Antes da pandemia da Covid-19, um guionista escrevia um filme ou uma série de ficção, enviava para concursos, realizadores ou canais de televisão e ficava à espera de resposta. Um feedback que podia esperar semanas, meses ou até mesmo anos até se tornar em algo concreto. Mas pelo menos até todos voltarmos a uma possível ideia de normalidade, o mundo da televisão também mudou as regras do jogo.

Tanto que a RTP1 vai estrear esta terça-feira, dia 28 de abril (21h30), a primeira série de ficção portuguesa, de seis episódios, feita a partir de casa em ambiente de pandemia (uma conjugação de fatores difícil de superar): “O Mundo Não Acaba Assim”. Os criadores, todos amigos, que também são realizadores, autores e guionistas, são Nuno Duarte, Nuno Duarte, Tiago R. Santos, Filipe Homem Fonseca, Luís Filipe Borges e Artur Ribeiro. Sendo que cada um dos seis episódios vai ter 25 minutos, também terá vários atores a participar, como José Lagarto, Teresa Tavares, Jorge Vaz Gomes, Sofia Nicholson ou Mafalda Rodrigues.

Mas antes do salto para a televisão, este autodenominado “coletivo criativo” que é, principalmente, um grupo de amigos de jantaradas e copos, já tinha criado “As Chamadas para a Quarentena”, um projecto semelhante ao que se estreia agora na RTP, só que para as redes sociais.

“Isto começou pelo tédio e pelo desespero e também pela necessidade porque eu, o Artur, o Nuno, o Borges e o Filipe somos amigos e costumávamos beber uns copos. Com a pandemia criámos um grupo de whatsapp e o Nuno sugeriu que devíamos escrever algo para nos manter ocupados”, começa por contar Tiago R. Santos, guionista, ao Observador.

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Um exercício de escrita que se tornou numa vídeochamada por Skype e que acabou em curtas-metragens sobre “pequenos momentos da vida nesta quinta dimensão que vivemos, para, mais tarde, nos lembrarmos do que foi”, afirma o guionista.

Cinco argumentistas, três histórias por cabeça e estava lançado mais um dos vários projetos que surgiram no meio desta quarentena. Depois, Artur Ribeiro, realizador, decidiu tentar a sorte para perceber se havia potencial na coisa. E teve, já que chegou às mãos de José Fragoso, diretor de programas da RTP. “Nunca foi nossa intenção, porque esta hipótese da RTP só aconteceu no nono episódio. Queríamos era exercitar o músculo criativo, arranjar formas de não estar parado”, diz Tiago R. Santos.

E o que mudou? Bom, para já vai ter um horário fixo, pelas 21h30 ou seja, obriga a um maior cuidado na linguagem. Depois, se inicialmente cada guionista escrevia três episódios (num total de 15), agora, um episódio terá cinco segmentos, num total de seis, portanto, o trabalho passou para o dobro. Existindo uma “urgência criativa”, não há muito tempo para se discutir todos os pormenores. Mas há uma certeza: cada argumentista tem o seu estilo, nem todos os episódios podem ser uma comédia ou um drama. Os géneros podem, por isso, variar. “Criámos uma unidade de tema em cada um dos episódios para haver uma coerência dramática, mas é mais para nós. Portanto, há a maior liberdade criativa possível“, descreve.

Quanto aos atores, a lógica é a mesma da websérie: tratam do guarda roupa e fazem de diretores do fotografia. No entanto, a passagem para a RTP pedia um upgrade no nível de produção, o que faz com que seja necessário que uma equipa se desloque a casa de cada um dos atores que vai participar, cumprindo todas as regras de proteção sanitária e deixando à porta um tripé com um telemóvel que filme em HD — sendo que há outro telemóvel onde os cinco autores acompanham todo o processo de filmagens através da chamada por Skype.

“É interessante este processo porque diz algo sobre este momento e porque, como foi  criado um ‘colectivo criativo’, dominámos o processo do início ao fim por tentativa e erro. Mas, depois disto passar, espero que se apoie a grande ficção portuguesa e que se deem as condições para que isso aconteça”, comenta.

Porque habitualmente, para um guionista, o “tempo de espera é sempre o pior”, porque se está à procura de apoios e há uma necessidade de contar uma história no presente. Por agora, escreve-se para passar na televisão uma ou duas semanas depois. Até porque não sendo “nada disto normal”, esta foi uma ideia para “afastar a insanidade e fingir que está tudo bem”, finaliza Tiago R. Santos. Só que quando tudo ficar bem outra vez, o mundo da televisão, que não acabou assim, terá de voltar ao que era antes, com cenários reais, atores a contracenar e realizadores a discutir com guionistas. Tudo à distância de um cumprimento e não tanto de um ecrã. Ou será que não?