O Teatro Portalegrense está à venda por 350 mil euros na plataforma de vendas online OLX. O edifício foi colocado no site no dia 10 de fevereiro, tendo o anúncio já recebido 3700 visitas. A estranheza de tal iniciativa aumenta se olharmos para a descrição presente no anúncio: o teatro parece estar em bom estado de conservação, tendo sido restaurado e beneficiando de um desconto anual de IMI de 30% por se situar no centro histórico da cidade de Portalegre. No anúncio é mencionado igualmente um projeto de remodelação financiado em 80% pela Câmara Municipal, mas a instituição já negou, dizendo ao jornal Público que “não existem condições para a autarquia assumir o ónus de reabilitar o imóvel”.

A fachada exterior do edifício que deu, em tempos, corpo ao Teatro Portalegrense

É preciso recuar até 14 de julho de 1854 para chegar ao lançamento da primeira pedra para a construção do edifício. Foi o primeiro teatro a surgir na cidade e o sexto em todo o país. Seguiu o espírito da época, muito influenciado pela política de Almeida Garrett, que pretendia que todas as cidades importantes do país tivessem uma sala de espetáculos digna. Seria mesmo o próprio Almeida Garrett a “inaugurar” o edifício: o seu drama histórico “O Alfageme de Santarém” abria assim a sala ao público no dia 20 de junho de 1858.

Ana de OliveiraActriz amadora Viúva de António José de Oliveira, também amador dramático, em Aveiro e em casa de sua…

Posted by Caras de Portalegre on Thursday, May 11, 2017

Em 1886, surgem as primeiras obras de beneficiação do espaço, vindas pelo interesse da população, que auxiliou na remodelação. Ainda que tenham sido eficazes, permitindo à sala ganhar outro brilho e mais peças, o seu desgaste foi rápido. Tanto que, nos anos 40 do século XX, o Teatro Portalegrense já se encontrava em muito mau estado de conservação, levando a que Inspeção-Geral dos Espetáculos impusesse grandes limitações ao seu funcionamento. O espetáculo continuou por mais alguns anos e chegou até a receber nomes importantes do teatro português: em 1985, por exemplo, a lendária Amélia Rey Colaço fez a sua última aparição em cena no espectáculo El-Rei Sebastião, de José Régio, naquela que foi uma homenagem ao dramaturgo, falecido 16 anos antes.

Mas o Teatro Portalegrense não aguentaria muito mais. Luís Soares Carneiro escreveu, em 2002, num estudo sobre a construção de Teatro Portugueses de Raiz Italiana, que “as asnas do palco e do teto da plateia ameaçavam ruína (…), as extremidades de todas as madeiras redondas do telhado que olha para o lado oriental estavam profundamente atacadas pela humidade (…), o telhado propriamente dito achava-se em péssimo estado e no palco chovia constantemente”.

Pormenor da cobertura frágil do telhado do Teatro Portalegrense em 2015

Entretanto, e sem receber espetáculos, o edifício recebeu outros usos. Foi casa do Grupo Desportivo Portalegrense, templo da Igreja Universal do Reino de Deus ou até espaço utilizado para um centro de estudos e de atividades de tempos livres, em 2014. Nesse mesmo ano, o edifício podia encontrar-se à venda por uma agência imobiliária, pelo valor de 300 mil euros, menos 50 mil do que aquilo que se pede agora no anúncio do OLX. Ainda noutra página, de uma imobiliária de imóveis rurais, pode ver-se o edifício à venda por 275 mil euros. A estrutura está sem proteção legal desde 2009, depois de um despacho de encerramento do Instituto de Gestão do Património Arquitetónico e Arqueológico, por não ter valor nacional.

O Observador tentou contactar o proprietário que colocou à venda o imóvel, mas não obteve resposta.