“Há cerca de dois anos atrás, fizemos uma prova vertical do Periquita, ou seja, provámos colheitas diferentes da mesma marca de vinhos, para comprovar a sua capacidade de envelhecimento. Começámos com anos mais recentes e fomos fazendo uma viagem no tempo, aos anos 90, anos 80, anos 70… o meu tio, Domingos Soares Franco – o enólogo responsável da José Maria da Fonseca –  ia trazendo garrafas cada vez mais antigas. Há medida que andávamos para trás, os vinhos eram cada vez melhores. Quando trouxe uma garrafa de 1940 ficámos estupefactos: como é que um vinho com mais de 70 anos estava naquelas condições fantásticas e sabia assim? Apresentou-nos, então, a garrafa de 1938. Quando provei, senti uma verdadeira explosão. Como era possível um vinho com aquela idade ter aquela vivacidade, aquela frescura e estar a falar connosco dentro do copo como aquele vinho o estava a fazer? Estava completamente vivo! Numa conclusão unânime, considerámos que aquele tinha sido, de longe, o melhor ano da prova.

Foi então que o meu pai e o meu tio explicaram que se lembravam do seu pai, o meu avô Fernando, lhes ter contado que, quando as uvas daquele ano entraram na adega, pairava uma poeira na adega, uma condição rara das uvas chamada de “podridão nobre”. Essa é uma característica dos vinhos de sobremesa de Bordéus, mais conhecidos por Sauterne, por exemplo. Contaram-nos ainda que se devia ao facto de ter chovido muito durante a vindima nesse ano, o que curiosamente fez com que esse vinho chegasse aos dias de hoje tão vivo e de uma qualidade inigualável. Foi, sem dúvida, uma das garrafas que mais prazer me deu provar. Se pensarmos bem no que esse vinho já passou até termos a oportunidade de o ter na nossa mão, até nos arrepiamos. No ano em que foram colhidas as uvas, ainda não tinha começado sequer a segunda guerra mundial! Daí querer tirar a fotografia com a garrafa de 1880 que temos no Museu. Ela exemplifica bem a história da marca. É um símbolo da capacidade de “sobrevivência” do Periquita.

De Nova Iorque para Azeitão

Sempre senti que o meu futuro passava por trabalhar na José Maria da Fonseca. Mas as pessoas da família só trabalham na empresa se puderem ser um valor acrescentado. Por isso, o meu caminho foi feito a pensar nas competências e na rede de contactos que precisava de desenvolver para, quando chegasse à empresa, conseguir de facto ajudar. Todo o meu percurso foi feito com o objetivo de criar essas competências e de ganhar maturidade para poder acrescentar valor à empresa.

Nasci nos Estados Unidos da América (EUA), na altura em que o meu pai trabalhava com o nosso importador depois do 25 de Abril em Portugal. Quando as coisas em Portugal ficaram mais calmas, os meus pais regressaram. Assim, cresci na Quinta de Camarate, em Azeitão, e ali passei toda a infância. Fiz o curso de gestão e trabalhei numa multinacional americana, a Procter & Gamble. Primeiro em Portugal e, depois, em Madrid. Nessa ótica de construção de competências, quis alargar os meus horizontes e ter uma visão mais global do negócio. Entrei em Nova Iorque na Universidade de Columbia, para fazer um MBA. Entretanto, casei e nasceu o meu filho mais velho. Quando terminei a formação, ou ficava lá ou voltava para as minhas raízes. Decidimos fazer essa mudança e passámos de Nova Iorque para Azeitão. Em 2005, entrei como Diretor de Marketing e Vendas, onde estive uns anos e, mais tarde, passei para administração da empresa onde estou hoje.

Tenho muito orgulho em pertencer à José Maria da Fonseca. O primeiro vinho que descobri, aliás, foi o Periquita e, sempre que tinha um jantar em casa de amigos, levava esse vinho, porque é macio, equilibrado e fácil de gostar. Além ser muito agradável, tem a enorme capacidade de envelhecer com qualidade. Consumido entre 10 a 15 anos depois da colheita mostra todo o seu potencial e beleza. E bebido em família, 70 anos depois, é uma experiência arrepiante.”

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