Este domingo, no Autódromo Hermanos Rodríguez, na Cidade do México, Lewis Hamilton só precisa de ser sétimo para conquistar o quinto campeonato do mundo de Fórmula 1 da carreira. Na verdade, se Sebastian Vettel não vencer o Grande Prémio do México, o piloto inglês não precisa sequer de terminar a corrida. A decisão foi adiada no passado fim de semana, quando Kimi Raikkonen e Max Verstappen trocaram as voltas a Hamilton e não lhe permitiram mais do que um terceiro lugar. No dia anterior à corrida, o piloto de 33 anos recebeu uma chamada de Viena. Era Niki Lauda, atual presidente não executivo da Mercedes AMG Petronas e antigo campeão mundial de F1. Internado, quase acabado de sair dos cuidados intensivos depois de um transplante de pulmão, Lauda decidiu telefonar ao rapaz que ajudou a contratar em 2013 para lhe dar uma palavra de apoio.

Niki Lauda, atualmente com 69 anos, é uma presença habitual nas garagens dos Grandes Prémios de F1: sempre de boné, com poucos sorrisos, a olhar com atenção para tudo aquilo que o envolve desde a adolescência, altura em que contrariou a família e decidiu tornar-se piloto de automóveis. Em julho, depois de contrair um vírus durante umas férias em Ibiza, o austríaco foi internado de urgência e tem estado ausente do paddock desde aí – o que não o impediu de contactar Lewis Hamilton antes de uma corrida que podia ser decisiva. Até porque Lauda, três vezes campeão mundial de Fórmula 1, sabe o que são corridas decisivas.

A 24 de outubro de 1976, dia do Grande Prémio do Japão, 16.º dos 16 da temporada, Niki Lauda acordou para uma dessas corridas. Naquele dia, no final do GP, ele ou James Hunt seriam coroados campeões do mundo. As contas eram simples: Lauda era campeão caso ficasse à frente de Hunt; Hunt era campeão se ganhasse. O duelo entre o yin e o yang da modalidade, como eram retratados na altura, decorria desde o início da época mas o austríaco, campeão no ano anterior, tinha cavado uma distância confortável nas primeiras corridas e era a meio da temporada o grande favorito à vitória. Até ao Grande Prémio da Alemanha. Em agosto, dois meses antes do decisivo GP do Japão, Niki Lauda envolveu-se num acidente logo na segunda volta, saiu de pista e bateu no muro que delimitava a corrida. O Ferrari que conduzia incendiou-se minutos depois e o piloto austríaco ficou preso dentro do monolugar.

Niki Lauda, de capacete, e James Hunt. Os dois pilotos eram bons amigos à margem da rivalidade que lhes era imposta

Os pilotos Arturo Merzario, Brett Lunger, Guy Edwards e Harald Ertl retiraram Lauda do carro – mas não antes de o austríaco sofrer queimaduras graves na cabeça e nos braços e de inalar gases tóxicos que lhe contaminaram os pulmões e a corrente sanguínea. O piloto saiu do Ferrari consciente e chegou a conseguir andar, mas entrou em coma poucos minutos depois. Perdeu a orelha esquerda, grande parte do cabelo, as sobrancelhas, as pestanas e as pálpebras. Quando acordou, dias depois, e foi confrontado com a inevitabilidade de várias cirurgias plásticas de reconstrução, decidiu que de forma imediata só iria reconstruir as pálpebras e ficar no hospital o tempo necessário para que estas funcionassem de forma quase normal.

Para espanto do mundo da Fórmula 1 e do desporto, Niki Lauda só falhou duas corridas. Regressou às pistas seis semanas depois do acidente, no início de setembro, para o Grande Prémio de Itália. Conquistou um inacreditável quarto lugar e confessou mais tarde que estava “absolutamente petrificado”. Quando retirou o capacete, no final do GP, as compressas ensanguentadas que ainda tinha na cabeça foram a imagem de um homem que colocava a modalidade à frente da própria segurança. James Hunt, ao volante do McLaren-Ford, tinha recuperado terreno nas duas corridas em que Lauda não participou e voltou a fazê-lo nas duas que se seguiram ao GP de Itália, onde o austríaco da Ferrari foi apenas oitavo e terceiro. À chegada àquele dia do Grande Prémio do Japão, Lauda e Hunt estavam separados por apenas três pontos.

Chovia torrencialmente. O circuito do Monte Fuji estava inundado e todos os pilotos estavam reticentes quanto à realização da corrida. “Estávamos encharcados. Era uma partida às cegas. A visibilidade, no máximo, era de 10%. A aquaplanagem estava como eu nunca tinha visto e havia autênticos rios ao longo da pista. Podíamos não estar a fazer nada errado e de repente alguém à nossa frente comete um erro, nós não víamos e íamos contra ele completamente cegos. Podíamos matar-nos”, recordou mais tarde Mario Andretti, o piloto da Lotus que tinha conquistado a pole-position e ia naquele dia sair do primeiro lugar da grelha. Em segundo, James Hunt; em terceiro, Niki Lauda. Abrigados da chuva dentro das garagens, os pilotos foram conferenciando e todos tinham a mesma opinião: era impossível correr em segurança sob aquelas condições. Lauda e Hunt, que mantinham uma amizade à margem da rivalidade alimentada pela comunicação social, eram os líderes e porta-vozes incontestados do pelotão. Mas não podiam ser mais diferentes.

Niki Lauda em junho de 2018, à margem do Grande Prémio da Áustria

Naquele ano, meses antes do acidente, Niki Lauda tinha casado com a primeira mulher, Marlene Knaus. James Hunt permanecia solteiro e mulherengo, protagonista das histórias mais mirabolantes e dono do lema sexo: o pequeno almoço dos campeões, que ostentava orgulhosamente no casaco que vestia antes das corridas. O inglês transportava a rebeldia para a pista, com uma condução mais irresponsável e arriscada, um pouco à imagem daquilo que Max Verstappen faz hoje em dia, enquanto que o austríaco era cauteloso e calculista, tal como Lewis Hamilton o é agora. À parte isso, eram amigos e os pilotos mais influentes de toda a grelha.

Nas garagens, os 26 pilotos em prova acordaram em confrontar a organização do Grande Prémio e pedir um adiamento de 30 minutos na hora da partida. O pedido foi-lhes recusado. Recorreram então a Bernie Ecclestone, atual número 1 do Formula One Group e na altura dono da Brabham-Alfa Romeo e promotor do GP do Japão. Ecclestone recusou o adiamento, recusou o cancelamento da prova mas assumiu que as condições não permitiam a realização da corrida em segurança. Então propôs um acordo: todos os pilotos arrancavam, faziam uma volta e desistiam. Desta forma, a ideia de unidade e coerência nunca seria contrariada e, mais importante ainda, Bernie Ecclestone não perdia o dinheiro das emissões televisivas porque a corrida tinha começado a tempo e horas.

Vermelho, verde, bandeira de xadrez e a corrida começou. No final da primeira volta, Emerson Fittipaldi parou, Carlos Pace parou e Niki Lauda parou. Todos os outros, incluindo James Hunt, ignoraram o acordo apalavrado horas antes e continuaram em pista. Ao sair do carro, e contra tudo aquilo que tinha defendido ao longo da carreira, Lauda suspirou: “A minha vida vale mais do que um campeonato”. Enzo Ferrari – dono da marca italiana e provavelmente o único que não tinha sido avisado de que Lauda ia parar – ficou furioso. A equipa aconselhou o piloto a mentir, a dizer que o carro tinha tido uma avaria mecânica, mas Niki Lauda disse a verdade e ficou nas garagens durante algumas voltas a assistir à corrida. Quando as condições meteorológicas melhoraram e a chuva abrandou, pediu que lhe chamassem um táxi para o aeroporto.

No táxi, pediu ao taxista que ouvisse na rádio a transmissão da corrida e que lhe dissesse no fim quem tinha ficado em primeiro. Na última volta, quando tudo seria decidido, entraram num túnel e deixaram de conseguir ouvir a emissão. Chegados ao aeroporto, Lauda perguntou ao taxista quem tinha vencido. “Disse-me que não sabia, que não tinha conseguido ouvir. Quando saí do táxi, à entrada do aeroporto, estava lá um japonês todo vestido com coisas da Ferrari, um fã. Quando vi a cara dele, percebi”. James Hunt tinha ficado em terceiro lugar, atrás de Mario Andretti e Patrick Depailler, e tinha conquistado os quatro pontos necessários para ter mais um do que Niki Lauda na classificação geral.

“Lamento muito pelo Niki. Lamento muito que a corrida tenha acontecido sob circunstâncias tão ridículas e que as condições tenham sido tão perigosas e apoio totalmente a decisão do Niki. Depois de um acidente como o que teve, o que é que ele podia fazer? Honestamente, eu queria ganhar o campeonato e acho que mereci. Mas também acho que o Niki merecia. E só queria conseguir partilhá-lo”, disse James Hunt já depois de levantar o troféu de campeão do mundo de Fórmula 1, o primeiro e único que conquistou.

Niki Lauda foi castigado por Enzo Ferrari e perdeu a posição de piloto número 1 da equipa no ano seguinte. Ainda assim, e imune a todas as críticas, o austríaco voltou a sagrar-se campeão do mundo em 1977, antes de abandonar a scuderia italiana para se juntar à Brabham-Alfa Romeo. Foi campeão mais uma vez, em 1984, um ano antes de se retirar definitivamente. James Hunt retirou-se em 1979 e morreu em 1993, com apenas 45 anos, de ataque cardíaco.

“Se pudesse voltar a correr e escolher uma era, era hoje. Ganham dez vezes mais e não há risco. Honestamente, é mais seguro”, disse Niki Lauda ao The Guardian em 2016, no 40.º aniversário daquele Grande Prémio do Japão onde fez o que nunca tinha feito: colocou a segurança antes da meta.