O jornal norte-americano The New York Times publicou este domingo na primeira página uma homenagem às vítimas mortais da Covid-19, que nos Estados Unidos são já quase 100 mil.

Ao contrário do que acontece habitualmente, a primeira página do Times não inclui títulos, fotografias nem variedade de temas: apenas uma extensa lista de nomes, idades e pequenos obituários de mil norte-americanos que morreram infetados com o coronavírus.

A primeira página traz apenas um título, no topo, ocupando toda a largura do papel: “Mortes nos EUA aproximam-se das 100 mil, uma perda incalculável“.

Abaixo, o jornal escreve: “Eles não eram simplesmente nomes numa lista. Eles éramos nós”. Num pequeno parágrafo que introduz a lista que ocupa depois toda a página, lê-se que “os números não podem, por si, medir o impacto do coronavírus na América”.

As mil pessoas que aqui estão refletem apenas 1% do total. Nenhuma delas era um número“, acrescenta o jornal.

Num artigo sobre o processo por detrás desta primeira página, lê-se que os editores do The New York Times discutiram várias possibilidades para assinalar o “marco sombrio” dos 100 mil mortos no país.

Simone Landon, editora assistente no departamento gráfico, queria representar o número de uma forma que mostrasse tanto a vastidão como a variedade das vidas perdidas“, diz o jornal.

Desde o início, esteve fora de questão utilizar apenas uma referência estatística — por exemplo, colocando 100 mil pontos negros na primeira página. “Não nos diz grande coisa sobre quem eram estas pessoas, as vidas que viveram, o que isto significa para nós enquanto país“, defende Simone Landon.

Foi Landon quem teve a ideia de recolher notícias de jornais de todo o país à procura de informações públicas sobre as pessoas concretas que tinham morrido. A tarefa foi feita por Alain Delaquérière, investigador do jornal, que “compilou uma lista de perto de mil nomes, de centenas de jornais“.

A lista que integra a edição deste domingo do Times foi depois produzida por uma equipa de jornalistas a que se juntaram três jovens estudantes de jornalismo. O objetivo foi retirar das notícias sobre as vítimas uma frase que sublinhasse as características únicas de cada uma.

Por isso, é possível ler referências como: “Alan Lund, 81, Washington, maestro com ‘o ouvido mais incrível'” ou “Romi Cohn, 91, Nova Iorque, salvou 56 famílias judias da Gestapo”.

Há duas semanas, o jornal brasileiro O Globo tinha feito uma primeira página semelhante, quando o Brasil ultrapassou as 10 mil mortes.

Na primeira página do dia 10 de maio, o jornal brasileiro escreveu “10 mil histórias” e justificou a decisão editorial: “Para que a dimensão humana da tragédia não se perca na frieza das estatísticas, o Globo homenageia as vidas reunidas em um memorial virtual“.

Também nesta primeira página, o jornal reuniu pequenos detalhes únicos das vidas de cada uma das vítimas. “Não era só dentista, era criadora de sorrisos”, lê-se na referência a uma das vítimas. “Estava muito ansioso para se aposentar, falava muito nisso, estava perto já, mas não deu tempo“, diz o obituário de outra.