Podia ser apenas mais uma etapa no fenómeno de popularidade Marie Kondo, depois de a guru da arrumação ter entrado nas gavetas de meio mundo e, mais recentemente, de ter anunciado que vai lançar um livro a pensar nas nossas secretárias. Mas afinal, parece que foi a polémica que mais saiu do armário.

No seu site, Kon Mari, a japonesa, autora do bestseller de 2014 Arrume a sua casa, Arrume a sua Vida e protagonista de uma série da Netflix, acaba de lançar a uma loja online com artigos de decoração, um passo que para alguns seguidores é no mínimo irónico tendo em conta que a estrela da organização tem passado os últimos anos a aconselhar os fiéis a destralhar o mais possível e a aprender a viver com menos.

De pouco pareceu servir a partilha feita pela autora no seu Instagram, onde anunciou as novidades e rematou com o conselho: “não comprem muito”. E se a decisão em si já chegava e sobrava para desnortear os fãs, convertidos ao método Kon Mari, a contradição parece adensar-se perante os preços que as etiquetas marcam, ofuscando a imagem do design clean e cuidado que convida ao slowliving ou eventual caráter extra durável capaz de contrariar os artigos mais descartáveis e de inferior confeção.

Por aqui encontra chinelos de quarto por 206 dólares (186 euros), um tote bag a 42 dólares (38 euros), e um recipiente para os talheres que ascende aos 275 dólares (cerca de 248 euros), o item mais caro desta montra de lifestyle, que inclui categorias como a cozinha, aromaterapia, livros ou essenciais de banho. A peça mais barata? Um pauzinho de cerâmica por 8 dólares.

O recipiente por 248 euros (atenção, as colheres não estão incluídas) © Kon Mari

Esta semana, ao Wall Street Journal, Marie Kondo reciclou a sua abordagem para melhor armazenar a novidade da loja e rejeita as acusações de promoção do consumismo. Defende ainda que a ideia de criar este separador surgiu na sequência dos inúmeros pedidos de fãs por items que ela própria gostaria de ter em sua casa. Garante também que o seu método “não passa por deitar coisas fora” mas sim por “sublinhar a nossa sensibilidade ao que nos traz alegria. Depois de ter completado a sua arrumação, terá espaço para receber objetos, pessoas e experiências relevantes na sua vida”.

A avaliar pelas reações, alegria não foi o que o cidadão comum mais sentiu com este modelo de negócio, que surgiu semanas depois do Rakuten, o maior site de e-commerce do Japão, ter comunicado a sua parceria comercial com Kondo. A consternação vai fazendo o seu caminho por aqui. Ou por aqui, com um título que é uma verdadeira limpeza: “A rainha do destralhanço quer vender-lhe umas coisas”. E ainda por aqui, para mais uma dose de compras.

Nos últimos dias, o projeto tem pelo menos desarrumando as ideias de quem não se imagina a desembolsar 55 dólares por um tabuleiro e pode agora dar largas ao uso do hashtag #ironic. Como não bastasse, para mais uma estocada no método Kondo, Marie já tinha admitido que se torna muito difícil seguir os mandamentos por si pregados quando há crianças (sinónimo de balbúrdia) em casa. Nada que não tivéssemos já testado e confirmado por aqui

Uns chinelos de quarto são apenas um dos focos de indignação dos seguidores de Kondo © Kon Mari

Certo é que o império não soma e segue, alguns anos depois desse boom do efeito Kondo contagiar por completo os EUA. Se Marie é o rosto do estilo de vida minimalista, o seu marido, Kawaara, é desde 2015 o CEO da KonMari Media LLC, a empresa orientada para conteúdos como os formatos televisivos, o segmento dos livros, e agora uma loja com curadoria da mentora, cujo passo já foi comprado ao projeto Goop de Gwyneth Paltrow, outra plataforma no universo do lifestyle que combina artigos com e-commerce. Já este mês, apontou agulhas aos consumidores mais jovens, com um livro para crianças.