Quando falamos de moda, esta é uma das muitas constatações inevitáveis. Na história ressaltam os nomes de fotógrafos, muito mais do que os dos ilustradores. Antonio Lopez pertence a essa segunda categoria, a de homens e mulheres que, com o surgimento das grandes publicações especializadas, na segunda metade do século XIX, deram forma, cor e movimento a mulheres, criações e tendências, sempre e unicamente através do próprio traço. Aquando morte de Lopez, em 1987, o The New York Times não hesitou em designá-lo como “grande ilustrador de moda”. Foi um bon vivant capaz de detetar futuros ícones, um criativo de elite, uma sensibilidade estética e visual extra e um provocador que, logo nos anos 60, desafiou uma sociedade heteronormativa. Além de tudo isso, escolheu desenhar numa altura em que a moda só tinha olhos para a fotografia.

Atonio Lopez em 1984 © Paul Bruinooge/Patrick McMullan

“Visionary Writing — Desenhos, Filmes, Fotografias” tem inauguração marcada para esta sexta-feira, 5 de julho, no Centro Cultural de Cascais. Depois de Madrid, esta exposição itinerante traz a Portugal 69 desenhos originais, 62 sequências de câmara Instamatic, seis sequências fotográficas de cabine, sete colagens, cinco páginas de diários, dois filmes de formato Super 8 e um filme de realidade virtual. A par da ilustração, a arte que o celebrizou, também a fotografia tem um papel importante na obra de Antonio Lopez, sobretudo quando falamos dos seus registos mais íntimos.

Como criativo, ele não era só uma presença regular em publicações como a Vogue, a Harper’s Bazaar, a Elle, a Interview e o The New York Times. Lopez era uma figura de proa do circuito artístico, boémio e, por vezes, alternativo, da cidade de Nova Iorque e em Paris, durante os anos 70. Ele próprio era uma prova da mescla étnica e cultural que a cidade era. Ainda em criança, deixou Porto Rico e foi com a família para os Estados Unidos. Chegou a admitir ter começado a desenhar vestidos com apenas dois anos, a partir de pedaços de tecido que a mãe lhe dava. Terá sido ela a encorajá-lo a aplicar as habilidades artísticas à moda. Ainda estudava no Fashion Institute of Technology quando começou a trabalhar na Women’s Wear Daily (WWD), uma publicação especializada na área da moda. Rapidamente, Lopez passou a integrar a equipa a tempo inteiro, interrompendo os estudos.

Desenho feito para Charles James em 1968 © Getty Images

Numa altura em que a moda estava atida ao realismo fotográfico, os desenhos de Lopez abriram caminho nas páginas de publicações da especialidade, mas não só. No início dos anos 1960, começou a colaborar com várias revistas. As suas ilustrações destacavam-se pelo movimento, mas também pelas posições sensuais da modelos. Entre os Estados Unidos e a Europa, o autor conseguiu render vários editores de moda a este formato alternativo. Trabalhou para o designer Charles James, pela mesma altura terá conhecido Juan Ramos, com quem a parceria criativa se prolongou muito para além da relação amorosa que mantiveram durante cinco anos. Também o fotógrafo Bill Cunningham se tornou um amigo próximo neste período.

Como quase todos os grandes artistas, encontrou as suas musas. Grace Jones, Jessica Lange e e Jerry Hall eram ainda ilustres desconhecidas e partilhavam um apartamento em Nova Iorque quando conheceram Antonio Lopez. “Antonio’s Girls”, livro publicado em 1982, exibe ilustrações deste trio do outro mundo. “Quando digo que tive um fraquinho por ele, quero dizer que fui absolutamente louca por ele”, confidenciou a atriz Jessica Lange no documentário Antonio Lopez 1970: Sex Fashion & Disco, lançado no início de 2017. A mesma fita trouxe outros factos surpreendentes, como a relação, muito para além de uma amizade, que o ilustrador manteve com Jerry Hall. Também as então manequins Pat Cleveland e Tina Chow faziam parte deste pequeno círculo, denotando que o ideal de beleza de Lopez não estava em sintonia com os padrões dos Estados Unidos.

Fotografias Instamatic Kodak da série “Água Azul”, com Pat Cleveland e Grace Jones, em Paris, 1975 © The Estate of Antonio Lopez and Juan Ramos

“Eles [Lopez e Ramos] tinham a noção do que ia ser o futuro e de como a raça não iria importar”, partilhou James Crump, realizador do documentário, com o The Guardian. “Eles contrariavam a ideia de que não podiam usar as modelos que queriam. Paris era uma cidade muito mais aberta às suas ideias”, completou. Em 1969, mudam-se para a cidade luz, mais propriamente para o apartamento de Karl Lagerfeld. O emblemático Club Sept era uma segunda casa, as noites de excesso e decadência um cenário comum — em 1973, o filme de Andy Warhol e Paul Morrissey, L’Amour, é o quadro perfeito desse estilo de vida. Ao longo da sua estadia em Paris, ressaltam ainda as colaborações com Yves Saint Laurent. No mesmo documentário, Lopez surge como um ás da pista de dança, afinal o mundo estava a viver a disco fever.

Lopez regressa a Nova Iorque já na década de 80. O seu estilo tinha acabado de absorver referências desportivas e dos dançarinos de breakdancing e parece ter influenciado designers da época. “Faço parte da geração que veio para Nova Iorque para conhecer os seus ídolos. No meu caso, eles eram Andy Warhol e Antonio Lopez”, escreveu Anna Sui, no livro Antonio Lopez: Fashion, Art, Sex and Disco, publicado pela Rizzoli. Nesse período, dedicou-se ainda a dar palestras e workshops a estudantes de moda, um pouco por todo o país. Antonio Lopez morreu em março de 1987, devido a complicações de saúde causadas pelos vírus HIV. Ramos morreu oito anos depois.

Antonio Lopez com Mick Jagger e Jerry Hall em Nova Iorque, circa 1978 © Robin Platzer/IMAGES/Getty Images

Durante mais de duas décadas, a criação de Antonio Lopez não se limitou a um único suporte ou técnica. Na ilustração, usou lápis, caneta, tinta, grafite e aguarela, mas parte da sua obra é também fotográfica, sobretudo com recurso a filme Polaroid. O seu rasgo criativo também se fez sentir na publicidade. Entre dezenas de campanhas veiculadas em todo o mundo, destaca-se o trabalho feito para a cadeia de armazéns Bloomingdale’s. Tanto esse como todos os outros, o ilustrador assinou sempre com um simples “Antonio”.

A exposição “Visionary Writing — Desenhos, Filmes, Fotografias” pode ser vista até 12 de outubro no Centro Cultural de Cascais, de terça-feira a domingo, das 10h às 18h. A entrada custa 5 euros.