O afastamento de Victor Hugo Salgado pelo PS, depois do inquérito por suspeitas de violência doméstica, foi mal recebido pelas estruturas socialistas de Vizela — e também na distrital de Braga —, que ainda na semana passada estiveram na sede nacional do partido a argumentar a favor do autarca de Vizela. A direção nacional manteve a decisão tomada, que é também defendida pelo futuro líder, José Luís Carneiro, e prepara-se uma cisão local em toda a linha.

A insatisfação da estrutura concelhia e de alguns elementos da federação distrital do PS de Braga fez com que os respetivos secretariados fossem chamados à sede nacional, em Lisboa, pelo líder interino e presidente do partido, Carlos César, segundo apurou o Observador junto de várias fontes do partido. Numa altura em que se ultimam as candidaturas às autárquicas, existia ainda expectativa de a situação poder estar em aberto, tendo em conta que é eleito um novo líder apenas no próximo sábado. Mas saíram como entraram: sem o apoio político do PS à recandidatura do presidente da Câmara de Vizela.

Carlos César manteve o que já tinha dito no dia em que o Observador noticiou um segundo inquérito por suspeitas de violência doméstica — dessa vez estava em causa o filho menor e já tinha sido arquivado o primeiro inquérito: “Não confiamos nessa pessoa para ser novo candidato a nenhum lugar”. A posição vale para o futuro, apurou o Observador, e José Luís Carneiro já terá feito saber isso mesmo ao autarca que nas últimas eleições encabeçou a lista do PS em Vizela.

O alargado grupo de Vizela que esteve no Largo do Rato em defesa de Salgado deixou, no entanto, a ameaça de listas independentes no concelho — o que a imprensa local já tinha adiantado como provável, se o autarca continuasse barrado pelo partido. Contactado pelo Observador, Victor Hugo Salgado não quis prestar declarações sobre este assunto, sendo certo que tem o apoio dos candidatos do PS às freguesias do concelho que já admitiram enfrentar o partido, caso se mantivesse o bloqueio da direção nacional.

O PS pode, assim, enfrentar uma rutura total em Vizela, ficando sem candidatos autárquicos, a poucos meses do período eleitoral (a data das eleições será marcada pelo Governo nas próximas semanas). “A situação não é consensual“, explica fonte do partido que aponta a pressão que existe em Vizela onde diz existir uma “avaliação positiva da obra” do autarca.

Contactada pelo Observador, a líder da federação distrital do PS/Braga, Liliana Matos Pereira, não quis adiantar nada sobre a situação, dizendo apenas que “tudo está em cima da mesa“. A dúvida que se mantém é se o partido ainda avançará com candidaturas alternativas, enfrentado a candidatura do seu antigo autarca.

Recorde-se que Liliana Matos Pereira foi quem substituiu Salgado quando este foi foi afastado, em abril, por Pedro Nuno Santos do comando da distrital. Nas últimas legislativas, no comício em Braga, fez-se notar por, no contexto que era público, ter  feito um discurso focado nas mulheres e tocando no tema da violência doméstica. “Não pode haver democracia plena enquanto houver mulheres incapazes de denunciar agressões”, disse quando defendia a igualdade de direitos.

O caso de alegada violência doméstica de Victor Hugo Salgado foi o que desencadeou a crise local do PS que tinha em Vizela um poderoso reduto eleitoral — não era por acaso que nas últimas campanhas nacionais do partido era sempre ponto de passagem obrigatório para os líderes, sendo a exceção as últimas legislativas, tendo em conta a então recente retirada de confiança política a Salgado.

A relevância local do socialista é conhecida. Nas últimas autárquicas, Victor Hugo Salgado tinha tido 74% dos votos, quando concorreu na lista do partido. Mas nas eleições anteriores, em 2017, já tinha ganho como independente, depois de romper com o PS. Tinha sido ‘vice’ do então presidente da Câmara, Dinis Costa, mas enfrentou-o nas eleições internas para a escolha do candidato socialista à Câmara, saindo derrotado. Perdeu no partido, mas mesmo assim avançou como independente e ganhou as eleições em Vizela com 38,8% dos votos, deixando o PS atrás do PSD, em terceiro lugar.

Em 2021, fez as pazes com o PS então liderado por António Costa e encabeçou a lista do partido à Câmara. No ano passado ganhou também as eleições para a liderança da distrital do PS-Braga e era um dos líderes distritais mais próximo de Pedro Nuno Santos. Em abril, o Observador noticiou o primeiro inquérito a suspeitas de violência doméstica e o então líder do PS exigiu a saída de Salgado e retirou o apoio à sua recandidatura à Câmara.

Violência doméstica. Pedro Nuno exige saída de líder do PS/Braga e retira apoio a recandidatura

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