“Sabemos que Shakespeare ocupa, na imaginação da humanidade culta, um lugar à parte” — escreveu Jorge de Sena com melíflua ironia — “mas em lugar de entendê-la na sua substância procuram maravilhar-se com o que lá não está (…) ou o que só eles creem nela descobrir”. Ora se “o maior escritor que a humanidade produziu” continua a projetar o seu vulto enorme sobre o mundo, mais de 500 anos após a sua morte, é porque ele era “teatro feito gente e sabia melhor que ninguém o quanto gente é teatro”, notava ainda Jorge de Sena, que nunca se cansou de admirar este poeta tornado dramaturgo e que traduziu, como poucos, tragédia e o mistério de uma humanidade sem bondade, presa entre os horrores convocados pelo desejo de poder e a melancólica fuga para a fantasia, único lugar onde o perdão e a redenção parecem ser possíveis.

É porque soube embrulhar estas pequenas e grandes tragédias, simultaneamente individuais e coletivas, numa poesia e numa musicalidade densas, onde ritmo e verbo servem de canal por onde flui um conhecimento complexo, feito de intuições, experiências, pensamentos abissais, que William Shakespeare continua a ser nosso contemporâneo e a falar ao século XXI, como falou ao Renascimento, pois apesar de construir mais sofisticados artefactos, o Homem continua igualmente preso às suas circunstâncias e ao seu carácter.

Este artigo é exclusivo para os nossos assinantes: assine agora e beneficie de leitura ilimitada e outras vantagens. Caso já seja assinante inicie aqui a sua sessão. Se pensa que esta mensagem está em erro, contacte o nosso apoio a cliente.