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A noite grande do bailecore de Pedro Mafama no Campo Pequeno

O músico lisboeta fez o seu maior concerto de sempre esta sexta-feira, quase um ano após o lançamento do álbum “Estava No Abismo Mas Dei Um Passo Em Frente” e do fenómeno do single “Preço Certo”.

Do palco ouviram-se rateres e sons cósmicos de naves espaciais. Pedro Mafama é um alienígena muito próprio que tem sabido conquistar o seu espaço
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Do palco ouviram-se rateres e sons cósmicos de naves espaciais. Pedro Mafama é um alienígena muito próprio que tem sabido conquistar o seu espaço

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Do palco ouviram-se rateres e sons cósmicos de naves espaciais. Pedro Mafama é um alienígena muito próprio que tem sabido conquistar o seu espaço

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Um ano depois do fenómeno de Preço Certo, single que elevou Pedro Mafama para um outro patamar de popularidade e o levou a furar noutros circuitos, o músico lisboeta apresentou-se na sua maior sala de sempre para um concerto de consagração de popularidade na noite desta sexta-feira, 10 de maio, no Campo Pequeno.

A palavra de ordem era bailecore — cruzar o imaginário de Estava No Abismo Mas Dei Um Passo Em Frente, o álbum editado no ano passado, repleto de marchas e rumbas, pop e popular, com um universo mais futurista e vanguardista. Os sintetizadores tocados por Lana Gasparøtti ganharam vertigem, vários temas tiveram direito a arranjos diferenciados e mais eletrónicos com efeitos disparados por Sónia Trópicos, o recurso estético do auto-tune foi aprofundado ao longo de uma série de canções. Do palco — onde havia uma estrutura de luz que aludia a essa velocidade e irreverência — ouviram-se rateres e sons cósmicos de naves espaciais. Pedro Mafama é um alienígena muito próprio que tem sabido conquistar o seu espaço.

A noite era de celebração — quase que já cheira a Santos Populares, precisamente o contexto em que este disco de Mafama foi apresentado pela primeira vez — e uma parte significativa do alinhamento recaiu naturalmente sobre Estava No Abismo Mas Dei Um Passo Em Frente, um trabalho alegre e descomplexado, que prolongou a narrativa do seu autor, embora a tenha levado por diferente caminhos sonoros.

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Passaram muitos meses desde o intenso (e querido) mês de agosto em que Pedro Mafama percorreu o país, muito à boleia de Preço Certo. Existe um antes e um depois do fenómeno deste álbum — e, em particular, do single — e o caminho singular que o artista trilhou reflete-se na multidão que esteve esta sexta-feira no Campo Pequeno. Muitos dos ouvintes de Preço Certo não se converteram em fãs o suficiente para virem a um concerto em nome próprio numa sala grande — e muitos dos que foram certamente que não captam todas as camadas e intenções dos audazes gestos artísticos de Mafama — e por isso o Campo Pequeno, longe de estar esgotado, poderia estar mais composto.

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Mas é impressionante perceber como Pedro Mafama — artista auto-construído no seio da música urbana emergente e independente, das ruas de uma Lisboa típica e cosmopolita, tanto herdeiro dos Buraka Som Sistema como do trap de Atlanta — consegue juntar esse público jovem e urbano mais óbvio com crianças, pessoas de meia-idade ou idosos, esmagando barreiras entre classes económicas, etnias e contextos sociais. A abrangência é impressionante, mesmo, lá está, que nem todos se identifiquem ou assimilem todos os (muitos) detalhes que formam esta obra.

Canções como Estrada, Marcha Bonita ou Golo! foram especialmente celebradas, com Mafama a deixar para o último segmento algumas das principais pérolas do disco, desde Vida Airada a Santo, passando por Estranha Magia. Aproveitando o espetáculo que era, revisitou a sua obra como nunca e foi lá atrás — mesmo lá atrás — recuperar o seu nome Pedro Simmons, com que começou a fazer música enquanto rapper, já a maquinar uma série de experiências inusitadas, para cantar uma letra desse tempo a cappella. Lacrau, Jazigo ou Não Saio foram outros dos temas marcantes que não podiam deixar de estar presentes.

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Por Este Rio Abaixo, o mais fatídico e afadistado primeiro álbum, também foi lembrado através de faixas como Borboletas da Noite e Estaleiro. A versão de Exagerado, do malogrado cantor brasileiro Cazuza, trouxe um aroma carioca ao Campo Pequeno, até para mostrar que a visão artística de Mafama não se cinge a fronteiras convencionais. E, claro, houve espaço para estrear ao vivo as duas novas canções que recentemente fizeram de Estava No Abismo Mas Dei Um Passo em Frente um disco deluxe.

Sem Ti é uma canção de amor com uma desavergonhada toada pop; Abismo evoca uma bossa nova que descamba numa explosão sonora que terá surpreendido os menos conhecedores da sua obra. “Muita gente tem comparado este tema com o meu álbum anterior por ser mais dramático. Por um lado, é verdade. Por outro, antigamente estava muito fechado sobre os meus sentimentos e esta é já a perspetiva de quem consegue comentar o mundo, numa altura de catástrofe e guerra, o que também é importante”, explicou sobre a nova faixa.

No mundo de Mafama, o fado, as marchas, o cante alentejano e a música de baile cruzam-se naturalmente com os balanços da kizomba e a alma da música cigana, embrulhando tudo com uma abordagem pop — também influenciada pelo hip hop e pela música urbana global — que refletem esta cultura bonita da mistura, na qual há muito mais pontes do que muros, e que, apesar de todas as contradições, acaba por atravessar Portugal de forma transversal. “Viva toda a cultura portuguesa!”, exclamou. Embora haja melodias simples e cativantes, não falta espaço para momentos mais exigentes e exploratórios. O equilíbrio é bem doseado e, acima de tudo, raro no panorama musical nacional. Haverá neste momento música pop portuguesa mais arrojada, original e importante do que esta?

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Numa sala visualmente difícil de trabalhar — é um desafio desligarmo-nos dos imensos motivos taurinos que compõem a arena do Campo Pequeno — o desenho de luz foi uma das componentes mais bem conseguidas da performance. Os lasers e a intensidade cromática deram corpo e vida a esta experiência bailecore, que também evidenciou um Pedro Mafama maduro e calejado em palco, fruto da experiência acumulada do ano passado. Na plateia, houve espaço para cachecóis personalizados e um espontâneo comboio popular que percorreu a sala, demonstrando como havia uma sintonia e uma reciprocidade calorosa entre palco e público.

Preço Certo, claro, afigurou-se como o momento mais esperado da noite para muitos. Grande parte da bancada levantou-se — ou pelo menos ergueu os telemóveis — para “mandar um beijinho” para alguém e terminar o baile com chave de ouro, qual grande montra final. Do palco, o músico foi distribuindo beijinhos e afetos, fazendo as delícias da audiência. A antecipar um pequeno encore, escutou-se “é barulho, é barulho, chamem o Mafama” — rumba portuguesa criada pelo músico cigano DJ Zézinho que deveria obrigatoriamente estar editada e disponível para todos ouvirem. Pedro Mafama lá voltou para entoar uma vez mais a sua Estrada, single-charneira que representa toda a sua intrepidez artística e mensagem de inclusão, mostrando que ainda há tanto caminho para percorrer nesta (bonita) história.

 
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