Vegetação difícil de ultrapassar, mais jogos de espelhos — a sugerir dimensões internas de discussão — e luzes mornas. Ambiente sugerido pelo teledisco de “In Between” — canção-título do novo disco de P.S. Lucas, músico açoriano e membro de Medeiros/Lucas que agora decidiu caminhar a solo — e que muito diz sobre o tecido narrativo e sonoro deste objeto de dez temas que esta sexta-feira, dia 15, é editado. Um punhado de canções simples e bem escritas, espécie de contos cantados, talvez algures entre a imperfeição e a procura de algo melhor, uma folk a querer ser jazz, sem manias.

E ainda que este seja o primeiro disco de P.S. Lucas, é difícil negar a importância do que ficou para trás no estabelecimento deste novo alter-ego. Que é mais um não-alter-ego:

“Esta é a primeira vez que não há um alter-ego, são as minhas iniciais: Pedro Silveira [Lucas]. E Pedro Silveira é um poeta açoriano, ficava mal e Pedro Lucas já existe um músico em Lisboa chamado Pedro Lucas, também já editou discos a solos. Então ficou P.S. Lucas, assim uma espécie de T. S. Eliot. Há um lado que é super natural, que tem que ver com esse percurso que fui fazendo e coisas que fui experimentando, natural no sentido da confiança e de me sentir preparado para o desafio, que implicou ter aulas de canto e dedicar-me um bocadinho mais à parte da escrita”, explica.

A capa de “in Between”, o primeiro álbum a solo de Pedro Silveira Lucas

Esse percurso fez-se sobretudo por incursões eletrónicas no cancioneiro oral açoriano no projeto O Experimentar Na M’Incomoda e na abertura da composição e produção numa profunda relação com a natureza assinalada em Medeiros/Lucas. Nunca se começa do zero. In Between foi gravado por Eduardo Vinhas no início de 2019, em Mértola, com uma formação base onde encontramos P.S. Lucas na guitarra e ainda David Eyguesier (guitarra elétrica), João Hasselberg (contrabaixo) e João Sousa (bateria), um trio de músicos com ligações ao jazz. Os restantes convidados são: Catarina Falcão (Golden Slumbers/Monday), Florent Manevoh, Jerry The Cat, Augusto Macedo, Ian Carlo Mendoza, My Larsdotter (My Bubba). E ainda apoio conceptual — se assim lhe podemos chamar — de Casper Clausen, membro dos Efterklang e amigo de Pedro Lucas.

A primeira ideia para este trabalho é difícil de localizar, até porque há canções que vêm de 2011 e 2012, e o tempo também se acumula e também faz parte:

“Em 2018 foi quando decidi pegar nisto a sério e compor mais afincadamente. Mas é isso, entre guitarradas e entre algumas canções mais envergonhadas, fui acumulando algum material. E acho que isto coincidiu com o momento de lançamento do último disco de Medeiros/Lucas, o Sol de Março [2018], em que decido dedicar-me a uma coisa a solo. Das guitarradas acho que me envergonhei um bocadinho, talvez porque se há coisa que Portugal tem mesmo é guitarristas bons: Norberto Lobo, Tó Trips, Filho da Mãe, Ricardo Rocha. É um campo um bocadinho mais difícil de uma pessoa se meter. Então decidi fazer canções, que acaba por ter o mesmo exercício de inconsciência, e fui por aí talvez porque é algo que já trabalhei mais”, conta.

E quando há pouco se lia que Lucas teve de ter aulas de canto, não era brincadeira do músico, como o próprio assegura: “Não quero tocar standards de jazz, nem ser o Chet Baker, mas ter o mínimo de técnica vocal. Precisava muito disto, eu era muito desaconselhado a não cantar, por colegas de banda, amigos, coisa ao estilo ‘aquelas vozes que tentas fazer lá atrás do Carlos Medeiros… Se calhar não’. Então decidi que para fazer isto precisava de um incremento técnico. O Augusto Macedo, teclista de Medeiros/Lucas, que no fim, já estava o disco gravado, veio meter um Rhodes [piano eléctrico] e quando ouviu as gravações da voz disse: ‘Isto és tu?’ Ele era um daqueles que tinha de sofrer comigo a cantar nos ensaios quando o Carlos Medeiros estava em Lisboa e era eu que tinha de conduzir. Mas o Macedo ficou tão entusiasmado com a minha voz que também pensou em ir ter aulas de canto. Epá, isto se calhar funciona mesmo, coisas assim.”

[“In Between”, a canção que dá título ao álbum:]

Aulas concluídas, confiança assumida, toca a fazer. E tanto se fez, como acontece em tantos processos artísticos em que a repetição é fórmula central, que começou a desgastar — mas o que cansa também se resolve rápido: “Fomos gravar isto no início de 2019 e eu já estava um bocado saturado de as ter cantado tanto tempo. O Casper Clausen ajudou-me na parte da pré-produção, sobretudo na questão vocal, uma espécie de consultoria muito light, estarmos juntos a beber uma cerveja ao serão, houve um dia menos light em que ele me meteu no estúdio dele a cantar a mesma canção umas 50 vezes. E depois quando me juntei com a banda, foi um processo muito mais rápido, porque aí queria qualquer coisa mais instintiva e fresca. Acho que fizemos dois pequenos ensaios e fomos para Mértola e foi tudo gravado live: contrabaixo, baterias e guitarras. À antiga, um take, máximo dois”, diz.

Assim sendo, há que perguntar a Lucas se, quando se decidiu por esta formação, já pensava num som específico: “Não, é um bocadinho mais inconsciente que isso. Ou melhor: sim e não. Estamos a falar de músicos com uma sensibilidade muito especial, uma capacidade técnica muito grande — só depois é que pensei nisso, mas acho que todos têm um mestrado em jazz — e com uma sensibilidade enorme. Há vários temas que são só guitarra e contrabaixo. E isso foi uma das discussões que tive com o Casper, porque ele queria, basicamente, que eu gravasse isto com guitarra, voz e talvez uns violoncelos ou assim, uma coisa super limpa, e eu não tive coragem. Achei que era talvez um bocadinho exposto para um primeiro disco. Não é expor o meu interior, porque isso está nas letras, mas expor, possivelmente, as minhas fragilidades técnicas nessa parte da voz. Dito isto, havia algumas ideias do que queria, peguei nessa ideia do Casper de ter algo muito simples e aproveitei isso para alguns temas. Mas a ideia foi experimentar”, responde.

Independentemente dos takes necessários, de uma maior ou menor celeridade, de um cabelo mais longo ou mais curto, de uma camisa mais aberta ou fechada, estamos In Between, um título que serve quase toda a leitura, mas que não deixa de possuir aquele sentimento de impossibilidade de clarificar, pode ser muito, mas não saberemos concretamente o que é. E para falarmos do título convém também que falemos da capa do disco, uma fotografia que promove a reflexão — pelo menos é o resultado de olharmos uma imagem com um carro parado à beira da estrada, de bagageira aberta, e um homem a meio, In Between, a estrada.

“O título vem pela canção, que ia ser single. E sim, é bastante sugestivo, é extremamente ambíguo, cabe um mundo inteiro lá dentro, portanto acaba por ter esse lado do vale tudo, há uma miríade de interpretações que se podem fazer. E depois também se relaciona com a fotografia da capa, que foi a minha namorada que tirou e quando a vimos revelada eu disse: ‘Acho que isto dá capa de disco.’ E In Between também se liga àquela fotografia, acho que funciona bem”, confirma o açoriano.

“Tento ter uma moral, ser solidário, ser tolerante, mas não me apetece estar a criar canções a dizer aos outros o que devem ser. Se isso sair da canção pelo movimento da história, tudo bem”

As letras remetem-nos para uma ligação térrea, os troncos partidos, os tais espelhos que apontam para dentro, um desejo de ar-livre — não tanto como atividade ligeira, mas como solução obrigatória para algumas feridas. “Se há coisa que acho que é mais ou menos transversal é uma certa ideia de imperfeição, de assumir que as personagens não são perfeitas e às vezes até são bastante mesquinhas. Mas também não são diabos nenhuns. Há uns tempos um amigo enviou-me uma entrevista muito boa do Springsteen, onde ele fala da maneira como escreve e como cria as personagens das canções dele e que me ficou a ressoar muito porque ele verbaliza de forma muito melhor aquilo que eu já tentava fazer: não tento dar parangonas nem soluções a ninguém, acho que não faz falta nenhuma. O que gosto é de apresentar mais dimensões, não resolver, o Springsteen dizia isso, que as suas personagens são profundamente tridimensionais, que o operário não seja só um comunista, nem que o gajo rico seja só um gajo rico. Obviamente que tento ter uma moral, ser solidário, ser tolerante, mas não me apetece estar a criar canções a dizer aos outros o que devem ser. Se isso sair da canção pelo movimento da história, tudo bem. No fundo, é apontar ou identificar conflitos irresolúveis. Não quer dizer que as pessoas não os tentem resolver, claro”, teoriza.

E por falar em conflitos irresolúveis. Pedro Silveira Lucas é açoriano, o território onde o partido de André Ventura encontrou lugar numa solução governativa. E a política, a vida em sociedade, também fazem parte das preocupações de P.S. Lucas, as mesmas que lhe contaminam a criatividade: “No outro dia estava a ver o debate entre Ana Gomes e Marcelo Rebelo de Sousa. Marcelo dizia que não se pode marginalizar esse tipo de pessoas porque isso é dar-lhes força, Ana Gomes dizia que a democracia tem de ser intolerante com os intolerantes. Isto para mim é um conflito irresolúvel, acho que ninguém sabe neste momento como é que se resolve isto. Mas de uma coisa tenho a certeza: não é ostracizando as pessoas que apoiam o Chega que vamos resolver o que quer que seja. Não é ostracizando um racista de merda e deixando de falar com ele que vou fazer deste mundo um sítio melhor, ele existe na mesma. Como é que se lida com isto? É muito difícil”. E de que maneira, Lucas, de que maneira.