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“Raiva”: Sérgio Tréfaut filma “Seara de Vento” para lá do neorrealismo

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"Seara de Vento", de Manuel da Fonseca, livro escrito há 60 anos, chega aos cinemas expurgado da carga ideológica neorrealista e revela-se como uma grande obra sobre a condição humana.

Autor
  • Joana Emídio Marques
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Foi há poucos anos, quando filmava o documentário “Alentejo, Alentejo”, que Sérgio Tréfaut leu Seara de Vento, obra-prima de Manuel da Fonseca, publicada em 1958, na Ulisseia. Um livro há décadas arrumado no arquivo Neorrealista de onde só parece ter sobrevivido José Saramago com o seu Levantado do Chão, a reboque da fama do Nobel. Portugal já não se revê assim: miserável, a viver em casebres, num regime semi-feudal, onde a vida dos camponeses pertencia aos senhores da terra, onde se passava fome. Nem mesmo o Alentejo, cuja tragédia íntima de cada homem e de cada mulher foi remetida a gesta heroica de um povo a caminho de um amanhã cantante, parece querer para si esse romantismo leviano que faz de um homem morto um símbolo político.

No entanto, quem atravessou a alucinatória Seara de Vento, saberá que esta não é mais uma obra morta e que, em muitos aspetos, é bastante superior a Levantado do Chão. Desde logo pelos pontos de fuga que traça dentro do realismo e abre para um expressionismo germânico, para o existencialismo, para o romantismo grotesco e, como notou Urbano Tavares Rodrigues, para a tragédia grega.

Ora, é precisamente essa dimensão arquetípica do romance, publicado há 60 anos, que Sérgio Tréfaut traz para o filme “Raiva”, que esta quarta-feira se estreia nos cinemas, protagonizado por Hugo Bentes, Leonor Silveira, Isabel Ruth, Lia Gama e Rita Cabaço. 

[o trailer de “Raiva”:]

“Raiva”, tal como Seara de Vento recuperam a história verídica de António Dias Matos que ficou conhecida como a Tragédia de Beja. Aconteceu no ano de 1932, no Cantinho da Ribeira, um monte perto de Beja. Matos, agricultor, pai de sete filhos, foi acusado de roubar um latifundiário e deixou de ter quem lhe desse trabalho, acabando por se dedicar ao contrabando. Mas voltará a ser denunciado, a mulher é presa e forçada a confirmar o contrabando acabando depois por se suicidar. Quando saiu da prisão, António Dias Matos — ou Palma (como surge no romance de Manuel da Fonseca) — dirige-se a casa do proprietário e mata-o, a ele e ao filho, com tiros de caçadeira. Depois disso barrica-se em casa, é cercado pela GNR e, durante cerca de dez horas, envolvem-se num tiroteio que trouxe até reforços do exército. Matos acabou por ser abatido.

Em 1976, Manuel da Fonseca vai visitar o Cantinho da Ribeira e a casa de Matos, cujas paredes arruinadas ainda têm visíveis os buracos das balas. Na altura o escritor estava a trabalhar numa adaptação do livro ao cinema (que nunca chegou a acontecer) e entrevista, para a RTP, um dos filhos do homem que o jornais declararam um assassino (o Diário de Notícias fez mesmo uma recriação fotográfica da emboscada da GNR a António Matos), mas cujo funeral foi seguido por dezenas que já o consideravam um mártir. Essa conversa pode ser vista aqui.

Filmada num implacável preto e branco, a paisagem alucinatória, pesada e asfixiante de Seara de Vento ganha aqui contornos mais definidos, os acontecimentos têm uma força própria que não é corroborada por vozes, mas por silêncios, pelo omnipresente uivar do vento, pelo germinar das sombras e pelos vagidos sem nexo de Bento (Kaio César), o filho autista de Palma (Hugo Bentes) — um homem que só quer trabalhar, refazer o forno, cozer pão — e de Júlia (Leonor Silveira), mulher silenciosa, rondada pela loucura, submissa como que carregando uma culpa milenar. Mariana (Rita Cabaço) a filha mais velha, a única que trabalha e se junta aos camponeses para enfrentar os patrões, e Amanda (Isabel Ruth), mãe de Júlia, uma verdadeira erínia, amaldiçoando tudo e todos, pressagiando um destino maligno, insubmissa, descrente.

“Este filme quer, desde logo, demarcar-se das imagens hiper-coloridas das telenovelas, dos telefilmes, da prevalência do naturalismo e afirmar a existência de outros mundos, outras realidades que não passam ‘pelo que está nada moda'”, diz Tréfaut. Em “Raiva” sobressai o que no romance era menos óbvio: o irracional, o absurdo, a existência de forças ocultas que se opõem à razão, à ciência, ao progresso. Dialogando com cineastas como Aleksandr Dovjenko, Bela Tarr ou Rossellini ou com a obra Vidas Secas do brasileiro Graciliano Ramos, Tréfaut retira as coordenadas espaciais da história de Manuel da Fonseca para fazer dela uma parábola da condição humana: “Esta história podia ter acontecido em qualquer tempo, em qualquer país, em qualquer regime”, diz o realizador ao Observador.

Bento, a criança autista, é uma das personagens mais estranhas do Neorrealismo português mas também a que desde logo redimensiona o livro de Manuel Da Fonseca

Optando por deixar falar a força expressiva dos corpos na paisagem desolada, dos rostos que se assemelham já às pedras, calcificados na sua condição de animal acossado, inexoravelmente à espera de ser caçado e, ainda assim, nunca renunciando ao que lhe resta de humano: o reconhecimento da sua dignidade humana. Afinal é mais essa afirmação de dignidade do que o desejo de justiça que move Palma e é ela que o empurra para o fim trágico.

 “Assumi fazer um filme fora de moda, a partir de um livro fora de moda. Fala apenas da impossibilidade de sair de um buraco: falta de dinheiro, falta de comida, falta de casa, falta de estudos. A impossibilidade de sair de um buraco existe hoje como nos anos 50 e nos anos 30. Não faz falta fazer paralelos. Ao adaptar ‘Seara de Vento’, tentei limpar os diálogos de todas as explicações, de toda a cartilha ideológica. Aqui, os mortos são apenas mortos, não são heróis nem símbolos. Creio que o espectador tem de pensar sem a ajuda de um padre, sem a tutoria de manuais políticos ou a facilidade dos violinos manipuladores para decidir o que sente. Ficou um filme silencioso, em que as caras e os corpos dizem mais do que os discursos”, afirma Tréfaut.

“Raiva” é tudo menos o Neorrealismo panfletário com o mundo dividido em opressores e oprimidos e salvo pela força do coletivo. É antes, uma obra sobre a luta pela sobrevivência, sobre a fome, a morte e a vida daqueles que não podem lutar pelo poder porque as forças que os oprimem não são tanto sociais ou políticas, são as forças que vêm de onde não se sabe, de onde não há palavras que expliquem, como o autismo de Bento, a loucura a raiar nos olhos de Júlia, a maldade de Amanda Carrusca, o suicídio do pai de Palma, a injustiça que não é tanto fruto do poder como é do mal que cada um carrega em si, a aridez da terra.

Se, em muitos aspetos, Seara de Vento se aproxima do grotesco de Húmus de Raul Brandão ou de Ceifeiros de Fialho de Almeida, também tem presente a paixão do escritor pelo cinema. “Este livro tem tudo”, diz o cineasta, “tem western, tem a força expressiva do cinema mudo, é uma história que, na sua génese, é anterior à luta de classes no Alentejo, mesmo que a personagem da Mariana remeta para essa luta de classes, esta é, sobretudo, a história de um homem solitário, aliás todos são solitários ali. Não há qualquer força que possa impelir estas pessoas a um confronto organizado. Elas têm fome, por isso até cheguei a pensar em chamar a este filme ‘O Pão’ mas depois pareceu-me muito realismo soviético e eu não acredito em sistemas salvíficos, nem na romantização do ‘povo’ que acho muito perigosa. Expurguei toda a vontade de explicar, de encontrar razões”.

Filmar contra o esquecimento

Tal como no romance, Amanda Carrusca, no corpo de Isabel Ruth, volta a ter uma força vinda de fora do tempo

Portugal tem hoje 2 milhões de pobres, mas a pobreza está encapotada, escondida em call centers e reality shows na televisão. E sempre a mesma solidão, a mesma incapacidade de romper o ciclo vicioso da pobreza. Esta realidade não desapareceu apenas mudou de face. Sérgio Tréfaut diz que “filmar assim é um ato de resistência e um dever para com todos os que viveram assim, para que as suas vidas e as suas histórias não sejam totalmente apagadas”.

No fim do livro Amanda Carrusca repete o grito da neta Mariana: “Um homem só não vale nada”, frase que se tonou uma das mais citadas da obra de Manuel da Fonseca (que foi também poeta, contista e jornalista). No filme, essa cena não existe porque nenhum homem jamais se libertou da sua solidão ontológica. Mas, também por isso, ele pode, por empatia, por compaixão, por amor, colocar-se emotivamente no lugar do outro e assim superar essa solidão.

Também ele filho de alentejanos (e sobrinho de Urbano Tavares Rodrigues), Sérgio tem procurado guardar essa cultura em dois filmes que fez sobre o Cante Alentejano. É de um desses filmes, “Alentejo, Alentejo” que vem Hugo Bentes, cantor o Grupo Coral de Serpa e hoje no grupo os Alentejanos, o protagonista deste “Raiva”. Hugo tem aqui a sua primeira experiência como ator. “O Hugo tem no rosto um orgulho territorial, que não é arrogante, que é desafiante mas humilde e que, face à câmara, tem a força de um Marlon Brando”, afirma Tréfaut, que chegou a pensar primeiro no castelhano Javier Bardem para assumir a personagem de Palma.

Do elenco fazem ainda parte, Lia Gama, Luís Miguel Cintra, Rogério Samora, Diogo Dória, Herman José e Catarina Wallenstein.

Hugo Bentes, cantor num grupo de cante alentejano de Serpa, tem aqui a sua estreia como ator

“Raiva” já fez uma série de ante-estreias em várias cidades do Alentejo, entre elas Santiago do Cacém, cidade Natal de Manuel da Fonseca (1911-1993), sessões que, segundo o realizador, foram sempre muito comovidas e, a versão despojada e até algo hermética, da obra de Fonseca foi bastante bem aceite. Esta quarta-feira, 31 de outubro, o filme estreia em Lisboa, Porto, Braga, Coimbra e Évora e quinta, dia 1, no cinema Ideal, em Lisboa. Nas próximas semanas haverá novas sessões em outras cidades do país em salas que serão posteriormente anunciadas.

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