Escultura

Indignado com Leonor Antunes, Nuno Melo pede afastamento da artista da Bienal de Veneza

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Dirigente do CDS não gostou de saber que a artista "não aceitaria representar" o país se governo fosse de direita. Barreto Xavier ficou "perplexo". Joana Vasconcelos defende "imagem internacional".

Leonor Antunes falou na quarta-feira de manhã, em Lisboa, do projeto expositivo que levará em maio a Veneza

Reinaldo Rodrigues/Global Imagens

Autor
  • Bruno Horta

O eurodeputado do CDS Nuno Melo ficou chocado ao saber que Leonor Antunes “não aceitaria” representar Portugal na Bienal de Arte de Veneza “se estivesse o PSD ou o CDS no governo”, e depois de ter publicado um “post” indignado na rede social Facebook, disse ao Observador que “é exigível neste momento que essa senhora deixe de ser a representante de Portugal” no certame e que “seja substituída por outra pessoa, de entre os muitíssimos artistas de grande qualidade que temos”. “Não foi só uma opinião, porque a artista não representa o PS, representa o Estado português, e não percebe o significado da nossa bandeira e dos nossos símbolos”, acrescentou.

O mínimo que se tem de exigir e já, é que esta senhora não possa representar 10 milhões de portugueses com diferentes…

Posted by Nuno Melo on Wednesday, March 13, 2019

Por sua vez, Jorge Barreto Xavier, antigo secretário de Estado da Cultura do governo de coligação PSD-CDS, disse ao Observador que a opinião de Leonor Antunes lhe causou “perplexidade”, considerando tratar-se de “uma declaração um bocado descabida que já fará parte do ambiente pré-eleitoral”.

Também ouvida, a artista Joana Vasconcelos, que representou Portugal na Bienal de 2013 – e neste momento está precisamente em Veneza, para estudar o espaço onde irá apresentar-se em breve – disse que “todas as pessoas têm direito à sua opinião, é normal e natural”, mas os artistas, “tendo opiniões políticas fortes, podem separar o que é o papel pessoal do papel profissional.”

“Eu não aceitaria”

Leonor Antunes começou por dizer nesta quarta-feira de manhã, em conferência de imprensa no Teatro Nacional de São Carlos, durante a apresentação do projeto expositivo que levará em maio à mais respeitada bienal de arte do mundo, que “a situação no mundo é bastante triste, com países que se estão a tornar regimes fascistas e populistas. Se tivéssemos um regime diferente, de direita, eu nunca teria aceitado o convite.”

Minutos depois, em resposta a uma pergunta do Observador sobre se se referia também a um governo da direita partidária portuguesa, e se nesse contexto aceitaria representar Portugal, Leonor Antunes acrescentou:

“A situação que vivemos é muito grave. Vivo em Berlim, o governo não é assim tão desinteressante, mas a extrema-direita está no parlamento e era uma voz até há muito pouco tempo proibida, digamos. Sou uma estrangeira que vive em Berlim e não são esses os valores que quero dar à minha filha. Se estivesse o PSD ou o CDS no governo, eu não aceitaria. Embora sejam partidos democráticos, defendem valores em que não acredito. Defendo os valores da democracia, defendo os valores de esquerda. Se estivesse um governo de direita, não teria aceitado. Estou a apresentar o meu trabalho, e represento-me a mim própria, mas também represento o país, o artista também está a ser representado, e defendo o governo que existe.”

Para Barreto Xavier, trata-se de “uma excelente artista” que “revela um espírito um pouco ingénuo em relação ao que é a política, no sentido de confundir o que é uma representação de Estado com o que são as opções partidárias”. “Quando começamos a confundir partidos e Estado, corremos o risco de não sabermos, nomeadamente lá fora, se estamos a representar Portugal ou o partido”, disse.

O ex-responsável da Cultura no Governo liderado por Pedro Passos Coelho e Paulo Portas, entre 2011 e 2015, sublinhou que Leonor Antunes “é uma excelente artista, com um percurso longo”, e lembrou que ela foi apoiada pelo Clube Português de Artes e Ideias, que Barreto Xavier fundou e de que foi dirigente. “Não deixa de ser uma grande artista, mas sai diminuída com estas declarações”, notou.

Segundo Barreto Xavier, as representações nacionais na Bienal de Veneza, cuja 58ª edição se inicia a 10 de maio, são iminentemente representações do Estado português. “Existe uma proposta feita pelo Ministério da Cultura e articulada com o Ministério dos Negócios Estrangeiros. Os artistas não estão lá numa situação que não seja a de mostrar o seu trabalho e os Estados orgulham-se muito de os apresentar.”

Em tom irónico, Nuno Melo sugeriu que Leonor Antunes “deveria, querendo, expor as suas obras no Largo do Rato ou eventualmente na Assembleia da República com o patrocínio do doutor Ferro Rodrigues”, referindo-se à sede nacional do PS, em Lisboa, e ao facto de o presidente da Assembleia da República ser militante e ex-líder do partido do governo. “Está em causa uma representação portuguesa, não uma representação do PS”, sublinhou o eurodeputado, que é também um dos vice-presidente do CDS e cabeça-de-lista às eleições europeias.

Questionado sobre se os centristas tencionam tomar uma iniciativa formal de protesto, Nuno Melo respondeu que “a iniciativa é esta declaração pública dirigida à tutela”.

Portugal tem mais de 11 milhões de pessoas de diferentes partidos, de diferente raças e credos, muitas delas votantes ou simpatizantes do CDS e do PSD, que são, para além do mais, contribuintes que trabalham para pagar as despesas relativas à participação desta senhora na Bienal”, afirmou Nuno Melo. “Isto começa a revelar um certo paradigma: quem é do PS é escolhido, quem não é, não pode ser validado pela capacidade e pela qualidade do trabalho que se faz. Começa a custar respirar democracia neste país.”

Joana Vasconcelos classificou Leonor Antunes como “uma grande artista”, e disse que, para si, “aceitar ou não representar Portugal em Veneza é em função das condições dadas aos artistas para o fazerem”. “Não tem que ver com um partido, com a vida interna, mas com a imagem internacional, que tem de ser projetada o melhor possível”, sustentou.

O Observador contactou Gabriela Canavilhas, ex-ministra da Cultura do segundo governo socialista de José Sócrates, e João Soares, ex-ministro da Cultura de António Costa. Ambos se mostraram surpreendidos à partida com a opinião de Leonor Antunes, mas preferiram não prestar declarações, por não a conhecerem na íntegra. O Ministério da Cultura e a Direção-Geral das Artes não quiseram comentar.

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