A investigação ao assassinato de um advogado levou a polícia brasileira a descobrir uma agência clandestina dedicada à espionagem e ao extermínio. Os chamados “Caça-Comunistas” podiam ser contratados para vigiar deputados, senadores e até cidadãos comuns. As ligações desta organização criminosa remontam à ditadura militar, e o seu alegado líder está envolvido na tentativa de golpe de Estado pela qual Jair Bolsonaro está a ser julgado — processo dirigido por Alexandre de Moraes, que é um dos alvos desta rede.

Nesta quarta-feira, a Polícia Federal do Brasil anunciou a descoberta de uma “organização criminosa responsável pela prática de crimes como espionagem e homicídios por encomenda”. A sétima fase da Operação Sisamnes visava identificar os mandantes e coautores do assassinato de Roberto Zampieri, advogado executado com dez tiros, em dezembro de 2023, em frente ao seu escritório, em Cuiabá (Mato Grosso). Mensagens encontradas no telemóvel da vítima conduziram os investigadores até ao autoproclamado “Comando C4”.

O “Comando de Caça a Comunistas, Corruptos e Criminosos” revela uma ideologia extremista marcadamente política. A sua designação inspira-se no antigo “CCC” (Comando de Caça aos Comunistas), grupo de extrema-direita que, durante a ditadura militar, agia com violência contra militantes de esquerda, artistas e representantes de movimentos sociais. Contudo, esta nova agência apresenta uma estrutura consideravelmente mais sofisticada e organizada do que o seu antecessor histórico.

Segundo documentos a que a TV Globo teve acesso, o grupo fornecia aos seus “clientes” uma tabela detalhada de preços, que variava conforme o perfil do alvo e os recursos necessários para executar cada operação. Os custos incluíam arrendamento de imóveis, contratação de “iscas” (prostitutas e gigolôs), disfarces como perucas e bigodes, além de equipamentos de ponta como drones, rastreadores, armamento pesado e tecnologia de espionagem de acesso restrito. O grupo recorria ainda a veículos com matrículas falsas, hackers e indivíduos com experiência em inteligência.

O valor das operações variava de acordo com a posição da vítima: 250 mil reais (cerca de 39 mil euros) para ministros do Supremo Tribunal Federal e outras figuras do poder judicial; 150 mil reais (cerca de 23,4 mil euros) para senadores; 100 mil reais (15,6 mil euros) para deputados; e 50 mil reais (7,8 mil euros) para cidadãos comuns.

[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 2.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui.]

Entre os nomes identificados em documentos e agendas apreendidas, destacam-se Cristiano Zanin — magistrado do processo que deu origem à operação em curso —, Rodrigo Pacheco, presidente do Senado, e Alexandre de Moraes, juiz relator do julgamento dos atos golpistas de 8 de Janeiro de 2023. Apesar de no caso de Moraes e Zanin não se especificar o tipo de ação planeada, a agenda menciona expressamente o monitorização de Pacheco. A simples inclusão destes nomes, contudo, já revela a ousadia e o grau de perigosidade da rede, sublinha a imprensa brasileira.

A citação do nome de Alexandre de Moraes assume particular relevância, uma vez que o suposto líder do grupo de extermínio, segundo informações da CNN Brasil, Luiz Caçadini, está implicado no processo que investiga a tentativa de golpe de Estado de 8 de Janeiro. O corronel reformado é acusado de incitar o confronto com as Forças Armadas, ao criar — dias antes dos ataques — um perfil nas redes sociais chamado Frente Ampla Patriótica, usado para mobilizar apoiantes contra os Três Poderes.

No caso que deu origem a toda esta investigação, Caçadini é suspeito de ter financiado a morte de Roberto Zampieri. Estarão ainda envolvidos o produtor rural Aníbal Manoel Laurindo (apontado como mandante), António Gomes da Silva (autor dos disparos), Hedilerson Barbosa (dono da pistola 9 mm utilizada) e Gilberto Louzada da Silva (com função ainda não esclarecida).

As investigações ao “Comando C4” e ao homicídio de Zampieri permanecem em curso. Todos os suspeitos estão em prisão preventiva, por ordem do Supremo Tribunal Federal. Foram também decretadas medidas cautelares como vigilância electrónica, buscas e apreensões nos estados de Mato Grosso, São Paulo e Minas Gerais, recolhimento domiciliário noturno, proibição de contacto entre os investigados e interdição de saída do país, com apreensão dos respetivos passaportes.

Texto editado por Dulce Neto