Desporto

Crónica. Um jovem motor que virou gigante e ocupou o vazio deixado pela ausência do tronco plantado no sítio certo

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Gedson agigantou-se e tornou-se maior do que Castillo para suplantar a lesão da aposta de Rui Vitória e garantir a passagem dos encarnados ao playoff da Liga dos Campeões com um empate a uma bola.

AFP/Getty Images

À entrada para o embate decisivo com o Fenerbahçe, Rui Vitória promovia apenas uma alteração, com o chileno Castillo a assumir o lugar que havia sido ocupado por Ferreyra nas duas partidas oficiais do Benfica até então. A opção do técnico encarnado pretendia manter os turcos afastados da área encarnada com a posse de bola portuguesa a ser gerida na metade turca do terreno. O Benfica recuperava a bola, esticava longo no possante avançado, que ganhava o esférico e servia os seus companheiros. A ideia era boa, funcionava e rendeu até o golo das águias, apontado pelo miúdo Gedson, depois de um toque subtil de Castillo.

O golo surgiu aos 26 minutos; aos 34′, Castillo sairia lesionado; aos 45′, Potuk empataria o encontro e estabeleceria o 1-1 final. Em nove minutos, ficou explicada a importância do tronco plantado na frente de ataque encarnada e o que a sua ausência poderia significar em termos de dissabores. Poderia, mas não significou. Tudo porque Gedson se agigantou e ficou ainda maior do que Castillo. Não em tamanho, mas em preponderância: para além de apontar o golo, o médio de 19 anos controlou as operações ofensivas do Benfica a meio-campo e ofuscou qualquer tentativa de resposta turca, tornando-se no motor que carburava o jogo das águias.

Ficha de jogo

Fenerbahçe-Benfica, 1-1

2.ª mão da 3.ª pré-eliminatória da Liga dos Campeões

Estádio Şükrü Saraçoğlu, em Istambul

Árbitro: Slavko Vincic (Eslovénia)

Benfica: Vlachodimos; André Almeida, Rúben Dias, Jardel, Grimaldo; Fejsa, Gedson Fernandes, Pizzi; Salvio (Alfa Semedo, 72′), Cervi e Castillo (Ferreyra, 34′)

Suplentes não utilizados: Svilar, Conti, Samaris, Zivkovic e Rafa

Treinador: Rui Vitória

Fenerbahçe: Volkan Demiral; Isla (Sener Ozbayrakli, 80′), Neustadter, Skrtel, Hasan Ali; Mehmet Topal (Alici, 65′), Elmas, Guiliano; Andre Ayew, Alper Potuk e Valbuena (Soldado, 65′)

Suplentes não utilizados: Kameni, Yigithan Guveli, Mehmet Ekici e Nabil Dirar

Treinador: Phillip Cocu

Golos: Gedson (26′) e Potuk (45+1′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Elmas (22′), Vlachodimos (52′), Salvio (56′), Ruben Dias (62′), Pizzi (83′) e Sener Ozbayrakli (90′)

A formação de Rui Vitória sabia da importância de começar bem a partida e não sofrer, antes de poder desferir o golpe letal nas ambições turcas. Nas bancadas estavam cerca de 50 mil adeptos turcos, dispostos a empurrar a formação da casa rumo a uma vitória que colocaria o Fenerbahçe no playoff de acesso à fase de grupos da Liga dos Campeões e mandava os encarnados diretamente para a Liga Europa, mas, em campo, estavam onze jogadores encarnados decididos a contrariar o inferno de Istambul.

Um golo nos primeiros minutos deixaria complicada a tarefa encarnada e os comandados de Rui Vitória, cientes disso, conservavam a posse de bola, empurrando os turcos para o seu meio-campo, controlando o ímpeto inicial dos anfitriões. Os encarnados geriam a posse até ao último terço do terreno, onde procuravam o passe rápido para os flancos ou a solução mais central, que passava por Castillo.

Já depois de o Fenerbahçe deixar o primeiro aviso, na sequência de uma bola parada, Salvio colocou em sentido a formação turca, com um tiro que passou ao lado da baliza de Demirel. Não sofrer parecia mais importante para ambas as equipas do que marcar e as operações desenrolavam-se a meio-campo, com poucas aproximações às balizas. Aí, na zona central do terreno, Gedson brilhava: o jovem médio recuperava bolas, encostava nos adversários e não os deixava fugir; em posse, revelava capacidade para se desenvencilhar dos opositores, galgando metros até à área contrária.

E seria numa das cavalgadas de Gedson que os encarnados marcariam, depois de uma posse de bola gerida pela direita do ataque encarnado. Salvio serviu Castillo, que com um toque subtil de primeira deixou o médio de 19 anos na cara de Demirel. Gedson teve frieza suficiente para desviar para o fundo das redes e dar um passo de gigante rumo à próxima fase.

O Fenerbahçe precisava de marcar três golos para seguir em frente e o Benfica parecia ter o jogo controlado e a eliminatória na mão. Mas a aposta acertada de Rui Vitória em Castillo acabaria por terminar à passagem da meia hora, com o chileno a lesionar-se e a ceder o seu lugar a Ferreyra.

Com menos capacidade para segurar a bola no meio-campo ofensivo devido à perda do possante avançado chileno, os encarnados viram-se obrigados a recuar no terreno e concederam demasiado espaço ao Fenerbahçe nos últimos minutos do primeiro tempo, o que acabaria por trazer consequências: cruzamento de Ali Kaldirim e Potuk, nas alturas, a cabecear para o empate, já em tempo de compensação.

Se o golo sofrido ao cair do pano poderia deixar os encarnados inquietos no início do segundo tempo, tal efeito não se sentiu e o Benfica entrou para a etapa complementar com a fórmula inicial. A formação da Luz conseguiu impedir os turcos de terem a bola nos pés e voltou a manter o perigo afastado da sua baliza.

Sem a referência Castillo no meio dos centrais turcos, o Benfica via-se obrigado a jogar pelo chão e a procurar as diagonais de Ferreyra nas saídas para o ataque, solução que se revelava menos eficaz do que a encontrada por Rui Vitória na primeira meia hora da partida. A equipa de Cocu ia impedindo as investidas das águias, mas perante a incapacidade de criar perigo a Vlachodimos, a igualdade mantinha-se e os encarnados agradeciam.

Sem abdicar de tentar chegar ao segundo golo e matar a eliminatória, o Benfica teve nos pés de Pizzi e de Ferreyra duas boas oportunidades para ficar em vantagem, mas o português atirou fraco e ao meio da baliza, enquanto o argentino rematou forte e sem direção. Se a atacar o Benfica não se mostrava particularmente inspirado, a defender contava com Fejsa como pêndulo defensivo, ladeado por Pizzi e Gedson. E que trabalho começavam a ter os médios encarnados: já com Soldado e Alici em campo, a formação turca começava a empurrar os portugueses para o seu meio-campo e obrigava Vlachodimos a mostrar atenção, como na grande intervenção a remate de Alici (68′).

Rui Vitória percebeu o rumo que o encontro levava e lançou Alfa Semedo para o lugar de Salvio, juntando o jovem médio ao trio já existente na zona central do terreno e fechando os caminhos para a baliza de Vlachodimos. Gedson ficou mais solto e lá ia ele, qual engrenagem das águias, arrancando já depois dos 70′ como se tivesse pilhas Duracel, levando o jogo encarnado para a frente.

O Benfica jogava com a eliminatória e a dez minutos do final só um descalabro tiraria os portugueses da competição. Por esta altura, Rui Vitória voltaria a desejar ter Castillo em campo para contar com a capacidade física e jogo aéreo do chileno nos duelos com os turcos, que começavam a bombear bolas para a área encarnada.

Mas tal não se revelaria necessário, com os derradeiros instantes do encontro a serem controlados pelo Benfica, que anulava as tentativas turcas e garantia a sobrevivência no inferno amarelo e azul. A igualdade a uma bola soava a música para os ouvidos das águias, que já se viam no playoff de acesso à fase de grupos, onde vão defrontar os gregos do PAOK (eliminaram o Spartak de Moscovo).

E o apito final do esloveno Slavko Vincic trouxe a confirmação da festa portuguesa na Turquia, com os encarnados a seguirem na luta pela fase de grupos da Liga milionária, depois de uma meia hora onde a aposta de Rui Vitória em Castillo se revelou acertada, mas azarada, com o jovem Gedson a agigantar-se e a tomar as rédeas da partida até final, ocupando o vazio deixado pela ausência do tronco plantado no sítio certo.

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Laurinda Alves

Ler o que escreve Halík dá que pensar e ajuda a pôr muita coisa em perspetiva. Amanhã estará em Lisboa e vai, também ele, encher auditórios e anfiteatros. Vem para colocar o dedo em muitas feridas.  

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