As Medalhas de Honra L’Oréal 2019 são esta quarta-feira atribuídas a quatro jovens cientistas que trabalham sobre bactérias resistentes, distrofia muscular, células imunitárias e tratamento de esgotos industriais com microalgas, anunciou a organização em comunicado.

Diana Priscila Pires (Universidade do Minho), Cristina Godinho-Silva (Fundação Champalimaud), Ana Rita Carlos (Universidade de Lisboa) e Ana Luísa Gonçalves (Universidade do Porto) são as cientistas premiadas. Cada uma vai receber 15 mil euros. A entrega das distinções será feita numa cerimónia no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa. As Medalhas de Honra L’Oréal para as Mulheres na Ciência são concedidas anualmente a quatro jovens investigadoras a trabalhar em Portugal, sendo financiadas pela empresa de cosmética L’Oréal Portugal. A avaliação das candidaturas é realizada por um júri designado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia.

A investigadora Diana Priscila Pires (Centro de Engenharia Biológica da Universidade do Minho) disse à Lusa que pretende criar uma ferramenta de edição genética para gerar bacteriófagos com “propriedades antibacterianas melhoradas”, de modo a que “possam ser utilizados no tratamento de infeções causadas pela bactéria ‘P. aeruginosa'”, que é resistente a antibióticos e está na origem de infeções hospitalares. Os bacteriófagos são vírus bacterianos que “não têm qualquer efeito adverso” nos humanos, pelo que “têm vindo a ser explorados para o tratamento de infeções bacterianas”, uma vez que atacam bactérias nocivas.

Contudo, estes vírus “apresentam algumas limitações que podem ser ultrapassadas através da manipulação genética dos seus genomas”, assinalou a cientista, que se propõe isolar novos bacteriófagos, específicos para a bactéria ‘P. aeruginosa’, e desenvolver uma ferramenta de edição genética destes bacteriófagos a partir de uma outra ferramenta já conhecida, a CRISPR/Cas, que será usada na edição da informação genética da bactéria.

Cristina Godinho-Silva (Fundação Champalimaud) vai avaliar, usando ratinhos como modelo animal, de que forma o relógio biológico (ritmo circadiano) regula um grupo de células imunitárias, as células linfoides inatas do tipo 2 (ILC2), que existem em órgãos como os rins, e qual o impacto desta regulação para o funcionamento dos rins.

Este projeto irá permitir compreender se as perturbações nos nossos horários e hábitos de sono influenciam a atividade das ILC2 e se podem contribuir para um aumento do risco de desenvolvimento da patologia renal, como é o caso da insuficiência renal”, afirmou à Lusa, acrescentando que caso esta hipótese se confirme será possível “pensar em estratégias para aumentar ou reduzir terapeuticamente a atividade destas células” e, deste modo, tratar as doenças renais com mais eficácia.

Ana Rita Carlos (Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da Universidade de Lisboa) quer perceber como se inicia a distrofia muscular congénita merosina-negativa (MDC1A), uma doença muscular grave, geralmente letal e sem cura que afeta a capacidade de andar, engolir e respirar. Num estudo anterior com embriões de ratinhos, a investigadora verificou que a doença se manifestava ainda no útero materno e não apenas à nascença, como se pensava antes.

Agora, no novo trabalho, espera identificar os mecanismos nas células dos tecidos musculares que desencadeiam a doença, assim como medicamentos que possam ser usados para novas terapias que visem a melhoria das condições de vida dos doentes ou uma possível cura para a MDC1A. Para tal, Ana Rita Carlos vai analisar alterações no gene LAMA2, na origem da doença. A cientista considera que o conhecimento gerado pela nova investigação será importante para outras doenças, como cancro, e o envelhecimento, uma vez que, adiantou à Lusa, o LAMA2 é “essencial para dar suporte mecânico e fisiológico às células em vários tecidos”.

Ana Luísa Gonçalves (Laboratório de Engenharia de Processos, Ambiente, Biotecnologia e Energia da Universidade de Porto) está a estudar as potencialidades do uso das microalgas no tratamento “eficiente, sem recurso a agentes químicos adicionais”, dos esgotos produzidos pelas indústrias têxtil e do papel, assim como a possível utilização da sua biomassa como biofertilizante, biodiesel e pigmento natural de tecidos. Com os tratamentos habituais, os efluentes industriais continuam a ter “elevadas concentrações de azoto e fósforo”, nutrientes com “impactos negativos nos ecossistemas aquáticos” mas que “são essenciais para o crescimento das microalgas”, sublinhou a cientista à Lusa.