O Novo Banco fechou o ano de 2019 com prejuízos consolidados de 1058,8 milhões de euros, uma redução de 25% face às perdas apuradas no ano anterior.  Já o resultado recorrente da operação que não é afetada pelos ativos “legacy”, a herança do antigo BES, foi positivo em 177,6 milhões de euros, contra 77 milhões de euros negativos no ano anterior.

O presidente executivo confirma que a instituição vai pedir uma injeção de 1.037 milhões de euros ao Fundo de Resolução para reforço de capitais, o que eleva para 2098 milhões de euros as solicitações de capitalização, ficando ainda disponíveis cerca de mil milhões de euros. Segundo o António Ramalho, este valor é inferior às estimativas previstas nos cenários do plano de reestruturação negociado com Bruxelas.

“A reestruturação não está terminada. Mas se antes estávamos no Cabo das Tormentas, hoje já demos a volta ao Cabo da Boa Esperança. A única surpresa é a surpresa do banco ter sido capaz de cumprir todos os compromissos assumidos perante a DG Comp (autoridade da concorrência da Comissão Europeia) na venda em 2017.”

O presidente executivo admite que terá de ser feito um esforço adicional para chegar ao ano de 2021 sem legado, “queremos absorvê-lo rapidamente. 2020 ainda é um ano que teremos de conciliar a limpeza do balanço com um banco inovador”. António Ramalho admite vender mais carteira de créditos para se aproximar do objetivo de atingir 5% de rácio do crédito não produtivo. O gestor assumiu ainda que 2020 será ainda um ano de perdas no legado passado do antigo Banco Espírito Santo e assumiu que foi “uma década perdida” para esta empresa.

No entanto, não se comprometeu quando foi questionado sobre se o Novo Banco iria voltar a recorrer a este mecanismo, ao abrigo do qual o Fundo de Resolução, uma entidade pública financiada pelos bancos, tem de acorrer a chamadas de capital, nos termos do contrato de venda à americana Lone Star.

Ainda sobre a “década perdida” e os créditos e operações que ainda geram perdas no balanço do Novo Banco, António Ramalho adiantou que a auditoria especial pedida pelo Fundo de Resolução arrancou em novembro passado, com a chegada de um conjunto de auditores da Deloitte que está a trabalhar “intensamente” dentro da instituição para recolher toda a informação necessária. Em causa estão decisões de investimento, desinvestimento, crédito e sua recuperação no período entre 2010 e 2018, apanhando já a gestão do Novo Banco e do própria equipa liderada por Ramalho. “É um tremendo trabalho” que, tanto quanto sabe, estará em linha com o calendário apontado que era o final de maio.

Ramalho satisfeito com interessados no Novo Banco, mas lembra que alguns chegaram atrasados

O presidente do Novo Banco foi ainda questionado sobre manifestações potenciais de interesse na compra da instituição, em particular pelo espanhol Bankinter. Ainda que seja matéria para os acionistas, António Ramalho regista:

“Três anos depois, todos parecem interessados, os que o dizem e se calhar também os que não o dizem, isso satisfaz a administração, mas há bastantes pessoas que chegaram atrasadas (numa referência à falta de interessados no processo de venda realizado em 2017)”.

António Ramalho destacou durante a apresentação dos resultados que o banco cumpriu os objetivos do plano de reestruturação acordado com a Comissão Europeia. “Se havia dúvidas sobre a capacidade de cumprir os compromissos, as respostas estão dadas”,  afirmou o presidente executivo da instituição esta sexta-feira.

Um dos indicadores que permitiu consolidar esta viragem nos resultados da atividade “normal” do banco, e que se tinha iniciado já em 2018, foi o crescimento em 104 milhões de euros da margem financeira, que traduz medidas de otimização, mas também do crescimento da carteira de crédito concedido às empresas, habitação e consumo. As comissões cresceram 3,7% e os resultados das operações financeiras progrediram 41,8 milhões de euros.

Já o Novo Banco Legacy (legado), que concentra os ativos mais problemáticos que vieram do tempo do BES, registou um prejuízo de 1234,4 milhões de euros, que traduz uma melhoria de 7,4% face a 2018. Para estas perdas contribuíram as vendas de carteiras de crédito, bem como a desvalorização de ativos, incluindo créditos e imóveis.

Apesar dos prejuízos reconhecidos na sequência destas alienações, feitas a um valor abaixo do balanço, as operações permitiram reduzir em mais de metade — 58% ou mais de seis mil milhões de euros — o total dos ativos de mais alto risco e que no final de 2019 se fixaram em 4,482 milhões de euros. Em dois anos, a carteira Legacy (herança) encolheu mais de 10 mil milhões de euros e acabará por ser reabsorvida pelo Novo Banco recorrente. Para esta diminuição, contribuíram 10 operações vendidas ou fechadas fora de Portugal, a redução em 6,684 milhões de euros do crédito não produtivo, o que passou pela venda de carteiras e reestruturações de ativos e e de imóveis.

Sobre os créditos em incumprimento dos ditos clientes famosos que foram retirados das carteira vendidas por imposição do Fundo de Resolução, o gestor assinalou que se optou por seguir a via judicial. Daqui a uns anos veremos qual seria a melhor solução, se a venda com perda que a gestão propunha, ou se a via judicial, rematou o presidente do Novo Banco.