O Prémio Polori, uma das mais reconhecidas distinções literárias britânicas dedicadas à escrita LGBTQ+, não será atribuído este ano. A decisão, segundo a BBC, foi anunciada depois da polémica causada pela inclusão de John Boyne na lista da edição de 2025 com o seu romance Earth — que provocou contestação por parte da comunidade literária e resultou numa onda de desistências.
O escritor irlandês, conhecido pelo livro O Rapaz do Pijama às Riscas, declara-se TERF — Transgender Exclusionary Radical Feminist (em português, Feminista Radical Trans-Exclusivista) — e em julho publicou no Irish Independent um artigo no qual defende J.K. Rowling, escritora que tem posições públicas consideradas transfóbicas. No texto, Boyne escreveu que “os críticos de Rowling afirmam que ela é transfóbica, o maior pecado do nosso tempo, e usam a habitual hipérbole entediante para a demonizar”. Na mesma peça, comparou as mulheres que criticaram a autora de Harry Potter a personagens de The Handmaid’s Tale que “consentem a sua própria opressão”.
Estas declarações motivaram reações de diversas pessoas do meio literário. Sacha Coward, autor de Queer as Folklore: The Hidden Queer History of Myths and Monsters, retirou a candidatura ao prémio, uma vez que “não pode continuar de boa fé” num concurso que deveria ser de “inclusão, não exclusão e divisão“. Também Jason Okundaye, jornalista e escritor, decidiu abandonar a competição, justificando ao The Guardian que os pontos de vista de Boyne são “abomináveis” e que se sente “enganado quanto aos princípios subjacentes à organização”.
No total, 16 dos 24 participantes desistiram e, pelo menos, dois jurados apresentaram a demissão. Entre os que contestaram a participação de Boyne esteve ainda um grupo de 800 escritores (incluindo nomes como Alice Oseman, autora de Heartstopper, Nikesh Shukla, Julia Armfield, Naoise Dolan e Seán Hewitt) que assinaram uma carta aberta a denunciar a participação do irlandês como “incompatível com os valores básicos da comunidade LGBTQ+”.
Boyne estava nomeado para o prémio, uma vez que Earth se alinha com a escrita LGBTQ+, contando a história de Evan, um futebolista homossexual que sempre quis ser pintor e que se vê obrigado a seguir a carreira desportiva, enfrentando um mundo pouco tolerante em relação às escolhas de cada um. A história é contada em flashbacks enquanto o jovem, de 22 anos, aguarda julgamento pelo crime de agressão sexual, percebendo que precisa de enfrentar a dúvida sobre quem realmente quer ser.
Face a esta polémica, os organizadores do prémio literário reconheceram “a dor e a angústia causadas” e pediram desculpa aos autores, leitores e jurados. “O que era para ser uma celebração da excecional literatura LGBTQ+ foi, em vez disso, ofuscado pela mágoa e pela raiva“, pode ler-se na nota oficial. A organização garantiu ainda que o Polari “não é e nunca foi uma plataforma de exclusão trans” e condenou “todas as formas de transfobia”.
Os responsáveis comprometeram-se, ainda, a rever os critérios de participação, garantindo maior representação de autores e jurados trans e não binários. “Trata-se de um momento de reflexão e de aprendizagem. Faremos todos os esforços para regressar em 2026 com mais solidez e inclusividade“, afirmaram, descrevendo o cancelamento da edição deste ano como “pausa e reflexão” perante o clima de contestação e divisão que se instalou.
John Boyne, por seu turno, rejeitou as críticas, defendendo nas redes sociais que as suas “opiniões sobre os direitos trans nunca mudaram” e que tem sido alvo de “bullying e intimidação“, tendo estado “muito perto do limite por causa do assédio interminável por parte de estranhos e colegas escritores”.
I've remained silent over the last week with regard to the @PolariPrize as I wanted to get my thoughts in order.
Many thanks to all the people who've contacted me with messages of support.
This is all I have to say, and all I will ever say, on the subject. -JB pic.twitter.com/PKuo2X91pD
— John Boyne Books (@JohnBoyneBooks) August 14, 2025
Ao Telegraph, Boyne lamentou que nenhum dos organizadores do concurso o tenha contactado diretamente para diálogo ou esclarecimentos — o que, acredita, poderia ter evitado a escalada de toda a polémica.
O autor defende, também nas mesmas declarações, que os prémios literários deveriam celebrar a qualidade e a criatividade das obras em vez das posições pessoais, sendo que a comunidade literária deveria valorizar o debate civilizado e o livre pensamento.
J.K. Rowling, cuja posição sobre o tema esteve no centro da polémica, defendeu o escritor irlandês, escrevendo nas redes sociais: “Oh, vão-se lixar. Espero que todos comprem o dobro dos livros de John Boyne, a) porque ele é brilhante e b) para irritar os talibãs do Género”.
Oh, fuck off. I hope everyone buys twice as many @JohnBoyneBooks, a) because he’s brilliant, and b) to piss off the Gender Taliban. pic.twitter.com/FrTs424kAs
— J.K. Rowling (@jk_rowling) August 9, 2025
Criado em 2011, o Prémio Polari destina-se a autores nascidos ou residentes no Reino Unido ou na Irlanda que abordem, nos seus livros, vivências ligadas à comunidade LGBTQ+. Espera-se que a iniciativa regresse em 2026.
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