Fórmula 1

Morreu Niki Lauda, tricampeão mundial de Fórmula 1, aos 70 anos

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O piloto austríaco tinha 70 anos e foi submetido a um transplante de pulmão no passado verão. Niki Lauda, que atualmente era diretor não executivo da Mercedes, foi campeão mundial de F1 três vezes.

O austríaco sofreu um grave acidente em outubro de 1976

AFP/Getty Images

 

Niki Lauda, histórico piloto de Fórmula 1 que foi campeão mundial em 1975, 1977 e 1984, morreu esta segunda-feira, aos 70 anos. A notícia foi avançada pelo jornal Die Presse e foi revelada pela própria família do austríaco, que tinha realizado um transplante de pulmão no passado verão e que passou várias semanas internado no hospital já no início deste ano, devido a uma pneumonia.

“É com profundo pesar que anunciamos que nosso querido Niki morreu de forma pacífica ao lado dos seus familiares. As suas conquistas únicas como atleta e empreendedor são e continuarão inesquecíveis, o seu incansável entusiasmo pela ação, a sua franqueza e a sua coragem permanecerão como um modelo e uma referência para todos nós. Ele era um marido, pai e avô amoroso e carinhoso longe do público e sentiremos a sua falta”, podia ler-se no comunicado enviado pela família do piloto austríaco.

Niki Lauda começou a carreira em 1968, com apenas 19 anos, e destacou-se primeiro na Fórmula 2 e 3 antes de saltar para a modalidade rainha do automobilismo. Estreou-se com a modesta March e foi campeão mundial pela primeira vez em 1975, no segundo ano na Ferrari, voltando a conquistar o título mundial apenas dois anos depois, ainda na scuderia italiana e depois de sofrer um grave acidente no Grande Prémio do Japão de 1976. Viveu uma rivalidade saudável com James Hunt, de quem era amigo nas garagens, e venceu o último título mundial da carreira em 1984, o penúltimo em que competiu, já ao serviço da McLaren.

Passou vários anos afastado da modalidade depois de terminar a carreira, ocupado principalmente com a gestão da empresa de aviação que fundou, e só regressou às pistas e ao automobilismo no final dos anos 90, quando foi convidado pela Ferrari para ocupar o cargo de consultor técnico extraordinário. Mudou-se para a Jaguar em 2001, enquanto diretor técnico, mas acabou por demitir-se apenas dois anos depois devido aos resultados sofríveis da equipa. Em setembro de 2012, depois de quase dez anos fora da Fórmula 1, aceitou o convite da Mercedes AMG Petronas para ser presidente não executivo da franquia, cargo que ocupou até morrer. Foi parte importante das negociações com a McLaren que levaram Lewis Hamilton para a Mercedes e teve um papel fulcral nos cinco títulos de construtores consecutivos que a equipa conquistou nos últimos anos — a par dos outros cinco consecutivos na classificação de pilotos, entre quatro de Hamilton e outro de Nico Rosberg.

O terrível acidente de Nurburgring em 1976

O campeonato de 1976 foi um dos mais dramáticos e marcantes da história da Fórmula 1, marcada pelo duelo entre Niki Lauda e James Hunt, o yin e o yang da modalidade, como eram retratados na altura. Lauda era o campeão em título e dominava o campeonato ao volante de um Ferrari tendo cavado uma distância confortável nas primeiras corridas pelo que era, a meio da temporada, o grande favorito à vitória. Até que se disputou o fatídico Grande Prémio da Alemanha.

Nessa época o GP germânico disputava-se no histórico e mítico circuito de Nurburgring, famoso por ser o mais longo de todos — tinha mais de 22 quilómetros de extensão — e por ter 17o curvas desenhadas por entre as montanhas Eifel. Logo na segunda volta Lauda saiu de pista e embateu violentamente nos rails de protecção. O Ferrari que conduzia incendiou-se instantaneamente e o piloto austríaco ficou preso dentro do monolugar.

Os pilotos Arturo Merzario, Brett Lunger, Guy Edwards e Harald Ertl conseguiram retirarar Lauda do carro – mas não antes de o austríaco sofrer queimaduras graves na cabeça e nos braços e de inalar gases tóxicos que lhe contaminaram os pulmões e a corrente sanguínea. O piloto saiu do Ferrari consciente e chegou a conseguir andar, mas entrou em coma poucos minutos depois. Perdeu a orelha esquerda, grande parte do cabelo, as sobrancelhas, as pestanas e as pálpebras. Quando acordou, dias depois, e foi confrontado com a inevitabilidade de várias cirurgias plásticas de reconstrução, decidiu que de forma imediata só iria reconstruir as pálpebras e ficar no hospital o tempo necessário para que estas funcionassem de forma quase normal.

Para espanto do mundo da Fórmula 1 e do desporto, Niki Lauda só falhou duas corridas. Regressou às pistas seis semanas depois do acidente, no início de setembro, para o Grande Prémio de Itália. Conquistou um inacreditável quarto lugar e confessou mais tarde que estava “absolutamente petrificado”. Quando retirou o capacete, no final do GP, as compressas ensanguentadas que ainda tinha na cabeça foram a imagem de um homem que colocava a modalidade à frente da própria segurança. James Hunt, ao volante do McLaren-Ford, tinha recuperado terreno nas duas corridas em que Lauda não participou e voltou a fazê-lo nas duas que se seguiram ao GP de Itália, onde o austríaco da Ferrari foi apenas oitavo e terceiro.

O GP do Japão de 1976 (e a coragem de uma desistência que custou um campeonato)

Foi assim que chegámos a 24 de outubro de 1976, dia do Grande Prémio do Japão, 16.º dos 16 da temporada. Naquele dia, no final do GP, ele ou James Hunt seriam coroados campeões do mundo. As contas eram simples: Lauda era campeão caso ficasse à frente de Hunt; Hunt era campeão se ganhasse. À chegada àquele dia do Grande Prémio do Japão, Lauda e Hunt estavam separados por apenas três pontos.

Chovia torrencialmente. O circuito do Monte Fuji estava inundado e todos os pilotos estavam reticentes quanto à realização da corrida. “Estávamos encharcados. Era uma partida às cegas. A visibilidade, no máximo, era de 10%. A aquaplanagem estava como eu nunca tinha visto e havia autênticos rios ao longo da pista. Podíamos não estar a fazer nada errado e de repente alguém à nossa frente comete um erro, nós não víamos e íamos contra ele completamente cegos. Podíamos matar-nos”, recordou mais tarde Mario Andretti, o piloto da Lotus que tinha conquistado a pole-position e ia naquele dia sair do primeiro lugar da grelha. Em segundo, James Hunt; em terceiro, Niki Lauda. Abrigados da chuva dentro das garagens, os pilotos foram conferenciando e todos tinham a mesma opinião: era impossível correr em segurança sob aquelas condições. Lauda e Hunt, que mantinham uma amizade à margem da rivalidade alimentada pela comunicação social, eram os líderes e porta-vozes incontestados do pelotão. Mas não podiam ser mais diferentes.

Lauda ficou com marcas visíveis do acidente e com graves problemas respiratórios

Naquele ano, meses antes do acidente, Niki Lauda tinha casado com a primeira mulher, Marlene Knaus. James Hunt permanecia solteiro e mulherengo, protagonista das histórias mais mirabolantes e dono do lema sexo: o pequeno almoço dos campeões, que ostentava orgulhosamente no casaco que vestia antes das corridas. O inglês transportava a rebeldia para a pista, com uma condução mais irresponsável e arriscada, um pouco à imagem daquilo que Max Verstappen faz hoje em dia, enquanto que o austríaco era cauteloso e calculista, tal como Lewis Hamilton o é agora. À parte isso, eram amigos e os pilotos mais influentes de toda a grelha.

Nas garagens, os 26 pilotos em prova acordaram em confrontar a organização do Grande Prémio e pedir um adiamento de 30 minutos na hora da partida. O pedido foi-lhes recusado. Recorreram então a Bernie Ecclestone, atual número 1 do Formula One Group e na altura dono da Brabham-Alfa Romeo e promotor do GP do Japão. Ecclestone recusou o adiamento, recusou o cancelamento da prova mas assumiu que as condições não permitiam a realização da corrida em segurança. Então propôs um acordo: todos os pilotos arrancavam, faziam uma volta e desistiam. Desta forma, a ideia de unidade e coerência nunca seria contrariada e, mais importante ainda, Bernie Ecclestone não perdia o dinheiro das emissões televisivas porque a corrida tinha começado a tempo e horas.

Vermelho, verde, bandeira de xadrez e a corrida começou. No final da primeira volta, Emerson Fittipaldi parou, Carlos Pace parou e Niki Lauda parou. Todos os outros, incluindo James Hunt, ignoraram o acordo apalavrado horas antes e continuaram em pista. Ao sair do carro, e contra tudo aquilo que tinha defendido ao longo da carreira, Lauda suspirou: “A minha vida vale mais do que um campeonato”. Enzo Ferrari – dono da marca italiana e provavelmente o único que não tinha sido avisado de que Lauda ia parar – ficou furioso. A equipa aconselhou o piloto a mentir, a dizer que o carro tinha tido uma avaria mecânica, mas Niki Lauda disse a verdade e ficou nas garagens durante algumas voltas a assistir à corrida. Quando as condições meteorológicas melhoraram e a chuva abrandou, pediu que lhe chamassem um táxi para o aeroporto.

Com James Hunt, com quem viveu uma rivalidade saudável dentro e fora de pista

No táxi, pediu ao taxista que ouvisse na rádio a transmissão da corrida e que lhe dissesse no fim quem tinha ficado em primeiro. Na última volta, quando tudo seria decidido, entraram num túnel e deixaram de conseguir ouvir a emissão. Chegados ao aeroporto, Lauda perguntou ao taxista quem tinha vencido. “Disse-me que não sabia, que não tinha conseguido ouvir. Quando saí do táxi, à entrada do aeroporto, estava lá um japonês todo vestido com coisas da Ferrari, um fã. Quando vi a cara dele, percebi”. James Hunt tinha ficado em terceiro lugar, atrás de Mario Andretti e Patrick Depailler, e tinha conquistado os quatro pontos necessários para ter mais um do que Niki Lauda na classificação geral.

“Lamento muito pelo Niki. Lamento muito que a corrida tenha acontecido sob circunstâncias tão ridículas e que as condições tenham sido tão perigosas e apoio totalmente a decisão do Niki. Depois de um acidente como o que teve, o que é que ele podia fazer? Honestamente, eu queria ganhar o campeonato e acho que mereci. Mas também acho que o Niki merecia. E só queria conseguir partilhá-lo”, disse James Hunt já depois de levantar o troféu de campeão do mundo de Fórmula 1, o primeiro e único que conquistou.

Niki Lauda foi castigado por Enzo Ferrari e perdeu a posição de piloto número 1 da equipa no ano seguinte. Ainda assim, e imune a todas as críticas, o austríaco voltou a sagrar-se campeão do mundo em 1977, antes de abandonar a scuderia italiana para se juntar à Brabham-Alfa Romeo. Foi campeão mais uma vez, em 1984, um ano antes de se retirar definitivamente. James Hunt retirou-se em 1979 e morreu em 1993, com apenas 45 anos, de ataque cardíaco.

“Se pudesse voltar a correr e escolher uma era, era hoje. Ganham dez vezes mais e não há risco. Honestamente, é mais seguro”, disse Niki Lauda ao The Guardian em 2016, no 40.º aniversário daquele Grande Prémio do Japão onde fez o que nunca tinha feito: colocou a segurança antes da meta.

As reações à “perda devastadora” de Niki Lauda

Através da página oficial no Twitter a Fórmula 1 já reagiu à “perda devastadora” do campeão mundial. “Os pensamentos de todos os elementos da Fórmula 1 estão com os amigos e família” de Niki Lauda.

A equipa pela qual foi campeão pela última vez, a Mclaren, e da qual foi Team Manager até morrer, também recorreu ao Twitter para prestar uma última homenagem a Lauda: “Toda a Mclaren está profundamente triste por saber que o nosso amigo, colega e campeão mundial de 1984, partiu hoje. Ele permanecerá para sempre nos nossos corações”.

“Hoje é um dia triste para a Fórmula 1”, começou por escrever a Ferrari no Twitter. A equipa que ajudou Lauda a conquistar os dois primeiros títulos mundiais escreveu ainda: “A grande família Ferrari recebeu com profunda tristeza a notícia da morte do nosso amigo Niki Lauda, ​​tricampeão mundial, duas com a Ferrari (1975-1977). Vai ficar para sempre nos nossos corações e nos corações de todos os fãs da Ferrari.

Nico Rosberg, também ele campeão mundial em Fórmula 1, também recorreu ao Twitter para deixar uma mensagem em homenagem ao “querido Niki”: “A tua paixão, o espírito de luta, de nunca desistires, e a tua paciência com os mais novos. Eu e todos os 100 milhões de fãs em todo o mundo que tão fortemente inspiraste estão a pensar em ti e na tua família e todos desejamos que descanses em paz”.

O presidente da Federação Internacional do Automóvel, Jean Todt, recordou Niki Lauda como “um herói do desporto automóvel”, confessando que ele próprio se sentiu inspirado pelo campeão de Fórmula 1.

O presidente da equipa da Mercedes na Fórmula 1 também fala em Lauda como um “herói”: “Não só acabámos de perder um herói que protagonizou o regresso mais notável já visto, mas também um homem que trouxe clareza e franqueza preciosas para a Fórmula 1 moderna. Ele fará muita falta, pois era a voz do bom senso”. Toto Wolff diz mesmo que a Mercedes perdeu “um farol”.

Um dos sucessores de Niki Lauda na McLaren, Carlos Sainz, partilhou com os seguidores uma foto do antigo campeão de Fórmula 1, numa homenagem que recorda “um grande ser humano”.

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