Cavaco Silva diz não compreender que o ritmo de crescimento económico de países do leste europeu seja superior ao de Portugal e, a manter-se, diz que o país dá passos para que seja “a lanterna vermelha dos 19 países do euro”. Em entrevista à Rádio Renascença, o antigo primeiro-ministro e ex-Presidente da República aponta as várias causas para que Portugal esteja a ser ultrapassado por países do “nosso pelotão”, como “opções erradas” no domínio fiscal e da despesa pública, a “baixa produtividade” portuguesa e a “falta de investimento”.

Para além destes, Cavaco sublinha também o envelhecimento da população europeia e da portuguesa, em concreto, para explicar o facto de Portugal estar cada vez mais próximo de países como a Estónia, Letónia, Lituânia, Eslovénia, Eslováquia e Grécia.

No final de uma semana em que um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos apontou para a necessidade de aumentar a idade de reforma para evitar uma quebra no sistema, Cavaco Silva vai mais longe e equaciona um aumento drástico para “não muito longe dos 80 anos”, perto de 2050.

“Não me surpreende a conclusão do estudo” diz o antigo Presidente, referindo o alargamento da esperança de vida.  “Isso vai alterar totalmente o percurso de vida de uma pessoa, que neste momento passa por uma fase de educação, uma fase de trabalho e uma fase de reforma. No futuro, existirão mais ciclos de actividade na vida. A previsão é de que, daqui a não muitos anos, mas com certeza depois de 2030, as reformas passem a situar-se e um nível bastante superior aos 65 anos que até aqui se conheciam. Fala-se mesmo que, perto de 2050, as reformas passem a situar-se não muito longe dos 80 anos.”

A única solução, diz, é uma política “muito forte de apoio à natalidade” e não tanto compensar a redução do número de população ativa com a entrada de emigrantes. “Não acredito que os refugiados que estão a chegar à Europa possam resolver o problema de Portugal, não só porque não estamos numa rota dos emigrantes, mas também porque muitos, quando chegam aqui, tentam depois escapar-se para países como a Alemanha, a França ou os países nórdicos”, diz Cavaco Silva à Renascença.

A propósito das eleições europeias, o tema da entrevista, o antigo Presidente da República também focou a saída do Reino Unido da União Europeia. Cavaco Silva admite que “preferia que o Reino Unido continuasse a ser um membro de pleno direito”, mas diz ter assistido a “algumas atitudes britânicas” na última década que conduziram a este desfecho. O que o surpreende é o “caos político”, instalado no Parlamento britânico. “Tinha um enorme gosto no funcionamento daquela democracia e agora é uma desilusão total”, desabafa.

Ainda assim, Cavaco Silva não acredita que Portugal seja dos países mais afetados pelo Brexit. Destaca o valor das exportações portuguesas para o Reino Unido (3%) e desvaloriza os impactos de uma saída. Para Cavaco, Portugal não está na situação da Holanda, Bélgica ou Irlanda, países que sofrerão um “choque assimétrico” com uma saída do Reino Unido sem acordo.

Mesmo com a saída do Reino Unido, Cavaco Silva entende que a União Europeia continuará a ser “um dos maiores blocos económicos do mundo” e o euro “uma moeda de referência internacional”. São estas as garantias que dá quando é questionado sobre a preponderância que os Estados Unidos e a China podem ganhar com a saída dos britânicos e o eventual enfraquecimento da UE. A China é uma “grande potência global”, mas Cavaco tem a convicção de que os chineses querem “uma Europa forte” para “mitigar um pouco a influência dos Estados Unidos”. “Algumas atitudes” da administração de Donald Trump fazem com que o ex-primeiro-ministro entenda que a administração americana esteja “do lado errado” e a União Europeia “do lado certo”.

O legado do euro, a ascensão da extrema-direita

“O euro é o ativo europeu mais precioso que a minha geração deixa aos jovens”. É este o sentimento de Cavaco Silva sobre as vantagens da moeda única para Portugal, que “deve estar sempre na linha da frente do aprofundamento” da zona euro. O antigo Presidente pede aos jovens que “aproveitem bem todos os benefícios que resultam de terem uma moeda de referência internacional”.

Na conversa com a Renascença, Cavaco Silva abordou também o crescimento de partidos de extrema-direita e contra a União Europeia. Na opinião do ex- Chefe de Estado, tal deve-se aos “fluxos migratórios” de refugiados da guerra da Síria, Iraque e Líbia. “Estes partidos procuraram despertar nos seus cidadãos ódios em relação aos emigrantes, sentimentos nacionalistas ou eurocépticos e incutir-lhes medo”.

Em Portugal, Cavaco não vê grande espaço para movimentos nacionalistas. Se tal acontecer, isso dever-se-à à incapacidade dos partidos europeístas em demonstrar que Portugal “tem sido um dos grandes beneficiados” com a presença na União Europeia. “Não sei se em Portugal vai surgir uma sra. Inês Arrimadas ou um líder do tipo do dos Cidadãos”, questiona.

Familygate? “Não sou comentador de televisão”

Apesar do teor da entrevista à Renascença se centrar na União Europeia e assuntos adjacentes, houve espaço para um dos temas mais atuais na política em Portugal. Quando foram tornadas públicas as relações familiares no atual Governo, o antigo Presidente disse que “a prática de jobs for the boys” era prejudicial e “indecorosa”, mas também no Governo de Cavaco houve familiares nomeados.

Questionado sobre esta polémica, Cavaco Silva contornou-o, dizendo que não é “comentador televisivo” que é “um dos grandes males” em Portugal. Sobre uma eventual legislação, considera não estar “em condições” de se pronunciar e também não comenta as relações familiares do Governo que integrou. “Já dei a explicação que devia dar e estou naquela posição em que, quem quer ou tem capacidade para aceitar essas minhas explicações o faça. A mim, já não me perturba nada: estou fora da vida política ativa“, diz Cavaco Silva à Renascença