Kompromat. Uma palavra de origem russa que Paulo Portas escolheu para iniciar o seu comentário sobre as polémicas declarações de Marcelo Rebelo de Sousa na Universidade de Verão do PSD sobre Donald Trump, o “ativo russo ou soviético”. E o que é a doutrina Kompromat? É uma expressão que, segundo Portas, costumava ser utilizada pelo KGB, a secreta da União Soviética, para descrever “material comprometedor sobre terceiros”.
“Custa-me criticar alguém por ter dito algo que possivelmente é verdade”, afirmou o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, tendo enfatizado de seguida as possíveis conexões do passado político e financeiro de Trump com a Rússia.
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“Na substância, esta tese tem muitos partidários em muitos lugares do Ocidente. É incompreensível o tratamento absolutamente generoso que Trump dá à Rússia, a promoção da Rússia à categoria de superpotência, as concessões que ele já fez e agora não pode recuar em matéria de Ucrânia”, justificou o comentador.
Portas fez ainda questão de recordar o caso da demissão de Paul Manafort durante a campanha presidencial norte-americana de 2016. “O diretor de campanha da primeira eleição teve de se demitir porque era lobista pró-russo oficial.”
Portas falou também sobre “aspetos na trajetória financeira de Donald Trump que o ligam à Rússia”. “Foi muitas vezes à falência. Os bancos americanos não lhe emprestavam dinheiro sabe por quê? Porque ele tinha o mau hábito de não pagar. E foram várias vezes oligarcas russos, bancos russos, que o resgataram e que o ajudaram. Se isso criou ou não dependências, a história vai dizer. A tese não tem nada de exótico”, disse o comentador.
Contudo, o antigo presidente do CDS considera que, no caso das declarações sobre Trump, está em causa a posição de Marcelo Rebelo de Sousa. “Qual é a diferença entre um comentador e um Presidente? Um comentador pode ter opiniões. Eu disse aqui muitas vezes, por exemplo, que pode acontecer, e seria a primeira vez desde 1917, que o Presidente americano não seja independente na Rússia quando tem que tomar decisões sobre a Rússia. É um pouco mais diplomático, digamos assim. Mas um comentador tem opiniões — boas, más, documentadas, não documentadas. Um Presidente não tem opiniões neste sentido. Representa os interesses do Estado português. Ora, obviamente não faz muito sentido os chefes de Estado, que são máximos representantes da soberania portuguesa no exterior, incompatibilizarem-se com outros Presidentes, porque se não, ninguém fala com ninguém”, realçou.
Sobre potenciais consequências depois da fala do Presidente, Portas conclui: “Se houver consequências, os portugueses ficarão com uma imagem negativa. Se não houver consequências, a questão passará. Mas seja como for, um comentador tem opiniões, um Presidente representa interesses nacionais. E é apenas neste plano que deve falar, quando fala”.
De recordar que, durante a Universidade de Verão do PSD, na passada quarta-feira, Marcelo Rebelo de Sousa deu declarações que geraram polémica internacional.
“O líder máximo da maior superpotência do mundo, objetivamente, é um ativo soviético, ou russo”, afirmou o Presidente da República.
“Em termos objetivos, a nova liderança norte-americana tem favorecido estrategicamente a Federação Russa”, concluiu Marcelo.
Depois da repercussão, apesar de recusar-se a comentar as declarações, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, disse à RTP e ao país que “a condução da política externa cabe ao Governo e portanto obviamente é através do Governo que as posições de Portugal são veiculadas neste plano”.