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No dia 8 de Novembro de 1951 (fará 70 anos no final de 2021), abriu em Lisboa o Cine-Teatro Monumental, um projeto do arquiteto Raúl Rodrigues Lima, que abrangia, no mesmo edifício, um cinema com 2170 lugares, um teatro para 1182 espectadores, um café e restaurante com o mesmo nome e uma sala de exposições. O filme inaugural do cinema foi “O Facho e a Flecha”, de Jacques Tourneur, com Burt Lancaster e Virginia Mayo, enquanto o teatro abria com a opereta  “As Três Valsas”, interpretado, entre outros, por Laura Alves, João Villaret, Tomás Alcaide e Santos Carvalho. Juntamente com o São Jorge, inaugurado um ano antes, o Monumental lança a “era das catedrais cinematográficas” em Lisboa.

[Veja Lisboa nos anos 50:]

Vinte anos mais tarde, o panorama da exibição de cinema na capital estava a mudar. A televisão tinha cada vez mais importância e influência na sociedade portuguesa, o preço dos bilhetes não parava de subir e a rentabilização dos grandes cinemas era cada vez mais problemática. Começavam a aparecer as salas de bairro de dimensão média, como o Mundial, em 1964, o Vox, em 1969, ou o Apolo 70, em 1971, assim como as salas-estúdio, dirigidas a um público mais restrito e cinéfilo, apreciador de “filmes difíceis”, como se dizia na altura. É o caso do Estúdio do Cinema Império, em 1964, e do Estúdio 444, dois anos mais tarde (este assim chamado porque tinha exatamente 444 lugares).

Foi esta nova conjuntura, aliada ao rápido e grande sucesso comercial do Estúdio do Império, concebida por Frederico George, e que se pagou em apenas dois anos de exploração, que fez com que Rodrigues Lima fosse chamado a planear uma sala estúdio no Monumental, em 1970. E fê-lo aproveitando o Salão de Chá do cinema, um dos espaços mais distintos do mesmo, já que na altura eram comuns os intervalos com 20 minutos e até mesmo meia hora nestas salas imponentes das grandes cidades europeias, dando tempo para os espectadores irem lanchar ou tomar café, fumar e conversar, confortavelmente instalados.

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E assim desapareceu o Salão de Chá do Cine-Teatro Monumental, que os tempos tinham tornado obsoleto (e deficitário), que Rodrigues Lima transformou numa simpática, moderna e confortável sala-estúdio, com lugar para 234 espectadores e uma programação específica para este modelo de exibição. A nova sala foi batizada Cinema Satélite, pois como se podia ler no seu programa inaugural, “a esta pequena sala de cinema tipo Arte e Ensaio chamamos Satélite, porque na realidade se trata de um satélite que vai viver na órbita do nosso Monumental”. Muitos lisboetas passariam também a chamar-lhe “o irmão mais novo do Monumental”.

[Veja o “trailer” de “Coisas da Vida”:]

O Satélite foi inaugurado faz 50 anos no dia 25 de Fevereiro de 1971, ano em que o seu “irmão mais velho” celebrava 20 décadas de existência. O filme escolhido foi  “Coisas da Vida”, de Claude Sautet, com Michel Piccoli e Romy Schneider, Prémio Louis Delluc 1970. Houve um  “cocktail” antes e a receita da sessão reverteu para a Cruz Vermelha Portuguesa. O filme estaria quase um ano em cartaz. Como escreveu Margarida Acciaiuoli no seu indispensável livro “Os Cinemas de Lisboa — Um Fenómeno Urbano do Século XX” (Bizâncio), “o Estúdio Satélite representava um esforço quer visava assegurar a sobrevivência do Cine-Teatro Monumental, ao mesmo tempo que ilustrava as suas dificuldades crescentes”.

Além do cinema, do teatro, do café e restaurante e da sala de exposições, o Monumental tinha agora na sua estrutura um estúdio. A sala grande continuava virada para o cinema de grande espectáculo para o grande público, enquanto que a pequena apelava aos espectadores dos filmes mais exclusivos e “autoristas”. Havia também, é claro, os omnívoros que frequentavam ambas. Nos anos antes da revolução de Abril, viram-se no Satélite, entre vários outros, obras de realizadores como Alain Tanner, Louis Malle, John Cassavetes ou Pier Paolo Pasolini, assim como reposições de fitas de Ingmar Bergman ou Fellini.

Depois do 25 de Abril de 1974, e extinta a Censura, passaram também pelo Satélite alguns dos filmes mais marcantes e controversos desses tempos desabridos. É o caso de “Irei Como um Cavalo Louco”, de Fernando Arrabal, cujas cenas iconoclastas e extremas provocaram acessos de vómito e debandadas na sala; de “O Cio”, de Paul Morrissey, que alguns foram ver pensando tratar-se de pornografia “hardcore”, originando cenas de gritaria com os outros espectadores, com ameaças de pancada à mistura; ou ainda do documentário “Eram os Deuses Astronautas?”, de Harald Reinl, baseado no livro do mistificador Erich von Daniken, e que esteve meses a fio em exibição no Satélite, sendo o maior sucesso da sala na altura.

[Veja o “trailer” de “O Cio”:]

Nascido no seio do Monumental, o Satélite viu o seu destino final ligado ao do colossal “irmão mais velho”. O projeto do arquiteto Rodrigues Lima (que morreria em 1980) de salvar o cinema, transformando-o num complexo de pequenas salas – de que aquela sala-estúdio passaria a fazer parte – e instalando lojas na entrada, não foi para diante. O teatro fechou no início de 1983, e o Monumental e o Satélite em Novembro do mesmo ano. A demolição veio em Abril de 1984 e os dois cinemas irmãos do Saldanha, o grande e o pequenino, caíram juntos. Mas continuam a existir nas recordações daqueles que os frequentaram e passaram lá muitas e muitas horas felizes.