Caroline Darian, filha de Dominique Pelicot, condenado a 20 anos de prisão pela justiça francesa por ter drogado a mulher, Gisèle, para a violar e deixar ser violada por dezenas de desconhecidos, diz que o pai é um “homem perigoso” e que “devia morrer na prisão”.

Num excerto de uma entrevista à BBC, que será divulgada na íntegra na segunda-feira, Caroline Darian defende que o pai “não está doente” e “sabia perfeitamente” o que estava a fazer ao longo dos anos em que drogou e violou Gisèle. “Quando olho para trás, não me lembro do pai que pensava que ele era. Olho diretamente para o criminoso, o criminoso sexual que ele é”, afirma, acrescentando que embora tenha o ADN de pai é “totalmente diferente” dele.

Quanto à mãe, CarolineDarian diz que está “exausta” do julgamento, que foi muito mediático e durou mais de três meses, mas também “a recuperar”. Na mesma entrevista, a mulher de 46 anos, que publicou um livro intitulado Et j’ai cessé de t’appeler papa (E Deixei de Te Chamar Papá, título com que chegará ao mercado português a 11 de fevereiro pelas mãos da editora Guerra e Paz), recorda o momento em que a mãe lhe contou que estava a ser drogada com ansiolíticos pelo marido e violada tanto por ele como por dezenas de desconhecidos recrutados na internet.

De não poder resistir até se tornar um símbolo de resistência. Gisèle, a mulher violada em série pelo marido, condenado a 20 anos de prisão

“Ela contou-me que descobriu naquela manhã [em novembro de 2020] que Dominique a tinha drogado durante cerca de 10 anos para que diferentes homens a pudessem violar. Naquele momento, perdi o que era uma vida normal”, conta. “Lembro-me que gritei, chorei e até o insultei. Foi como um terramoto. Um tsunami”, acrescenta.

De seguida, Caroline Darian recorda que também foi chamada pelas autoridades para ver duas fotografias encontradas no computador e no telemóvel do pai em que estava parcialmente nua (só com uma t-shirt e roupa interior). Primeiro, não se reconheceu: “Vivi um efeito de dissociação”, conta. “Depois, o agente da polícia disse: ‘Olha, tens a mesma marca castanha na bochecha… és tu’. Nessa altura, olhei para as duas fotografias de forma diferente… Estava deitada sobre o lado esquerdo, como a minha mãe em todas as fotografias dela”, lembra.

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Durante a entrevista, Caroline Darian afirma ainda estar convencida de que também foi abusada sexualmente pelo pai, acusações que Dominique Pelicot tem vindo a negar: “Sei que ele me drogou, provavelmente para abuso sexual. Mas não tenho provas. E isso acontece com quantas vítimas? Não se acredita nelas porque não há provas. Não são ouvidas, não são apoiadas.”

De “papá” a “progenitor”. As revelações da filha de Gisèle Pelicot que vive sem saber se foi abusada sexualmente pelo pai

Em dezembro, depois de ser condenado a 20 anos de prisão, Dominique Pelicot decidiu não recorrer na sentença. Já Gisèle tornou-se um símbolo de resistência para as mulheres (particularmente para as vítimas de abuso) não só em França como no resto do mundo.