durante a vindima nesse ano, o que curiosamente fez com que esse vinho chegasse aos dias de hoje tão vivo e de uma qualidade inigualável. Foi, sem dúvida, uma das garrafas que mais prazer me deu provar. Se pensarmos bem no que esse vinho já passou até termos a oportunidade de o ter na nossa mão, até nos arrepiamos. No ano em que foram colhidas as uvas, ainda não tinha começado sequer a segunda guerra mundial! Daí querer tirar a fotografia com a garrafa de 1880 que temos no Museu. Ela exemplifica bem a história da marca. É um símbolo da capacidade de “sobrevivência” do Periquita.

De Nova Iorque para Azeitão

Sempre senti que o meu futuro passava por trabalhar na José Maria da Fonseca. Mas as pessoas da família só trabalham na empresa se puderem ser um valor acrescentado. Por isso, o meu caminho foi feito a pensar nas competências e na rede de contactos que precisava de desenvolver para, quando chegasse à empresa, conseguir de facto ajudar. Todo o meu percurso foi feito com o objetivo de criar essas competências e de ganhar maturidade para poder acrescentar valor à empresa.

Nasci nos Estados Unidos da América (EUA), na altura em que o meu pai trabalhava com o nosso importador depois do 25 de Abril em Portugal. Quando as coisas em Portugal ficaram mais calmas, os meus pais regressaram. Assim, cresci na Quinta de Camarate, em Azeitão, e ali passei toda a infância. Fiz o curso de gestão e trabalhei numa multinacional americana, a Procter & Gamble. Primeiro em Portugal e, depois, em Madrid. Nessa ótica de construção de competências, quis alargar os meus horizontes e ter uma visão mais global do negócio. Entrei em Nova Iorque na Universidade de Columbia, para fazer um MBA. Entretanto, casei e nasceu o meu filho mais velho. Quando terminei a formação, ou ficava lá ou voltava para as minhas raízes. Decidimos fazer essa mudança e passámos de Nova Iorque para Azeitão. Em 2005, entrei como Diretor de Marketing e Vendas, onde estive uns anos e, mais tarde, passei para administração da empresa onde estou hoje.

Tenho muito orgulho em pertencer à José Maria da Fonseca. O primeiro vinho que descobri, aliás, foi o Periquita e, sempre que tinha um jantar em casa de amigos, levava esse vinho, porque é macio, equilibrado e fácil de gostar. Além ser muito agradável, tem a enorme capacidade de envelhecer com qualidade. Consumido entre 10 a 15 anos depois da colheita mostra todo o seu potencial e beleza. E bebido em família, 70 anos depois, é uma experiência arrepiante.”

Saiba mais em https://observador.pt/seccao/periquita/

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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