Duas palavras, um cântico, o estado de sítio de regresso ao Sporting: na chegada da comitiva verde e branca aos Açores, onde defronta esta segunda-feira o Santa Clara na 14.ª jornada da Primeira Liga, alguns adeptos foram esperar a equipa ao aeroporto e gritaram logo aí “Alcochete sempre”, algo que se repetiu na chegada à unidade hoteleira no centro de Ponta Delgada onde enquanto a fila da frente pedia autógrafos e fotografias aos jogadores leoninos, um segundo grupo alegadamente ligado às claques repetiu o “Alcochete sempre” entre várias críticas no seguimento da última derrota da equipa na Áustria frente ao LASK Linz (3-0).

O Sporting, mesmo sabendo que se trata de um grupo pouco significativo de adeptos, já reagiu em comunicado ao episódio pela gravidade do sucedido. Aliás, o Observador sabe que os responsáveis leoninos não esqueceram o que se passou na última temporada também nos Açores, quando Frederico Varandas foi insultado e um adepto (por sinal conhecido de algumas pessoas do clube de outras viagens) terá mesmo sido identificado a pedido da própria comitiva verde e branca – sendo que, nessa altura, quase todos os jogadores acabaram por ser aplaudidos.

“O Sporting repudia mais um ataque feito à sua equipa de futebol profissional, hoje nos Açores, em linha com outros ataques feitos desde o início da época. Cânticos de “’Alcochete sempre’, com gente outra vez de cara tapada, depois de vários atletas terem ido depor a tribunal e quando outros ainda terão que ir a tribunal é uma vergonha e uma manobra de coação. Louvar, promover, glorificar o dia mais negro da história do Sporting, em cânticos, é um incitamento à violência e ao ódio. E para além de ser chocante para os nossos atletas, para os nossos sócios, não é já apenas um problema do Sporting, é também um problema do futebol português, é também um problema do Estado Português e não há mais tempo, nem mais pretextos, para que se continue a assobiar para o lado perante as evidências e perante os gravíssimos sinais que todos podem observar”, defendeu o comunicado.

“O Sporting apela aos seus sócios, à sua massa associativa, para que apoiem os seus atletas, as suas equipas, em todos os campos, em todos os pavilhões, porque os nossos atletas precisam e muito do apoio de quem é mesmo, genuinamente, do Sporting. Não desistiremos de lutar pelos valores do Sporting e do Desporto. Não recuaremos nunca perante a ameaça, a agressão, o ódio contra o Sporting e contra os seus”, completa.

Acrescente-se que Frederico Varandas, que não acompanhou a equipa à Áustria por motivos profissionais ligados ao clube que o mantiveram em Portugal, viajará só esta segunda-feira para os Açores, tendo acompanhado esta noite a equipa Hugo Viana, diretor desportivo, e Beto, team manager. De referir também que, de acordo com algumas fontes contactadas pelo Observador, o cântico “Alcochete sempre” acabou por surpreender até alguns elementos das próprias claques, ao contrário do que aconteceu por exemplo com outro novo cântico que se ouviu em Linz (“Não jogam um car***** mas estamos sempre cá”) e que teve agora prolongamento em Ponta Delgada.

Ainda que com contornos distintos, os dirigentes do Sporting traçam um paralelismo entre o cântico que foi agora entoado por cerca de 20 adeptos na chegada aos Açores com a tentativa de invasão de garagem após a derrota em Alvalade frente ao Famalicão, na medida em que coloca em causa não só a segurança dos jogadores mas também porque traz ao de cima um dos episódios mais negros da história do clube e onde estavam oito dos elementos agora convocados por Silas: Luís Maximiano, Ristovski, Mathieu, Coates, Battaglia, Wendel, Acuña e Bruno Fernandes, todos eles indicados como testemunhas do Ministério Público no julgamento do caso Alcochete.

Em paralelo, e sem ligação com o que se passou nos Açores, a claque Directivos Ultras XXI, um dos Grupos Organizados de Adeptos com quem o Sporting revogou o protocolo a par da Juventude Leonina, emitiu esta noite um comunicado com o título “A verdade da mentira – o início” onde anunciou que ao longo da semana irá dar a conhecer em termos públicos e de forma detalhada “toda a informação sobre as relações protocoladas entre esta Associação e as diversas Direções do Sporting e Administrações da Sporting SAD, e o cumprimento das obrigações para todas as partes envolvidas, nomeadamente, a nível financeiro”,

“A informação que iremos partilhar visa, única e exclusivamente, desmistificar os mitos criados ao longo dos anos relacionados com alegadas ‘borlas’, ‘regalias’ e ‘negócios’ envolvendo apoios e benefícios concedidos pelo Sporting e pela Sporting SAD ao abrigo dos sucessivos protocolos desde a época desportiva de 2004/2005”, diz, prosseguindo: “Durante 17 anos, a Associação Directivo Ultras XXI funcionou e cresceu com e sem apoios por parte do Sporting, tendo visto passar pelo clube seis Direções, seis presidentes muito diferentes entre si e diversos Oficiais de Ligação aos Adeptos, com quem sempre se relacionou a nível institucional, mesmo quando existiram severas divergências de opinião, sendo do pleno conhecimento de todos estes envolvidos a veracidade deste facto”.

“Basta de mentiras, basta de calúnias e basta de difamações difundidas através de meios de comunicação social de acesso privilegiado, sem dar a cara, sem assumir frontalmente as mentiras propaladas nem quem são os reais visados das mesmas, e com a impudência de não apresentar quaisquer provas daquilo que mandam outros publicitar de forma a camuflar a sua própria incapacidade de gestão e liderança. Somos inimigos da mentira, somos inimigos da opacidade e somos inimigos da incompetência”, concluiu o comunicado da claque.