É um clássico das discussões familiares: um serão de comunhão em torno de um educativo jogo de tabuleiro que inevitavelmente descamba porque alguém é acusado de batotice. Há décadas que o Monopólio tem os seus pequenos aldrabões, dos mais descarados aos mais sonsos. Mas “McMillions”, o documentário estreado em Fevereiro pela HBO Portugal, e que esta segunda-feira, 9 de março, chega ao último episódio, leva isto mais longe: durante 12 anos, o jogo do Monopólio disponível na cadeia McDonald’s, que prometia prémios de um milhão de dólares, estava dominado por um intrincado esquema de corrupção, que envolveu desde ex-polícias a membros vaidosos da Mafia. Tornou-se, à altura (estávamos em 2001), no maior caso de fraude nos Estados Unidos.

O pressuposto do passatempo promocional era simples. Cada vez que alguém comprava comida no franchising de hambúrgueres, recebia um selo com o equivalente a uma casa concreta de um tabuleiro de monopólio. Dependendo da casa, que funcionava no fundo como uma pequena raspadinha, podia receber desde batatas fritas grátis a avultadas somas de dinheiro. O departamento de Marketing da McDonald’s tinha acertado em cheio: as vendas disparavam de tal maneira sempre que estavam a disponibilizar o Monopólio que este se tornou numa promoção recorrente desde 1989 até 2001. Em Portugal, mais ou menos na mesma altura (final dos anos 90), existiu o mesmo concurso na mesma cadeia, tendo inclusivamente durado até 2010 – porém, com prémios bem menos espectaculares que não atiçaram o interesse de organizações criminosas.

“McMillions” conta com seis episódios, de quase uma hora cada. E pode, de início, parecer ter menor potencial de vício que outros documentários criminais, tão na moda em plataformas de streaming. Sem violência, sem psicopatas, sem crimes escabrosos, quase com a ideia de que ninguém se magoa – ou magoa-se “apenas” o maior gigante mundial da área da restauração, que não é propriamente uma instituição pela qual se nutra especial simpatia, entre polémicas e lucros avultados versus baixos salários. Terá sido exatamente esta ideia de “ó, na verdade não estou a fazer mal a ninguém” que terá resultado no variado naipe de cúmplices que entraram nesta espécie de crime em esquema de pirâmide. Existiam traficantes de droga, mas também existiam mães solteiras simplesmente em aflição para pagarem as suas contas. A todos neste grupo tão heterogéneo terá interessado a proposta do mastermind por trás deste esquema: o Tio Jerry.

[o trailer de “McMillions”:]

Ao contrário do que a alcunha possa dar a entender, Tio Jerry — Jerome P. Jacobson de seu nome — não era um elemento na Mafia, apesar de para este golpe ter subcontratado os serviços do mafioso Gennaro Colombo, de uma das maiores famílias do crime a operar nos Estados Unidos. Era um ex-polícia, com uma vida repleta de casamentos falhados e problemas de saúde, que trabalhava como chefe de segurança na empresa que auditava o Monopólio, a Simon Marketing. Com acesso privilegiado aos selos vencedores desde o momento da sua impressão, Jacobson desenhou o esquema logo desde o início. Se é uma daquelas pessoas que vê um passatempo e pensa com um encolher de ombros “ó, a mim nunca sai nada”, aqui tinha toda a razão: nenhum selo de quantia mais avultada chegou sequer a entrar nos restaurantes da cadeia. O público normal estava a jogar quanto muito para Happy Meals à borla, enquanto nas sombras Tio Jerry amealhou ganhos superiores a 24 milhões de dólares.

O esquema era relativamente simples: os falsos vencedores, escolhidos a dedo, iriam receber o prémio por parte da McDonald’s em prestações mensais. Jerome ficava com uma percentagem do total, que lhe devia ser paga à cabeça. Cada um teria uma morada falsa, para dar a ilusão de que os vencedores vinham de diferentes pontos do país. Os vencedores, porém, tinham de encetar em todo um teatro público, já que tinham de fazer parte das campanhas publicitárias da McDonald’s.

A um episódio do fim, o Tio Jerry ainda não apareceu na série – e recuso-me a ir ao Google spoilar a minha própria experiência como espectadora, desculpem lá. Mas outra figura central do caso recusou abertamente participar no documentário: Rick Dent, o sisudo agente de FBI que descobriu originalmente o caso e chefiou a investigação. No seu lugar, temos outros agentes relevantes, com especial destaque para o fascinante/irritante (acreditem, é ambas as coisas ao mesmo tempo) Doug Matthews, na altura um ainda jovem polícia com sede de grandes casos. Matthews parece uma caricatura de si próprio, e na verdade este é um dos aspetos diferenciadores de “McMillions”: é um documentário de um crime real com intervenientes que parecem personagens de sitcoms. “McMillions” tem, às vezes, muita graça sem fazer grande esforço por isso. Da viúva negra ao mafioso que regista um clube de strip como sendo uma igreja, há todo um potencial, como descreve do LA Times, disto parecer uma espécie de “Parks And Recreation”.

[a própria HBO lançou um podcast dedicado aos episódios de “McMillions”:]

Mesmo assim, este lado mais humorístico não tira tensão à série, cujos episódios acabam geralmente com bons ganchos. Não deixa de ser um dos maiores casos de fraude de sempre nos Estados Unidos. Porque não é, então, um caso com maior conhecimento público? Porque o julgamento de Jerome P. Jacobson começou a 10 de Setembro de 2001, na véspera do maior acontecimento mediático de sempre. Ficou perdido nos escombros das Torres Gémeas.

Porém, teve um regresso à berlinda com uma reportagem exaustiva do Daily Beast, publicada no verão de 2018. O artigo, chamado “How An Ex Cop Rigged McDonald’s Monopoly Game And Stole Millions” (“Como Um Ex Polícia Manipulou O Jogo De Monopólio Da McDonalds E Roubou Milhões”), precipitou uma guerra dos principais estúdios pelos direitos cinematográficos. Ganhou a ex-20th Century Fox, actualmente 20th Century Studios, que entregou a realização a Ben Aflleck e o protagonismo ao eterno comparsa Matt Damon. Estão neste momento ainda a aprimorar o guião, alegadamente escrito por Paul Wernick e Rhett Reese, a dupla da saga “Deadpool”. “McMillions” tem assim tudo para ser uma espécie de “Oceans’ 11” com o glamour de um Big Mac, mas com muito mais graça.

Susana Romana é guionista e professora de escrita criativa