Se neste campeonato milhões garantem que Deus é brasileiro, só um Papa argentino poderia equilibrar a balança. No dia em que se anunciou a sua morte, também o mundo do futebol chora a morte de Jorge Bergoglio, o apaixonado pela bola, o 266.º Papa que era também o sócio número n.º 88.235 do Clube Atletico San Lorenzo de Almagro, que colecionava camisolas de clubes, que incentivou o modalidade no feminino, que apertou a mão a lendas e que torceu pelas divisões mais humildes. Manchete também nos principais diários desportivos, a despedida ao “Papa dos últimos”, como lhe chamou a La Gazzetta dello Sport, faz-se simbolicamente com uma pausa nos jogos.

Da série A italiana ao campeonato Argentina, os desafios desta segunda-feira foram adiados, equipas como o Palermo vão doar alimentos ao centro de abrigo que o pontífice visitou em tempos, as redes sociais enchem-se de palavras solenes, e na casa de partida a mensagem especial veste os tons azulgrana e deteta profecias. “Nunca foi apenas mais um e sempre foi um dos nossos. Cuervo [nome dado aos adeptos do clube] desde criança e como homem… Cuervo como sacerdote e cardeal… Cuervo também como Papa…”​, escreveu o San Lorenzo, por quem Francisco torcia desde os tempos de criança, ainda a equipa de Buenos Aires jogava no estádio Viejo Gasómetro. O clube não descarta aliás vir a dar o nome de Bergoglio ao seu estádio, mas por enquanto os hinchas locais estão mais entretidos com uma coincidência de ordem mística que já viralizou, nota o El Clarin: “O seu número de sócio é 88.235. O Papa morreu aos 88 anos às 2h35, hora Argentina. 88.235″.

Curiosamente, o San Lorenzo foi fundado em 1908 por um padre católico, Lorenzo Massa, que permitia aos garotos disputar partidas de futebol no espaço da igreja, depois de um deles quase ter sido morto por um elétrico enquanto jogava na rua. “Sempre gostei de jogar futebol, não importava que eu não fosse muito bom. Em Buenos Aires, aqueles que eram como eu eram chamados de ‘pata dura’. É como ter dois pés esquerdos. Mas joguei. Muitas vezes era guarda-redes”, explicaria o Papa oito décadas depois na autobiografia Esperança (2025), escrita a partir de conversas com o jornalista italiano Carlo Musso.

Uma das primeiras equipas do San Lorenzo, com o padre Massa

O pai de Jorge, Mario Giuseppe, jogara basquetebol no mesmo clube, levando o então jovem Jorge ao estádio sempre que possível para ver a equipa do bairro de Boedo. Em 2008, quando ainda era arcebispo, foi segundo o El Clarín o sacerdote responsável por celebrar a missa em ação de graças pelo centenário do clube. Na sequência desse momento, Bergoglio recebeu o cartão de sócio do clube de Almagro. Haveria de circular com compreensível livre trânsito, até ao dia em que sentiram que só com um milagre o San Lorenzo melhoraria. No rescaldo da morte do pontífice, é recordado o episódio em que o antigo técnico Alfio “Coco” Basile dispensou as bênçãos “azaradas” de Bergoglio e correu com o sacerdote do balneário, já que a equipa não ganhava nem com rezas.

Mais do que ferrenho, que ao longo do seu pontificado recebeu no Vaticano e encontrou-se com várias lendas e delegações do futebol, Francisco era visto no país natal como autêntico talismã, ao nível local e no efeito aplicado a seleção alviceleste. Em 2013, ano em que foi eleito, o presidente do clube endereçou-lhe uma carta de felicitações. Francisco retribuiu a mensagem, evocando nessa missiva o título que o San Lorenzo conquistara 1946, e como o clube do coração trazia boas memórias de infância, quando levava de vencida os rivais Boca, River, ou Racing. “Lembro-me muito bem e com prazer quando minha família ia ao Gasómetro. Em particular, o campeonato de 1946, aquele que venceu o meu San Lorenzo. Lembro-me daqueles dias que passei a ver aqueles jogadores a jogar e da alegria das crianças quando voltávamos para casa. A alegria, a alegria no rosto das pessoas, a adrenalina no sangue”, confessaria Bergoglio numa entrevista de 2021 para o italiano La Gazzetta dello Sport. No final de 2013, o San Lorenzo sagrou-se campeão nacional e foi recebido pelo Papa no Vaticano, numa audiência geral a 18 de dezembro que inclui a oferta da camisola oficial ao Santo Padre.

Francisco, o Papa que reformou a Igreja

No ano seguinte, o San Lorenzo vencia a Libertadores frente ao Nacional do Paraguai. Só Deus saberá o real impacto da passagem da delegação argentina pelo Vaticano antes de todos os mundiais disputados desde 2014, mas não estranhe se um compatriota de Francisco associar o triunfo de 2022 no Qatar a essa bênção — ainda que o sumo adepto tenha falhado o visionamento. “Não vi a final. Estava reunido com seis pilotos da Alitalia e as suas mulheres. A certa altura fui buscar qualquer coisa e, quando voltei, um disse-me ‘está a ganhar 3 a 0’, ou 2 a 0, ou 3 a 1, não me lembro”, chegou a contar.

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Com Maradona, em 2014

No dia em que Gian Marco Chiocci, diretor do telejornal da RAI 1, lhe perguntou pelo melhor do mundo, Francisco não se atreveu a decidir entre Maradona ou Messi, votando antes pelo empate e trazendo para esse jogo onde nem os santos arriscariam intrometer-se um outro concorrente de peso, Pelé. Mas foi quando a Mão de Deus apertou a mão do Papa, em 2014, que se deu um dos encontros mais míticos. Diego e Francisco conheceram-se em setembro de 2014, numa partida amistosa no Estádio Olímpico de Roma entre lendas do futebol argentino e italiano. Das mãos de El Pibe, o Papa recebeu uma camisola da seleção argentina com o número 10 e o nome “Francisco”. Haveriam de reencontrar-se, poucos dias depois, na residência de Santa Marta. Em 2016, Francisco haveria de juntar este e outros velhos astros da bola a favor do evento “Unidos pela Paz”.

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