O novo líder do PS queria manter alguns membros da anterior direção do PS na sua equipa para dar um sinal interno de unidade, mas teve dificuldades. Nos convites para a nova direção, José Luís Carneiro deparou-se com negas, mas sobretudo indisponibilidades manifestadas logo à partida. A maioria dos socialistas que tinha feito parte da equipa mais próxima de Pedro Nuno Santos não esteve disponível para ficar, alguns preferindo manter-se apenas na direção da bancada parlamentar. Carneiro foi à procura de pontes por outros lados para garantir “diversidade”.
Este sábado, depois de aprovar o novo secretariado na Comissão Nacional do PS, vai também anunciar que pretende criar um Conselho Estratégico que junte notáveis do partido e figuras que representem várias áreas da sociedade civil. A ideia de Carneiro é que esta estrutura possa reunir-se a cada três meses e que seja um “espaço de aconselhamento do secretário-geral”, explica fonte do partido.
Este Conselho vai, depois, coordenar-se com o gabinete de estudos do PS para o qual Carneiro ainda procura um diretor. Um dos nomes que tentou ter à frente desta estrutura foi o de Ascenso Simões. mas o antigo deputado e secretário de Estado (que tem sido uma voz socialista presente na opinião publicada, com críticas a várias lideranças) não aceitou, segundo apurou o Observador. O gabinete ganha especial importância numa altura em que o partido estão não só na oposição, como tem a necessidade de promover uma reflexão interna depois do desastre eleitoral nas legislativas.
Mas é na direção nacional que Carneiro terá o órgão de aconselhamento mais permanente e onde já disse que vai contar com Sérgio Sousa Pinto, Francisco Assis, Ana Catarina Mendes (que esteve no grupo que tentou uma alternativa a Carneiro para estas diretas), Inês de Medeiros e Maria Antónia Almeida Santos. E a estes vão juntar-se, segundo apurou o Observador, outros como João Azevedo, Susana Amador, Ricardo Costa, Filipe Costa ou André Moz Caldas (que foram os coordenadores da moção de Carneiro). O Observador sabe que Pedro Costa, próximo de Duarte Cordeiro e de Pedro Nuno Santos (e filho de António Costa) foi também convidado a fazer parte do órgão mais restrito e aceitou.
Carneiro vai “renovar” direção do PS, mas quer manter alguns nomes do passado
No caminho para compor a sua proposta de secretariado, que vai levar à reunião Comissão Nacional do PS, Carneiro não teve vida fácil, com aquele que já é apelidado internamente como “núcleo de Lisboa” a preferir manter distância. Mariana Vieira da Silva, Duarte Cordeiro e Fernando Medina não quiseram estar neste órgão, apurou o Observador, preferindo participar na vida interna a outros níveis: Vieira da Silva na direção da bancada parlamentar, Cordeiro na comissão política nacional (o órgão de direção mais alargado que só será eleito depois do congresso), bem como Medina — em 2023 foi apoiante de Carneiro nas diretas contra Pedro Nuno, mas agora prefere manter-se mais distante.
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O posicionamento deste grupo é visto como tático, de marcação de espaço para o futuro, ou seja, a oficialização de uma oposição interna. Deste “núcleo” só Ana Catarina Mendes aceitou entrar no secretariado de Carneiro. Quanto ao mais, na busca da representatividade das várias alas, restou ao novo líder ir à volta e procurar ter elementos que permitissem fazer uma ponte com estas figuras: é aqui que entrará Pedro Costa, por exemplo.
Mas a chamada de nomes como o de Assis, Sousa Pinto ou Ana Catarina Mendes é vista no partido como arriscada. “São polarizadores e divisivos“, diz um socialista ao Observador. Ainda esta quinta-feira, em entrevista ao programa Vichyssoise, na rádio Observador, o socialista José António Vieira da Silva mostrava desagrado com estas escolhas. Foi um dos principais apoiantes de Carneiro nas diretas de 2023, mas nas atuais afastou-se e assume agora uma posição crítica sobre a entrada destas figuras na direção: “Apoiaram Pedro Nuno Santos há pouco tempo, dizendo que era preciso uma profunda renovação de protagonistas. Bom, agora vão ser eles protagonistas. Não sei se isso se enquadra na renovação, mas, como diria António Guterres, é a vida”, ironizou.
Integração difícil
Já quanto à manutenção de socialistas da direção anterior, o plano do líder saiu ao lado. Pelas contas do Observador, podem acabar por manter-se na direção apenas Pedro Coimbra, João Torres e Marcos Perestrello, que no Parlamento tem funções de vice-presidente da Mesa da Assembleia da República. De resto, foi a debandada geral.
Alexandra Leitão, tal como Duarte Cordeiro, fizeram logo saber que deixariam o seu lugar na direção vago para o líder compor a sua nova equipa. Mariana Vieira da Silva e António Mendonça Mendes foram convidados a ficar mas recusaram e aceitaram apenas manter-se como vices da bancada parlamentar. Marina Gonçalves, Pedro Delgado Alves, Isabel Moreira e Pedro Vaz (que era secretário para a organização) nunca estiveram disponíveis para ficar neste órgão — muito deles foram logo sinalizando a Carneiro que estariam disponíveis para a direção da bancada parlamentar e não mais do que isso. Uma participação que, no grupo de Carneiro, se aponta como sinal da tal “diversidade”, já que acabam por integrar um órgão de direção política do partido.
Mariana Vieira da Silva não quis integrar direção de Carneiro
Da anterior direção ficam, no entanto, os secretários nacionais por inerência, ou seja, o coordenador da comissão de gestão, que é João Paulo Rebelo e também outro elemento forte do pedronunismo, Francisco César (que preside ao PS-Açores). Ficam também o presidente do PS-Madeira, Paulo Cafôfo, e as líderes da JS e das Mulheres Socialistas, Sofia Pereira e Elza Pais.
José Luís Carneiro pega no partido depois da demissão de Pedro Nuno Santos e numas eleições diretas marcadas rapidamente — contra a vontade do tal “núcleo de Lisboa” — que fizeram com que herdasse os órgãos de direção do anterior líder. No caso do secretariado vai já fazer uma proposta de alteração, na Comissão Nacional deste sábado, para poder ter uma equipa sua. Mas a Comissão Política Nacional ficará para a altura do congresso que ainda irá marcar.
Na semana passada, o Observador noticiou que a intenção do novo líder era “renovar” o secretariado, mas mantendo algumas das figuras da anterior equipa num esforço de integração. Na cabeça de Carneiro estava também a necessidade de ter neste órgão de direção política “uma representação de todo o território“, “competências políticas diferenciadas” e também “várias gerações” do partido. A proposta final irá a votos este sábado.