Por fora, um edifício cinzento claro com letras de um verde vivo: é ali, a 15 minutos de carro da paisagem ribeirinha de Vila Nova de Gaia, a primeira loja da Mercadona em Portugal, como aliás informa um letreiro à entrada do estabelecimento. Lá dentro, são os azulejos de inspiração portuguesa e o leve odor a bacalhau – o ‘fiel amigo’ – que denunciam a tentativa de adaptação da rede de supermercados espanhola aos consumidores portugueses – ou “os chefes”, como são denominados, porque quem manda são eles.

Com um modelo de loja semelhante às lojas espanholas –  cerca de 1900 metros quadrados, corredores largos e luz natural – ali os carrinhos não precisam de moeda. Perto deles há, para quem precise, sacos “para congelados”. Para não haver dúvidas, os produtos estão na língua de Camões… mas também na de Cervantes: os frigoríficos oferecem tiras de “pollo al horno/ frango no forno”; há massas sem glúten – as “helices / espiral”. E o “garbanzo” é o “grão de bico”. Mas dos cerca de 6000 produtos disponíveis, cerca de metade são de origem nacional. Ao todo, a Mercadona, por cá, trabalha com 300 produtores portugueses.

“Em Portugal, sê português”, considera a Mercadona. Por isso, foi criado propositadamente para os estabelecimentos portugueses o “mural do bacalhau”. Aí, o ingrediente “rei” está exposto por tamanho: há o “corrente”, o “crescido”, o “graúdo” e o “especial”.

Outra das novidades é a secção “ponto de corte final”. Na prática, o consumidor pode comprar um frango embalado na respetiva secção e ali dirigir-se para que o cortem ao seu gosto. E como Espanha é, para muitos, sinónimo de presunto, os consumidores nacionais vão ainda poder pedir que lhes cortem o presunto na hora, à faca (o que não é comum nos supermercados nacionais), podendo depois ser embalado em vácuo, se o desejar.

Se há bacalhau e presunto, também há sushi, produto a que os portugueses já se renderam nos últimos anos. E logo à entrada salta à vista um expositor (ainda vazio, à espera dos primeiros clientes de terça-feira): haverá “sushi com peixe cru”, “sushi sem peixe cru” e “sushi vegano”. Um pouco ao lado, uma máquina de café “oferece”, entre outras opções, um “pingo” (desculpem-se os lisboetas). E há garrafas para encher com sumo de laranja.

Ao lado, é o “Pronto a Comer” – que a cadeia começou a implementar em 2016 nas lojas espanholas. Vai servir 35 pratos – 23 de receitas portugueses (como a bifana à moda do Porto ou o bacalhau) e os restantes de Espanha. Só esta secção emprega 16 trabalhadores. Também aqui pode “personalizar” a sua salada.

“Boa é a vida, mas melhor é o vinho”

Metade da oferta é de origem portuguesa. A maioria das garrafas de vinho vendidas na loja do Canidelo, por exemplo, são de produtores nacionais: o Áurea Quebrada pertence à Mercadona, mas é produzido por uma cooperativa de Vila Real, que também tem à venda o seu próprio vinho. Nesta secção, há referências nacionais: o vinho Vila Plena “homenageia” Fernando Pessoa. “Boa é a vida, mas melhor é o vinho”, lê-se no rótulo. Cada garrafa custa 7 euros. Mas naquela secção há garrafas desde os 3 euros.

Entre outros produtos, os vinhos foram testados no centro de co-inovação de Matosinhos, ao qual a Mercadona chamou clientes para que estes experimentassem produtos, dessem sugestões e partilhassem alguns dos seus hábitos. Dessa dinâmica resultaram produtos – que não existiam em Espanha – como o “iogurte gelatina”. Desde então tem sido um sucesso no país vizinho.

Se há produtos espanhóis na Mercadona em Portugal, também há alimentos portugueses na Mercadona espanhola: o pastel de nata, o pão-de-Deus ou o bolo de bolacha foram testados nas lojas fronteiriças. E por lá ficaram, tal foi o sucesso. De volta a Portugal: na secção de padaria e pastelaria, no Canidelo, há bolos de aniversário com a cara da Minnie e de princesas da Disney. Fornos de fabricantes portugueses para cozerem o pão na hora: a bola integral está a 15 cêntimos a unidade, a broa de milho a 1 euro. O pão de 6 cereais fica a 25 cêntimos a unidade.

A loja do Canidelo, que vai ser inaugurada esta terça-feira, conta com 85 trabalhadores (mais do que os 50/60 previstos porque ali trabalha-se ao domingo), que aprenderam o modelo de gestão da cadeia de supermercados, tiveram aulas de espanhol e passaram alguns meses nas lojas do país vizinho em formação. A empresa estima ter gasto 50 mil euros por trabalhador. Todos eles têm contrato fixo. A loja envolveu um investimento de 8 milhões de euros e é a primeira dos 10 estabelecimentos que a empresa vai abrir em Portugal no segundo semestre de 2019. Tem 240 lugares de estacionamento.

Perfumaria terá colaborador a tempo inteiro

A secção “perfumaria” – que mais sensação causa entre os consumidores – terá sempre uma colaboradora especialista. “Queremos que se sintam numa perfumaria”, diz André Silva, diretor de comunicação da empresa em Portugal, que apresenta o Sisbela, um creme vendido a 6 euros, que tem exatamente a mesma composição de um outro, o Alain, vendido a 60 euros nas lojas online (é aliás, produzido no mesmo laboratório, como o Observador já tinha escrito aqui). Nesta secção, a última antes da saída, mantiveram-se, sobretudo, os produtos espanhóis.

Sem descontos, a empresa quer manter a política de “preços sempre baixos”. Se vai resultar? A cadeia não quer avançar com previsões. Para já, “Obrigado Vila Nova de Gaia”, lê o ‘chefe’ nos separadores da caixa de pagamento. Com menção ao horário: a loja do Canidelo está aberta das 9h às 21h30. De segunda-feira a domingo.