69 anos. Há 69 anos que o FC Porto não deixava as Antas ou o Dragão, não apanhava o autocarro até Lisboa, não entrava na Luz velha ou na Luz nova e não ganhava por 0-2. Desde a temporada 1950/51 que os dragões não venciam o Benfica em Lisboa por dois golos sem sofrerem nenhum: ora, em 1950, Portugal estava sob o regime do Estado Novo, Harry S. Truman era o presidente dos Estados Unidos, o mundo ainda estava a recuperar dos horrores da Segunda Guerra Mundial e o Woodstock, que este ano está a merecer especial destaque por ter acontecido há 50 anos, estava ainda a 19 longos verões de ocupar durante quatro dias e quatro noites um recinto no estado de Nova Iorque.

Naquela que é apenas a primeira reedição da maior vitória de sempre do FC Porto na Luz, Zé Luís inaugurou o marcador, estreando-se a marcar em clássicos no dia em que também se estreou a jogar em clássicos, e Marega marcou pela terceira vez ao Benfica (já tinha apontado um golo na meia-final da Taça da Liga, no ano passado, e tinha apontado outro ainda no Marítimo). Feitas as contas, os dragões aumentaram a vantagem na contabilidade dos encontros entre as duas equipas em casa dos encarnados: com esta vitória, o FC Porto tem agora sete vitórias contra quatro do Benfica, num total de 17 jogos que inclui ainda seis empates.

E Sérgio Conceição, que se tornou o primeiro treinador da história do FC Porto a ganhar duas vezes na Luz, igualou André Villas-Boas enquanto técnico com mais vitórias em casa do Benfica (ganhou antes de chegar aos dragões, ainda no Sp. Braga) e ainda somou os três resultados positivos no banco de suplentes a um outro que já tinha enquanto jogador. Depois da derrota na jornada inaugural da Liga, perante o Gil Vicente, e da eliminação na Liga dos Campeões com o Krasnodar, o FC Porto entrou numa espécie de vórtice negativo que chegou a ter no olho do furacão a continuidade (ou o fim dela) do treinador e que só acalmou na semana passada, com a goleada imposta ao V. Setúbal.

Este sábado, numa vitória que apaga ligeiramente as duas derrotas sofridas na temporada passada às mãos do Benfica — tanto na Luz como no Dragão –, os dragões abrem um novo capítulo que tem como objetivo a reconquista da Primeira Liga, a conquista das competições internas e o desejo, sem qualquer tipo de pudores, de chegar o mais longe possível na Liga Europa. Depois de um início de temporada que ainda prossegue e que tem como principal obstáculo o reconstruir de uma equipa que foi desfalcada de várias das suas principais valências — Casillas, Felipe, Militão, Herrera, Brahimi, Óliver –, Sérgio Conceição parece ter chegado a um onze tipo onde Marchesín não compromete tal como Casillas não comprometia, onde Pepe e Marcano são seguros como Felipe e Militão eram, onde Uribe serve de pêndulo tal como Herrera servia, onde Luis Díaz oferece o virtuosismo que Brahimi oferecia e onde Romário Baró tem a clareza que Óliver tinha. O treinador chegou à fase final de uma reconstrução que lhe foi imposta e parece não ter muitas dúvidas quanto aos próximos passos, assentes na mistura entre a jovialidade e a sobriedade e a rebeldia e a contenção.