Cem militantes do Bloco de Esquerda do distrito de Santarém anunciaram as razões para se terem desfiliado do partido “ao longo dos tempos mais recentes”, numa carta enviada às redações. A missiva, intitulada “Porque saímos do Bloco de Esquerda”, é subscrita pelo ex-deputado do partido Carlos Matias, que diz ter-se desvinculado. A direção do partido reage acusando a antiga corrente Convergência — crítica dos consulados de Catarina Martins e Mariana Mortágua — de ter lançado um “conjunto de desfiliações programado”.

Na carta é criticado o centralismo da tomada de decisões partidárias, sustentando-se que quem não pertence aos grupos dominantes do partido é “sistematicamente excluído de lugares elegíveis”. A atual direção é acusada de “nunca assumir a responsabilidade pelas sucessivas derrotas eleitorais, fugir aos balanços e justificar-se sempre com as dificuldades da conjuntura.”

“Pior. Para não enfrentar as suas responsabilidades, a maioria da direção desencadeia um processo de progressiva centralização das decisões, afastando vozes incómodas ou não controladas pelo aparelho”, lê-se. Nessa linha, os militantes criticam “as propostas da Distrital de Santarém que são deixadas sem resposta” e fazem referência a “funcionários do partido” que “são vítimas de práticas que envergonhariam muitos patrões”. Avisam: “O caso das aleitantes não é único“.

Numa reação enviada ao Observador horas depois da publicação da notícia, o secretariado do Bloco nota que das 103 desfiliações anunciadas foram recebidos, efetivamente, 89 pedidos. Destes, dois terços vêm da concelhia de Salvaterra de Magos. “Esta saída integra um conjunto de desfiliações programado pela antiga corrente interna Convergência, no quadro da sua decisão de abandono do Bloco de Esquerda. O primeiro anúncio como este ocorreu há três meses, lançado em nome de um conjunto de aderentes de Portalegre”, lembra o secretariado.

A direção antecipa que a debandada não ficará por aqui: “Este conjunto de desfiliações, como outros que se seguirão, foi programado e anunciado há muito pela corrente Convergência e mantém-se mesmo depois da decisão da Mesa Nacional de reiniciar o processo de Convenção para que, face ao novo quadro político, todas as opiniões e correntes internas se possam apresentar como alternativas”, lê-se na mesma nota. “O Bloco lamenta todas as saídas de aderentes. Este é o tempo de juntar forças, de reforçar o debate e a cooperação, e não tempo do abandono, do sectarismo ou da fragmentação à esquerda”.

Num gráfico enviado ao Observador, é possível constatar que desde as eleições de 18 de maio se registaram 122 saídas do partido, mas em compensação houve “452 pedidos de entrada ou de reentrada”.

Dissidentes não acreditam em “qualquer hipótese de regeneração”

Em entrevista à Rádio Observador, Carlos Matias argumenta que os assinantes da carta “entendem que não há qualquer hipótese de regeneração do Bloco de Esquerda”, porque considera que o projeto político foi “liquidado internamente”. O ex-deputado bloquista, que contou ter-se desvinculado na véspera das eleições de 18 de maio, diz que este processo de “degradação” não começou com a liderança de Mariana Mortágua, mas teve início “a meio do Governo da geringonça”

A distribuição de recursos e funcionários pelas organizações distritais depende da fidelidade ao centro único e à “linha oficial”, dizem; o apoio a iniciativas de núcleos depende de serem ou não “fiéis” ao pequeno núcleo central, acusam; propostas de iniciativas da Distrital de Santarém são deixadas sem resposta, apontam; funcionários do partido são vítimas de práticas que envergonhariam muitos patrões (o caso das aleitantes não é único), exemplificam; quadros com provas dadas são destratados pela intriga de corredor, criticam.

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Os aderentes de saída acusam ainda o partido de estar “deslizando placidamente para o velho centralismo democrático, castrador e sem democracia” e de ter substituído a “afirmação de um projeto global alternativo de sociedade” por “cadernos reivindicativos parcelares”.

A experiência da geringonça é referida como “uma opção adequada numa conjuntura específica” que acabou por “impregnar irremediavelmente a linha estratégica do BE”. Agora, os assinantes admitem que o partido chegou a um ponto em que consideram que “definitivamente bloqueia qualquer esforço regenerador”.

Em fevereiro, na sequência do caso dos despedimentos das mães, foi noticiado que 70 militantes bloquistas de Portalegre tinham abandonado o partido. Na altura, a direção do Bloco disse que estes dados “careciam de confirmação”, sendo que apenas tinha conseguido confirmar 14 pedidos de desvinculação, enquanto assinalaram que todas essas saídas eram de aderentes que não tinham pago as quotas no ano anterior.

Agora, na carta dos militantes de Santarém, que data da segunda-feira passada, e que ainda não teve reação da estrutura do partido, que disse estar a analisar os cem nomes antes de emitir qualquer declaração, nota-se que entre os assinantes “está a maioria da atual Comissão Coordenadora Distrital [de Santarém] e todo o seu secretariado, estão ex-deputados municipais e de freguesia, ex-vereadores e um ex-deputado da Assembleia da República.” Mas não é claro qual o horizonte temporal em que as referidas desvinculações ocorreram.

*Notícia atualizada às 17h00 com as declarações de Carlos Matias e às 17h50 com a reação do secretariado do Bloco