João Cotrim Figueiredo, antigo presidente da Iniciativa Liberal, é candidato à Presidência da República nas eleições de 2026, confirmou em entrevista à SIC. O atual eurodeputado liberal assumiu que estava a ponderar a entrada na corrida a Belém há praticamente um mês, na Convenção da IL, e acabou agora por oficializar essa candidatura. “Posso anunciar que sou candidato à Presidência da República”, assumiu.

“Quero fazer desta uma candidatura mais abrangente”, referiu Cotrim Figueiredo, que citou Fernando Pessoa para justificar a entrada na corrida: “Tenho a certeza de que as obras grandes nascem sempre do sonho ou da imaginação de alguém que pensam um bocadinho mais à frente e olho para este país e gostava que fosse um país mais avançado, menos cinzento, menos bafiento, mais arejado, que fosse muito mais moderno.”

Cotrim Figueiredo confirmou que terá o apoio da Iniciativa Liberal, considerou que nenhum outro partido esteja em “condições” de declarar esse mesmo apoio, disse que recebeu “centenas de mensagens de pessoas de muitos partidos” para o incentivarem a avançar e sentiu que não está sozinho (“muitas pessoas me disseram ‘ainda bem porque não sabia em quem votar'”). “Imagino aquela faixa de eleitorado, especialmente os mais jovens, a olharem para a atual oferta de candidatos e a não se reverem”, explicou o mais recente candidato a Belém.

“Estou muito mais preocupado pelo facto de ter sentido que até há pouco tempo havia uma faixa grande da população, os tais mais jovens e mais dinâmicos, que não tinham em quem votar do que terem demasiados em quem votar”, argumentou, frisando que a dispersão de votos no centro-direita não o assusta. “Ninguém está a apontar, com a clareza com que eu estou, a este público de portugueses que quer fazer um Portugal diferente, mais moderno e mais arejado. Não vejo concorrência nesta faixa.”

E aproveitou para justificar a presença com uma gravata, pouco habitual para o agora candidato: “Apareço de gravata pela primeira vez na televisão, é um símbolo de que sei respeitar as tradições que vêm com a função, mas saberei introduzir modernidade.”

Recordado do facto de, em tempos, ter dito que um Presidente da República tinha de ser um “farol”, Cotrim considerou que “qualquer Presidente da República que interprete as suas funções deve ser um farol para as pessoas que o elegem e mesmo para aquelas que não o elegem, que seja uma referência, e mesmo para os próprios governantes”. E acrescentou: “Um farol no sentido de ser uma referência, de mostrar um caminho e não deixar que a espuma dos dias nos consuma.”

Ainda que não estabeleça um objetivo concreto, João Cotrim Figueiredo reconheceu que, pessoalmente, “ficaria insatisfeito se tivesse percentagem inferior à que [teve] nas eleições europeias”, mesmo antes de saber quem são todos os adversários. A somar a isso, considerou que há “condições de chegar aos dois dígitos” com uma determinada campanha.

Sobre essa campanha, Cotrim não quis revelar pormenores, mas antecipou o slogan “Imagina Portugal” — que surgiu na página oficial das redes sociais minutos depois do anúncio da candidatura. O candidato a Belém confirmou que tem “parte central da equipa constituída”, desde logo mandatário financeiro, mas referiu que não gostaria que a apresentação oficial distraísse nem as autárquicas nem da discussão do Orçamento do Estado. Será, por isso, oficializada algures nesse “hiato” temporal “relativamente pequeno”.

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“Não tirei um ano depois da minha reforma para fazer campanha pelo país”

Tal como já tinha antecipado durante a entrevista ao Observador onde confirmou que estava a ponderar, Cotrim Figueiredo reiterou que não vai deixar o cargo de eurodeputado. Ainda neste sentido, e depois de Gouveia e Melo o ter criticado por ser “candidato em part time“, Cotrim Figueiredo diz que estará a “defender Portugal em full time, quer na Europa quer nesta candidatura”. “Não tirei um ano depois da minha reforma em qualquer profissão para andar a fazer campanha pelo país, estou a trabalhar por Portugal todos os dias.”

E ainda ironizou: “Achei graça à reação porque foi muito rápida, a minha disponibilidade deve tê-lo afetado de alguma maneira.”

Relativamente a Gouveia e Melo, Cotrim Figueiredo notou que o pensamento político do almirante “não é conhecido” e argumentou que no discurso de apresentação de candidatura “estar a falar de políticas setoriais” parece um “contrassenso”.

“Alguém que é eleito torna-se Presidente de todos os portugueses. O meu passado político é curto mas é muito conhecido, toda a gente sabe que fui presidente da IL, não renego, é a minha origem, são as minhas convicções ideológicas. Longe de mim, durante a campanha, estar a fazer das convicções que expressei assunto de campanha eleitoral”, salientou, frisando que “estar a delimitar soluções [é] descabido”.

Questionado sobre as declarações de Marcelo Rebelo de Sousa relativamente aos incêndios, Cotrim Figueiredo não considera que “as políticas setoriais devam ser discutidas em público”, realçando que a opinião de um Presidente da República deve ser apresentada com “parcimónia”. Além disso, não acha “boa ideia” comentar casos “quando os assuntos estão candentes”.

Sobre o facto de ter deixado a liderança da Iniciativa Liberal, João Cotrim Figueiredo explicou: “Nem eu nem ninguém imaginava que um governo de maioria absoluta [de António Costa] iria cair ao fim de poucos meses. Imaginei que legislatura ia até 2026, que em 2026 teríamos oportunidade de ter um bom resultado e assumir de facto funções governativas até 2030, altura em que eu teria 70 anos. Eu não tinha a certeza de que seria a melhor pessoa para, aos 70 anos, corporizar função executiva num governo. Enganei-me. Não vi a queda de um possível governo de maioria absoluta. Foi um erro de apreciação.”