Os totós loiros com pompons cor-de-rosa. A camisa branca com um nó para mostrar a barriga. A saia rodada e as meias puxadas até ao joelho. Nem é preciso fazer soar os três acordes iniciais incisivos, seguidos de um suave “oh baby, baby…”, para toda a gente saber de que música se trata e para se voltar àquele corredor escolar rodeado de cacifos depois do toque para o intervalo.

Foi no dia 23 de outubro de 1998 que foi lançado o primeiro single do primeiro álbum de Britney Spears. Ou seja, foi há 20 anos que nasceu a pop adolescente de “…Baby One More Time”, a canção que depois atravessou o ano de 1999 a anunciar a morte dos anos 90 e a carregar a profecia de um novo mundo millennial.

Ela tinha 16 anos. E, na verdade, não importa quantos anos passaram e, proporcionalmente, quantos descalabros públicos se acumularam na vida de Britney Spears desde aí. Há psicólogos que defendem que a imagem que guardamos das pessoas que fazem parte da nossa vida é sempre a imagem dos primeiros tempos. Haverá um termo científico, mas em linguagem pop isso significa que a Britney adolescente será sempre a Britney do nosso contentamento. Ou seja, é ela que continua inscrita na história da música, para o bem ou para o mal, consoante os gostos, mas que independentemente desses critérios subjetivos ganhou o estatuto de ícone.

Há uma adolescência inteira que cabe nos três minutos e 31 segundos de “…Baby One More Time”, e não é apenas aquela da rapariga que canta. É tão pouco datada que ainda há, hoje, numa era pós-Britney, em grandes cadeias retalhistas de roupa, t-shirts com imagens dela, e a roupa do videoclipe continua a ser uma das mais procuradas no Halloween dos Estados Unidos.

Afinal, o drama contido na frase “my loneliness is killing me” aplicada naquele contexto é tão universalmente adolescente que podia, ela própria, usar totós – ou fazer selfies com pestanas compridas para o Instagram. E é também por isso que este 20.º aniversário merece ser assinalado, algo que a própria Britney Spears está a fazer ao lançar a 23 de novembro um vinil (quem diria?) especial de comemoração, que já se encontra em pré-venda na Amazon.

O “hit” que esteve para não ser

Quem conhece a canção sabe que, no título, as reticências estão no lugar de uma palavra, e que o verso completo é “hit me baby one more time”. Há algum debate sobre o possível significado de “hit me” na letra, e ainda que para Britney e para Max Martin, o compositor e coprodutor, seja uma espécie de chamamento (que podia ser substituído por “call me”, liga-me, por exemplo), os responsáveis da editora acharam que era melhor retirar a palavra para evitar confusões com uma possível apologia de violência na relação.

A capa do single “…Baby One More Time”, que vendeu 500 mil cópias nos EUA no primeiro dia de venda

Mas não é apenas neste sentido que o “hit” podia ficar comprometido. O “hit” em si, ou seja, o êxito em que a música se tornou, esteve algumas vezes para não acontecer – ou pelo menos podia ter acontecido de uma forma completamente diferente. Até porque, em primeiro lugar, Max Martin já confessou que teve a ideia quando estava quase a adormecer e quase não se levantou para ir registar o rascunho da canção no gravador. Agora, ouvindo essa cassete antiga, reconhece que no fim se ouve a sua voz a dizer “yeah, it’s pretty good” antes de desligar.

Depois disso, com a música feita e convencido de que seria um sucesso de R&B, Max Martin começou por oferecê-la às TLC… que a rejeitaram. E já se sabe também que, depois de se ter comprometido com Britney Spears, ainda foi muito assediado por Simon Cowell, que a queria para a sua boyband Five, e chegou a oferecer um Mercedes 500 SL ao produtor para o fazer reconsiderar.

Imagine-se agora que, depois de toda esta saga para chegar às mãos daquela que hoje sabemos que tinha de ser a sua justa detentora, ela não a aceitava? É que, nessa altura, depois de tantos anos como Mouseketeer (o nome que se dava aos miúdos que trabalhavam no programa Mickey Mouse Club, um título ostentado também por pessoas como Christina Aguilera, Justin Timberlake ou Ryan Gosling), Britney estava convencida de que devia ser uma espécie de Sheryl Crow mais contemporânea, enquanto os seus agentes a empurravam mais para um caminho estilo Toni Braxton.

[Britney Spears e Justin Timberlake no Mickey Mouse Club:]

Felizmente para a música pop, aconteceu uma daquelas histórias de rapariga conhece canção e fica completamente apaixonada. Nesse momento, Britney Spears rendeu-se às evidências da pop. “Sabia que era uma grande canção. Era diferente e eu adorava-a, mas nunca podemos adivinhar como é que uma música vai ser recebida”, disse numa entrevista recente ao The Guardian. Só que agora, como bem se sabe, o resto é história.

Ela nasceu para nos fazer felizes. E para se fazer um ícone

Então, já se sabe que Britney Spears pegou nas malas, foi para o estúdio de Max Martin em Estocolmo, onde ficou mais de uma semana, e gravou aquela que seria a sua primeira música. E, 20 anos depois, 25 milhões de cópias desse álbum vendidas no mundo todo depois, além das 500 mil cópias do single nos EUA logo no primeiro dia, de ter atingido o n.º 1 do top em 19 países e de ter sido a música mais vendida no Reino Unido em 1999 (1,4 milhões de cópias), já se pode dizer que “…Baby One More Time” foi mais do que a sua primeira canção. Esta é a canção de Britney Spears (com “Toxic” a morder-lhe os calcanhares, há que conceder) e a canção que marcou uma nova era de música pop.

Mas nem só de vendas, ou de música, se faz um ícone. Há ainda o vídeo, claro, que neste caso é parte essencial do imaginário construído em torno de Britney Spears, o tal que ainda hoje nos faz pensar nela – apesar de fases sem cabelo ou de fases com guarda-chuvadas em carros e jornalistas – como aquela loira de totós entre a inocência e a provocação. O que é mais interessante ainda se pensarmos que o cenário escolar foi uma ideia da própria Britney, que ainda com 16 anos lutou com a equipa de produção para levar o conceito avante.

O realizador do vídeo, Nigel Dick, tinha um conceito completamente diferente, até que o puseram ao telefone com Britney, que lhe apresentou a imagem daquela adolescente num intervalo da escola. Antes disso, ela já tinha sido instruída pela editora a ter aulas de ginástica, uma missão que levou a sério e que acabou por se refletir no resultado final da gravação. Foi em cima disso tudo que a equipa acabou por trabalhar.

Britney, Justin, a ganga e um momento para a história

O cenário foi escolhido – a Venice House School, em Los Angeles, a mesma escola onde se tinha filmado Grease –, e os uniformes foram comprados um pouco à pressa num supermercado, por cerca de 19 dólares cada, para depois serem ajustados em tempo recorde pela equipa de guarda-roupa. Já o nó na camisa… foi só uma questão prática. E foi Britney que decidiu fazê-lo, ali, no momento de gravar.

E assim, sim, nasce o ícone pop. À música juntou-se o imaginário, o mesmo universo estético que David LaChapelle gravou numa capa da revista Rolling Stone em 1999, com Britney Spears deitada na sua cama de infância abraçada a um Teletubby. Uma imagem que resiste, apesar de tudo, 20 anos depois. E este “apesar de tudo” inclui aquela aparição com Justin Timberlake em ganga total nos American Music Awards de 2001, e isso não é sobreviver a pouco.