O presidente da República de Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca, denunciou  esta quarta-feira”indícios claros de tentativas de influenciação de jovens cabo-verdianos” por “ideias contrárias aos princípios e valores democráticos”, difundidas em “períodos de crise social”.

Jorge Carlos Fonseca falava durante a sessão solene do Dia da Liberdade e da Democracia, que decorreu na Assembleia Nacional de Cabo Verde, 30 anos após as primeiras eleições livres neste país africano.

Segundo o chefe de Estado, “os períodos de crise social e as inevitáveis limitações ao normal funcionamento dos sistemas democráticos são aproveitados para a difusão de ideias contrárias aos princípios e valores democráticos e até pelo recrutamento de pessoas, muitas vezes, em situação de vulnerabilidade e desesperança”.

Essas perspetivas estão em crescimento em várias regiões do globo e existem, também, indícios claros de tentativas de influenciação de jovens cabo-verdianos, por arautos dessas propostas, nuns casos de peito aberto, noutros dissimulados sob máscaras de democracias de tipo novo, afinal de contas, bem nossas conhecidas, sobremaneira pelos seus resultados terríveis para a vida, para a liberdade, para a autonomia, mas, igualmente, para a coesão social e as condições de vida das pessoas”, prosseguiu.

E aproveitou para sugerir que este seja um debate para “as eleições que se avizinham”, uma vez que Cabo Verde vai ter eleições legislativas em abril e presidenciais em outubro.

E vamos ter essas duas eleições no quadro de uma epidemia. Esperemos que a situação esteja melhor do que a de hoje, mas ainda teremos de cumprir normas restritivas de segurança sanitária, tais como o uso de máscaras, a higienização permanente das mãos, dos equipamentos de locais de trabalho e o distanciamento físico”, defendeu.

Para Jorge Carlos Fonseca, “os atores políticos, partidos e candidaturas têm um papel de relevo a desempenhar neste quadro muito especial”. #É certo que todos têm o direito inalienável de esclarecer, informar e de convencer os eleitores do mérito das suas propostas e intenções, condição indispensável para uma escolha consciente”, disse.

Mas ressalvou:

“A situação pandémica do país e o forte impacto que um aumento significativo de casos pode ter na nossa estrutura de saúde, no processo de recuperação económica e no restabelecimento progressivo da normalidade social, chama-nos à responsabilidade de refletirmos e tomarmos providências adequadas em relação a cada ato ou evento que possa pôr em causa o caminho que já percorremos e os ganhos obtidos nesse difícil combate”.

Três décadas após as primeiras eleições livres em Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca acredita que “um novo e importante desafio se impõe à geração obreira da democracia: a forma como transmitir às novas gerações o valor e a importância da liberdade conquistada, numa altura em que a mesma constitui uma realidade por todos dada como adquirida”.

Os mais novos, os que já nasceram em plena democracia, tendem a pensar que foi sempre assim (e não foi) e que vai ser sempre assim, o que pode não ser”, adiantou.

Neste que foi o seu último discurso como Presidente da República, funções que desempenhou durante dois mandatos, Jorge Carlos Fonseca sublinhou que “a democracia é e deve continuar a ser uma conquista, uma construção, permanente e paciente, de todos os cabo-verdianos, unidos na vontade de fazer de Cabo Verde um país de mais liberdades, de mais justiça, de menos desigualdades (sociais, regionais e de género, nomeadamente) e mais bem-estar”.