“Olá! Desculpa ter perdido a tua chamada”, diz-nos Adrianne Lenker, com aquela voz calma e doce que tão bem conhecemos das canções de Big Thief. Antes de se atirarem em força para a digressão de 2018 que os levará um pouco por todo o lado até ao final do ano, seja com a banda, seja com os projetos a solo de cada um, os Big Thief alugaram uma casa em Topanga Canyon, na Califórnia, local cada vez mais conhecido como um oásis para artistas que encontram no meio da natureza concentração e inspiração. Objetivo: criar o esboço do que será o terceiro disco de Adrianne Lenker, Buck Meek, Max Oleartchik e James Krivchenia.

Os Big Thief nasceram precisamente de um encontro. No dia em que Adrianne Lenker se mudou para Nova Iorque conheceu Buck Meek, hoje guitarrista da banda. Para trás deixava uma infância itinerante: 14 mudanças de morada (caravanas, quartos emprestados, apartamentos) até aos oito anos de idade, sendo que os primeiros quatro passou-os num culto religioso, no Indiana. O pai quis tornar Adrianne numa estrela pop, ela via na música uma amiga para a vida toda e não quis consumir essa amizade de forma ligeira. Hoje com 27 anos, a vocalista e guitarrista da banda sediada em Brooklyn faz o seu próprio caminho. Pelo meio, vai tentando curar as feridas do passado.

Adrianne perdeu a nossa primeira chamada porque, naquele momento, estava a subir uma montanha. Quando não está a subir montanhas, o grupo aproveita o retiro para gravar as demos do que será o sucessor de Capacity, disco que integrou várias listas dos melhores discos de 2017, incluindo a do Observador. No dia 18 de agosto, às 21h20, também estarão rodeados de natureza no palco principal do Vodafone Paredes de Coura (de 15 a 18 de agosto), naquela que é a estreia dos Big Thief em Portugal. Quem sabe se alguma das demos nascidas em Topanga Canyon já ganhou forma de canção e está pronta a entrar no concerto que se aproxima.

[ao vivo na rádio KEXP:]

Concentração e inspiração parecem não faltar aos Big Thief. O disco de estreia, Masterpiece, saiu em maio de 2016. Menos de um ano depois surpreenderam com Capacity. Como estão a correr os dias na Califórnia? Estão a preparar-se para manter a média de um disco novo por ano?
Hmmm… Eu estive a trabalhar num álbum a solo. Nós [Big Thief] ainda não definimos uma data de lançamento para o próximo disco… “Não sei” é a resposta por enquanto, mas estamos a gravar muitas demos neste momento. Estão a correr bem, está a ser divertido.

Muita coisa aconteceu desde que lançaram o disco de estreia. Capacity, sobretudo, atraiu muitas atenções e os concertos multiplicam-se. Sentiram que essa atenção afeta de alguma forma o processo de composição em que estão agora?
É interessante porque depois de gravarmos Capacity estivemos basicamente dois anos juntos na estrada. O amor entre nós cresceu e aproximámo-nos. Também aprendemos muito com o processo de gravação dos primeiros álbuns, e dar-nos este tempo para fazer demos, estendê-las, brincar com elas, fazer arranjos, é uma novidade. No passado gravámos logo e, como tínhamos um tempo limitado no estúdio, havia essa pressão. Sentimos que o tempo que nos estamos a dar agora é uma coisa muito boa. Nesse sentido, há uma diferença.

[“Masterpiece”:]

O nome do vosso disco de estreia é curioso: Masterpiece (“Obra-Prima”). Qual o significado por trás dessa escolha?
O nome deriva da canção “Masterpiece”. Acho que todos gostámos da ideia de ter um ponto de partida, então chamamos-lhe a nossa ‘Masterpiece’ [risos]. Esse álbum é o nosso ponto de partida, para onde vamos, e é também o culminar de um processo. Há também a perspetiva de haver coisas magistrais a florescer a toda a hora, que não são mais nem menos naturais e perfeitas do que uma árvore ou um jardim. Acho que também gostamos de brincar com nós mesmos, por isso escolhemos esse nome.

Há uma ligação entre cada momento da discografia de Big Thief? O terceiro disco vai traduzir alguma continuidade?
Nós somos a ligação entre eles. A nossa evolução natural como banda é o que estamos a captar, ou seja, a ligação não é necessariamente uma história, mas há uma continuidade natural. Não estamos a tentar intencionalmente que soem iguais nem diferentes, cada um segue o seu caminho, mas é engraçado olhar para trás e perceber as ligações que existem entre eles.

Vocês vivem em Nova Iorque. É importante para o vosso processo criativo procurarem um ambiente antagónico ao de uma grande cidade na hora de criarem um disco?
Bom, para dizer a verdade nenhum de nós viveu em sítio nenhum durante os últimos dois anos, porque temos estado sempre na estrada [risos]. Mas sim, definitivamente. Quando fizemos Masterpiece e Capacity vivíamos em Nova Iorque e soube muito bem sair dali para gravar. Procuramos lugares onde possamos estar em contacto com a natureza para gravar. É preciso tirar um álbum de um certo tempo e lugar, da fase em que estamos enquanto pessoas, de como nos sentimos num determinado espaço, o que comemos, o que nos rodeia, tudo. Quando nos reunimos para fazer um álbum tentamos ir para ambientes que queremos que sejam captados para o álbum.

[“Shark Smile” ao vivo:]

Em que fase é que estão neste momento? Capacity levou a banda às mais respeitáveis listas de melhores discos do ano. Como lidam com essa atenção? Condiciona-vos de alguma maneira?
A nossa forma de lidar com isso tem sido deixar as coisas andarem. É claro que o reconhecimento sabe bem, porque há muitos artistas bons que… Não há uma fórmula, percebes? Algumas pessoas não têm o reconhecimento que o trabalho delas merece, depois outras têm-no sem procurar. É interessante como isso acontece, e relativamente imprevisível. Num minuto podemos estar a ter atenção, boas críticas, e no outro minuto tudo pode mudar. Acho que, por ser uma coisa tão incerta, a banda não atribuiu um grande peso à situação. Sentimo-nos gratos pelo que temos mas, tirando isso, não sinto que nos tenha afetado muito. O nosso foco para o próximo disco é o mesmo do passado, que é fazer o trabalho mais inspirador que conseguirmos.

Não conhecendo uma fórmula, o que acham que há no vosso som, nas vossas letras, que toca as pessoas? A voz está entre os principais elogios à banda.
Talvez as pessoas sintam que fazemos algo em que elas podem confiar. Que nós vamos continuar a fazer isto, independentemente de estarem duas pessoas ou milhões de pessoas  a ouvir [risos]. Que estamos dedicados ao nosso crescimento enquanto seres humanos e isso vem com a música. Talvez as pessoas se sintam atraídas por isso e se sintam conectadas perante a ideia de que a vida pode ser confusa. Nós escrevemos muito sobre abrirmo-nos e tentarmos alcançar algo mais além, no desconhecido. Há tanto para processar nas nossas vidas. Há muita dor e perda, mas há também alegria, beleza, amor. Quem sente isto sente-se mais interligado, mais vivo, menos sozinho. O que eu sinto nos concertos é um abraço gigante, toda a gente está ali para se sentir conectado consigo e, por isso, mais conectado com os outros. A vida pode ser um lugar solitário. Acho que o que espero é que uma das razões pelas quais as pessoas se relacionam com a nossa música é porque sentem que ela cuida delas. Pelo menos de nós, de mim, cuida.

Tinha apenas oito anos quando fez a sua primeira canção. De que forma é que sentia que a música cuidava de si nessa altura?
Senti que tinha acabado de conhecer a minha melhor amiga, que nunca se iria embora. E eu precisava dessa amiga naquela altura, sabes? Encontrei a música e encontrei-me a mim, porque o que quer que fosse que a música fazia sair de mim, era algo que me fazia sentir mais profundamente ligada a tudo. Acho que o que me levou para a música foi a necessidade de ter um ombro onde chorar. Precisava de uma âncora, de me abrir. Tem sido sempre assim para mim, em todas as fases de crescimento.

[“Mythological Beauty”:]

“You cut the flesh of your left thumb
Using your boyfriend’s knife
Seventeen, you took his cum
And you gave birth to your first life
You gave Andrew a family who you thought would love and take better care
I have an older brother I don’t know
He could be anywhere”

Disse numa entrevista que os seus pais carregavam um grande peso desde a infância. São os únicos a carregá-lo, ou parte desse peso passou para os filhos?
Eu diria que o peso que carregamos já vem de várias gerações passadas, de uma longa linha ancestral. Acho que as coisas vão sendo passadas de geração em geração. Os meus pais tiveram de lidar com o que receberam e lidaram com isso o melhor que souberam. O que eu recebi deles foi uma versão mais refinada. Houve um peso na minha infância e eu ainda lido com ele. Não acho que foram eles que mo passaram. Acho, sim, que eles também o estavam a processar. É uma dor antiga. Toda a gente partilha alegria e dor, e parte dela é ancestral.

Todas as suas letras são autobiográficas?
São todas autobiográficas no sentido em que derivam de experiências minhas. Nada é ficcional. Suponho que pudesse escrever sobre outra pessoa, mas eu só consigo escrever e imaginar sobre outra pessoa através da minha própria empatia, e a minha empatia é uma grande parte da canção. Acho que o que estou a querer tentar dizer é que não me consigo afastar da escrita autobiográfica. Há escritores que conseguem assumir outro personagem e imaginar através dessa perspetiva, mas mesmo nesses casos não sei se alguma vez ouvi uma canção que não fosse emocionalmente autobiográfica.

O seu pai tentou que lançasse um disco quando era adolescente, e levava-a a bares para tocar e cantar. A ideia era torná-la numa pop star. A Adrianne chegou a gravar mas, no fim, recusou-se a lançar o disco. Como é que, passados 10 anos, ele vê a carreira que está a construir?
Ele apoia-me muito. É um grande fã [risos], por vezes apanha as coisas primeiro do que eu. Segue tudo o que fazemos e está muito orgulhoso. Estamos bem.

Este verão vão tocar pela primeira vez em Portugal, e a estreia vai fazer-se num festival. O que estão à espera de encontrar quando estiverem em palco?
Não tenho expectativas. Tento não ir para os sítios com expectativas porque gosto de ser surpreendida. Já estive uma vez em Lisboa, de férias, há cerca de um ano, e fiquei impressionada! É uma cidade linda, com os azulejos pintados em todo o lado. Também estivemos num sítio chamado… Almoçageme? É tão bonito! Havia um cão que me seguia para a praia todos os dias, ficamos amigos [risos]. Estou entusiasmada para o festival. Sei que os festivais não são muitas vezes a melhor maneira de conhecer um lugar e a sua essência mas eu estou muito feliz. Quero explorar mais Portugal, especialmente com alguém que viva aí. Espero fazer alguma amizade que me mostre os sítios mais escondidos [risos].

Os Big Thief fazem parte do cartaz do festival Vodafone Paredes de Coura e atuam no dia 18 de agosto, sábado, às 21h20